Série “Entreouvido”

Pequenos contos nascidos de uma frase (ou mesmo de uma só palavra) entreouvida na rua. Meu único compromisso aqui – e apenas comigo mesma – é começar o conto a partir do que ouvir. Em qualquer lugar público. Rua, parque, metrô, padaria.


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O leite antes de derramar

Tenho uma coisa pra te contar, amor – e seu sorriso ao abraçá-la se abre como um leque. Há mais de meia hora estava ali sentado na mureta, esperando. Elétrico, exultante, os gestos agora abraçando a amada, a rua toda, o mundo. A vida com ela, que de imediato diz, Eu também tenho uma coisa pra te contar, Beto

Seu rosto não sorri, inexpressivo, mas ele não percebe.

A minha deve ser melhor, Leninha – ele continua, efervescente. – Consegui o emprego! Entre aquele monte de candidatos, a vaga é minha! Vai mudar nossa vida, querida. Já conversei com o gerente, o pessoal da contratação, amanhã é só levar os papéis. Sei quanto vou ganhar e tudo. A empresa é cheia de mordomias. Carteira assinada, férias, 13o, tudo certinho. E seguro saúde, amor! Já fiz as contas todas, enquanto estava aqui esperando. Vou ter que dar a metade do salário pra mãe, mas já esquematizei tudo, não se preocupe. Com a outra metade, tiro um tanto e abro uma poupança. Depois, quando ganhar um aumento – uma empresa dessas dá aumento conforme o funcionário e você sabe o quanto sou esforçado – vou aumentando a parte da poupança. No final do semestre, vai dar pra comprar aquele fusca do Ednor. Tenho certeza que ele acerta isso comigo. Já me disse que não precisa do dinheiro agora, só mais pro final do ano, quando for se mudar. Então, quando eu tiver outro aumento, continuo botando tudo na poupança. Os extras também vou botando na poupança, tudo. Dependendo, acho que dá pra fazer uma boa grana com os extras. Essas empresas vivem precisando de serviço a mais. Então, daqui a pouco mais de um ano, já vou ter o suficiente pra alugar uma casa pra nós. A mãe fica na dela, podemos até tentar alugar uma casa perto, não sei, isso a gente vê depois, e ela vai ter que entender. Com os extras, vamos comprando os móveis a prestação, tudo de boa qualidade, muito bem escolhido como você gosta. E então, daqui a um ano e meio, no máximo dois … amor, você casa comigo?

Leninha olha pra ele e mal consegue dizer – Você devia ter me deixado contar primeiro, Beto.

E só agora ele olha de fato para o rosto a sua frente, e o vê.

O rosto sério, narinas trêmulas, um tique que ela tem quando está nervosa, e a torna tão vulnerável, e o faz sentir que é seu dever proteger aquela fragilidade – nunca, nada, ele nunca deixará nada de ruim acontecer com ela.

O que foi, amor? Algum problema?

Não… É só que preciso te falar. Queria te falar faz tempo, mas não tive coragem. Hoje me prometi que falaria de qualquer jeito.

Ela faz uma pausa, olha pro chão, como se para certificar que havia um chão ali embaixo.

Eu estou gostando de outra pessoa, Beto.

(Publicado por primeira vez em “O Popular”
)

CONVERSA

“Eu sou uma pessoa ótima. Quem me vê assim, como estou hoje, pode não se dar conta, mas sou. O próprio pastor vivia me dizendo isso. Cumpro minhas obrigações sem pestanejar desde pequeno. Meu pai vivia batendo em meu irmão mais velho, mas em mim não, nunca precisou. Fui bom filho, bom aluno, bom vizinho, bom funcionário, bom esposo. Seria um bom pai se tivesse tido filho, mas o Senhor não quis. Cheguei a ser voluntário no hospital com o pastor: fazia orações com os doentes, levava aos pobres enfermos a benção de Deus. Sempre fui religioso, e há vários anos, graças ao Senhor, sou evangélico. Orgulho muito dessa minha correção na vida, e o pastor era o primeiro a dizer, “Dorival, você é uma pessoa ótima.” Nunca roubei, jamais praguejei nem maldisse a vida nem desejei o mal do próximo. Ficava sempre no meu canto, fazendo minhas coisas da melhor maneira possível, sem mexer com a vida de ninguém, a não ser para ajudar no que podia. Se via um cego na rua, ajudava. Os idosos também, eu ajudava muito. Os animais. Nunca fiz mal a uma mosca. Via a estrada da minha vida como uma linha reta, seguindo sem desvios, sem buracos. Um asfalto lisinho, sabe?, só que branco. E nunca soube o que era perder o controle até o dia que cheguei em casa e peguei os dois na minha cama. Talvez tenha sido por isso, porque nunca tinha tido raiva nem ódio de ninguém, que não soube como reagir. No meu modo de entender, foi como se eu ficasse cego. Mas não fiz cena nem nada, isso não. Não disse nada, ou disse bem baixinho o que pensei, “Adúltera”. Então fui até a cozinha e peguei a faca afiada que ficava no imã de parede que eu havia achado bacana numa oferta da TV e comprei pra ela. Peguei a faca, uma faca boa que também comprei pra ela, faca especial pra fatiar carne que ela dizia pras vizinhas que nunca tinha visto uma faca tão boa assim. Voltei pro quarto. O fulano já não estava lá. Não fiquei sabendo quem era e não quero saber, já perdoei. Mas ela continuava ali na cama deitada, toda enrolada, rosto coberto, no lençol branco do jogo de roupa de cama que eu tinha comprado pro nosso enxoval. Então foi que me aproximei, ergui alto a faca e enfiei. Como não sabia onde enfiar direito, ela demorou a morrer. Continuou um tempão como que arfando debaixo do lençol que ia se inundando de sangue e sujando também minha calça. E eu ali sentado, olhando aquilo como que sem ver e a única coisa que eu pensava era uma coisa só: “Senhor meu Deus, quanto vai valer agora minha vida inteira de correção?”

Local: cela coletiva do Presídio Masculino de Corumbá, dezembro de 2009

(Publicado por primeira vez no site www.cronopios.com.br)

Dona Maria Mioko

Oi, mãe. Estava dando só ocupado, fiquei preocupado. Depois do que aconteceu. Cuidado pra abrir a porta, hein? Olha primeiro pelo visor. É pra isso que ele serve. Se a senhora não se acostumar, vai ser dinheiro jogado fora. E ninguém tem dinheiro pra jogar fora, mãe. Sei, a senhora sempre olhou pela fresta da janela, e eu não te conheço? Mas não é a mesma coisa. Os tempos são outros. Depois do que aconteceu com a vizinha da frente, a Dona Maria Mioko. Eu me lembro, sim, dela e do marido. Dos passarinhos que ele criava. E do barulhão até bonito que eles faziam. Ela soltou tudo depois que o marido morreu? Não suportava? A vida inteira o marido criando a passarinhada, e ela não suportava? Aquele homem era esquisito mesmo, mãe, a molecada da rua tinha medo dele. Diziam que ele esteve na guerra, a senhora lembra? Tinha uns números no braço, e mal falava o português. Morava no Brasil há tantos anos e não falava quase nada. E a dona Maria Mioko, toda pequenina ao lado dele, também sem falar quase nada. Nem com a senhora ela conversava muito, não é? E lembro que tinham uma filha que o pai não deixava brincar com ninguém. Então ela abriu as gaiolas, mãe? No mesmo dia da morte dele? A senhora tem razão, aquela mulher deve ter sofrido muito, a vida inteira. Daquele jeito encurvadinho como ela andava, a senhora tem razão. Mas não é tristeza que dá isso, mãe, é osteoporose. E não, mãe. Não foi de tristeza que ela morreu, foi de assalto mesmo. Não roubaram muita coisa, eu sei, só o dinheiro da bolsa e as jóias. Isso é ladrão pé-rapado que rouba pra comprar droga, mãe. Ladrão grande rouba móveis e eletrônicos e faz as coisas de um jeito que ninguém vê. Ladrão pé-rapado faz de qualquer jeito. E quando a polícia chegou, ela já estava morta. Sei que foi de enfarte, mãe, mas não é tristeza que dá enfarte. É susto. Medo. Sozinha em casa, imagina o susto. Por isso é que eu digo, a senhora precisa de alguém morando aí. Claro que a senhora está ótima e não precisa de nada, dona Iara. Claro que a senhora tem uma saúde de ferro e cabeça excelente. Sua cabeça é melhor que a minha, mãe, rá,rá. A senhora pode ser velha mas não é boba, sei disso muito bem, dona Iara. Rá, rá. Mas cabeça boa ou não é preciso tomar cuidado. O mundo está maluco, mãe. Nada de abrir a porta pra desconhecido, viu? O visor existe pra isso. Como assim? Foi pra conhecido que ela abriu? A senhora viu? A senhora estava olhando pela fresta da janela e viu? Não falou nada pra polícia? Sei que a senhora não gosta de polícia, mas não é possível, mãe! A senhora tem certeza? Sei, claro, a senhora nunca inventou nada de ninguém. Nada que não tivesse visto com seus próprios olhos. Mesmo assim. Que coisa. O neto dela, mãe?

(Publicado por primeira vez em “O Popular”)

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