Primeiro Capítulo


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“COM ESSE ÓDIO E ESSE AMOR”
, Ed. Global, novembro 2010

Capítulo 1

Aí está Lela, chegando.
Respira fundo, olhando o clarão de luz pela nesga da janela do vizinho.
Nuvens inchadas de negrume ficaram para trás.
Bogotá, ela se diz, para se dizer alguma coisa.
Uma decisão é uma ponte que você constrói para o desconhecido. Por mais racional que julgue ter sido, zonas escuras e conseqüências imprevistas estarão lá, espreitando, em algum ponto do caminho.
Quando aceitou a oferta de trabalho na Colômbia, a decisão lhe parecia simples. Clara e certa. Ela queria ir. Queria sair uns tempos do Brasil. Investir em sua profissão. Conhecer mais a América Latina. Queria. Com muita clareza queria. E o prazer do risco que significava deixar tudo e rumar para outro país era uma ênfase a mais.
A proposta de trabalho incluía a construção de uma ponte. Tudo o que ela mais desejava: construir sua primeira ponte. Um projeto que enviara do Brasil venceu uma licitação para a empresa que decidira sua execução em regime de urgência e a contratara para acompanhá-lo.
Melhor, impossível.
Alguns amigos torceram o nariz: Colômbia? Aquele país todo convulsionado? Você vai ter coragem?
Ei, onde é mesmo que nós estamos?, ela respondia. E as balas perdidas do Rio, os assaltos?
Além disso, seu santo é forte, pensava. Ou sua posição de classe, como diria seu padrinho. Seja como for, ela tem sua cota dessa característica quase geral da humanidade, a sensação bem distribuída e inconsciente, o sentimento difuso e protetor de que o acaso ruim acontece aos outros. Não fosse assim, quem sairia de casa?
Lela é mignon, pele clara, cabelos ondulados castanhos mel. Tem uma beleza de surpresas que não se impõe de imediato, mas está lá. Nos olhos escuros, cílios longos e sobrancelhas bem marcadas. Na boca muito bem feita – a parte que prefere em seu rosto. Lela é suave e sem arestas por fora, mas quando ela mesma se olha no espelho, o que vê é o ponto comprometido de uma ferida latente, gerada junto com ela. Nunca foi uma pessoa serena. Jamais será.
No meio da fila cansada e lenta que passa pela imigração e inspeção da entrada, ela mostra o passaporte que o funcionário examina e carimba de modo quase mecânico; depois, espera uma infinidade pela mala, e sai para encontrar o motorista da empresa. É a primeira vez que a aquardam em um aeroporto: folha de papel branco com seu nome escrito à frente do tórax de um senhor moreno, cabelos lisos, sorriso receptivo e jaleco de motorista. Ela se sente uma autêntica profissional.
O motorista a leva direto para o apartamento já mobiliado que a empresa mantém. Andar alto. Bem localizado. Tamanho adequado. Paredes brancas e vazias. Clean.
Atencioso, ele carrega suas malas, e lhe dá as coordenadas da cidade. Marca a hora em que virá buscá-la à tarde para levá-la à construtora.
Tão logo ele sai, Lela abre a janela e olha a cidade.
De um lado, a montanha Montserrat, da cordilheira. Do outro, a planície, a savana. Uma cidade acachapada e buliçosa, ainda apegada a uma pretérita lógica urbana com dois tipos de ruas: as “calles” perpendiculares à montanha Montserrat e as “carreras”, paralelas. No miolo do que deve ser o centro, a herança colonial de casarões espanhóis. Nos bairros, os shopping centers, centros de lavagem de dinheiro do narcotráfico, que ela não consegue ver mas sabe que estão ali porque lhe contaram.
Respira fundo. Sente o ar de cheiros indefinidos. Gosta das cores e do burburinho que vem lá de baixo.

~~

Quando chega à empresa, Lela vai direto para a sala do diretor. Ele se levanta, cumprimenta-a e não consegue evitar o comentário:
Você parece muito jovem.
É verdade. Tipo mignon tem essa vantagem. Ou desvantagem. Pelo jeito, ali seria desvantagem.
As formalidades de praxe. Ela sente o cheiro forte do perfume masculino. Ele chama algumas pessoas a quem a apresenta. A equipe com que vai trabalhar. Todos nada mais que friamente corteses. O que ela esperava? Novata, estrangeira, recém-chegada. Tudo bem. Ela só quer saber onde será sua sala.
E o primeiro dia é assim. A indiferença beirando o desagradável.
Mas Lela não se preocupa demasiadamente com isso. Mergulha no trabalho. É focada e paciente. Relativamente segura. Acredita que aos poucos abrirá seu espaço.
No segundo ou terceiro dia de trabalho, Mercedes, também engenheira da construtora, também jovem, uma figura compactamente loira parecendo se extravasar das roupas muito justas, entra em sua sala, exuberante.
Nesse final de semana, teremos uma festa, diz, toda sorrisos. Vou passar no seu apartamento e você vem comigo. Vai ser divertido.
~

É uma festa de rum e rumba e salsa, em uma casa moderna, com um bonito jardim. Não fosse pelo tipo de música, o tipo de bebida, e a língua falada, poderia ser uma festa como outra qualquer do Rio.
Lela curte seu rum num canto, perto de um janelão, quando Roque se aproxima e se apresenta, à maneira formal dos colombianos.
Ele é alto, moreno, nariz largo, cabelos cortados rente. O que chama atenção em seu rosto são os olhos escuros e encovados, debaixo do mato preto das sobrancelhas grossas formando o ângulo perfeito de um triângulo. Quando fala – e fala muito – as mãos se agitam e fazem seu corpo inteiro participar do que está contando. Risada peculiar, exagerada; exagerada demais se você também não estiver no clima. É cineasta e está trabalhando no argumento de seu primeiro longa-metragem.
Sobre o que será? Lela lhe pergunta.
Sobre a história de uma sublevação que incendiou os Andes e uniu várias regiões da colonização espanhola na América Latina, ele responde. Uma região que hoje corrresponderia a cerca de dez países. E que deixou um rastro tão marcante que o nome do líder, Tupac Amaru, integra o imaginário do nosso Continente. Virou nome de uma organização de esquerda no Uruguai dos anos 60, os Tupamaros, não sei se você já ouviu falar. Costa Gavras fez um filme sobre eles, “Estado de Sítio”.
Não, ela sorri. Quem é?
Um cineasta dos anos 60-70. Um dos grandes e ainda uma referência. Mas acho que hoje só nós da área o conhecemos, não se incomode. Só falei nele para dizer que meu interesse nessa história é entender por que um personagem peruano do século dezoito teve esse alcance. Por que seu nome se converteu em um símbolo de libertação. É aquele tipo de figura meio mítica da qual quase nada se sabe. O que fez, exatamente? Por que se tornou um herói? Não quero falar disso às secas, mas como parte do processo que nos trouxe até aqui da maneira como nos trouxe até aqui. Meu interesse não é o evento histórico como tal, mas como ele faz parte do que vivemos hoje. Olhe para este país. Olhe para o seu. Olhe para o país que quiser, entre nossos vizinhos. Desigualdades, miséria, violência, injustiças por todo lado. Por que nós, na América Latina, ainda não resolvemos esse tipo de coisas básicas?
Suas sobrancelhas dançam com vida própria. Os olhos, ao contrário, se condensam e se afundam mais. Roque é um cara em ebulição, totalmente tomado por seu projeto. E tem algo que o faz bem diferente dos caras que Lela conhece; parece visceralmente apaixonado por coisas que nunca fizeram parte do mundinho de onde ela vem. História, Tupac Amaru, sublevação? Ela costumava achar esse tipo de interesse uma coisa do passado – da pré-história, como dizia a seu pai –, mas por algum motivo – princípio de uma atração amorosa, talvez, ou o apelo glamouroso do “mundo do cinema” – deixa-se contagiar pelo entusiasmo dele. Deixa-se fascinar por essa abertura que ele lhe estende, a possibilidade de acompanhar a criação de uma idéia que se transformará em filme.
Mas Roque quer também saber com detalhes porque Lela está na Colômbia. Em que empresa trabalha, o que faz. E ela conta do seu projeto, a construção de uma ponte na região dos Llanos Orientales, a planície colombiana.
É uma região muito bonita, ele diz. Acho que você vai gostar.
E talvez porque ele é cineasta, ou talvez porque não está muito acostumada ao rum, Lela se vê contando o que poucas vezes contou a alguém. Que foi assistindo a um filme que descobriu sua vocação de engenheira e seu amor por pontes. Pequena, sete ou oito anos, sentada no sofá com seu pai, assistindo a um clássico antigo, “A Ponte do Rio Kwai”, ela abriu um berreiro quando explodiram a ponte de madeira sobre as águas amareladas do rio.
Ainda hoje amo esse filme, diz, e tenho uma cópia que de vez em quando revejo. Já não choro quando a ponte voa pelos ares, mas ainda me emociono ao ver a estrutura ser levada pela corrente. Os verdes da mata, o olhar das moças da aldeia tailandesa, chapeuzinhos de cone e quimonos azul escuro, espiando de longe, sem poder sequer dar um grito, os homens caindo à beira do detonador de explosivo. Para mim, naquela idade, era como se a ponte fosse também um ser vivo. Era tudo a mesma coisa: ingleses, japoneses, americanos, tailandesas, floresta, rio, ponte.
Roque conhece o filme e os dois comentam a trama do clássico que se passa na Segunda Guerra, quando um coronel britânico e seu batalhão de soldados prisioneiros são levados a uma prisão japonesa, em plena selva da Tailândia, para construir uma ponte inimiga. Ponte que passa a ser, aos olhos obcecados do oficial inglês, apenas a obra magnífica que seus homens estão construindo em condições subhumanas, provando aos japoneses a superioridade e disciplina do exército britânico. Enquanto isso, porém, o exército aliado envia um grupo de sabotadores para destruí-la e impedir que cumpra seu papel estratégico para o exército japonês. São, todos os envolvidos na história, homens obcecados por sua missão – ou pelo que acreditam ser sua missão. E embora prisioneiro, o coronel britânico sente-se no comando ao contemplar a obra: os dois quadriláteros inclinados sustentando a estrutura de madeira, dois triângulos por cima, dois por baixo a cada extremidade da ponte. Ponte feita com a madeira sólida dos olmos e capaz de resistir 600 anos, como a Ponte de Londres. E por ela, o eufórico coronel esquece tudo. Esquece a guerra, esquece o que realmente faz ali. Enlouquece com a beleza da ponte que foi capaz de construir. É a civilização levando à mesma loucura, à mesma irracionalidade da barbárie. A ver sua ponte destruída, o coronel prefere que os trens inimigos passem. Para defendê-la, ataca os aliados que vieram explodi-la.
E o final antológico, comenta Roque, o médico britânico prisioneiro, caminhando sobre as pedras ensangüentadas da margem do rio, entre os homens mortos e os destroços da ponte, repetindo, atônito: Madness. Madness. Loucura. Loucura.

~~

Naquela primeira noite, ao escutar a risada contagiante de Roque, Lela pensou: dá pra confiar em um cara que ri assim. Por mais entusiasmado que esteja com seu filme, ele não parece desses tipos autocentrados, convencidos da importância de si mesmos e da superioridade de suas coisas frente aos projetos dos demais. Não é um autista, como era Daniel, de quem, até para sua própria surpresa, ela não sente falta. Curioso, mas essa é a constatação que faz: Daniel é totalmente passado. Não tem sequer vontade de abrir os e.mails que ele continua lhe enviando, como se fosse incapaz de compreender como alguém em sã consciência pôde lhe dar um fora. Algo incompreensível para uma pessoa que só vê a si mesma na relação, acordar uma bela manhã e perceber que a mulherzinha, que escutava seus eternos monólogos, sumiu!
Como assim?! Surtou?
Ao decidir terminar aquele namoro que havia se estendido demais, Lela pretendia passar um tempo descansando das lides sentimentais; e, no entanto, ali estava, encantada com Roque, mal chegara.
E essa é também outra constatação que faz: não é de ficar sozinha.
Melhor assim.

~

Com Roque, ela começa a conhecer Bogotá. E gosta fácil do que vê.
O que o deixa surpreso: vê-la aceitar tão bem as idiossincrasias do país. Em geral, quem chega vê sobretudo nossos defeitos, ele diz.
Tem gente que não sabe fazer as malas, Lela responde. Levam todos seus defeitos por onde quer que viajem – sorri. Mas talvez eu tenha mesmo uma identificação especial com os países latinos inscrita no meu hard-core. Meu pai é professor de literatura sul-americana e cresci escutando músicas latinas. Quando comecei a viajar por minha conta, a primeira viagem que fiz foi à Bolívia e ao Peru. Depois, Argentina e Chile. Gostei de todos.
Os dois estão a caminho do apartamento de Lela.
É a primeira vez que Roque vai até lá e, ao chegarem, luzinha vermelha piscando na secretária eletrônica, ela escuta as mensagens. Quando desliga, ele pergunta, surpreso, Micaela? Seu nome é Micaela?
Sim. Lela é apelido.
É o nome da mulher de Tupac Amaru, Micaela Bastidas – ele diz, achando graça.
Ah, esse meu nome de heroína! ela comenta. Deveria existir uma lei proibindo os pais de buscar originalidade nos nomes dos filhos. Ela tem birra desse nome duro, de som engasgado, esse ca-ca-ela. Na escola, ficava mortificada quando os meninos a chamavam de Mica, feminino óbvio de mico. A saída foi adotar o apelido de Lela, e evitar sempre que possível dar seu nome completo para não correr o risco de alguém pensar no apelido que não tolera. Pequeno trauma de infância que me seguiu até hoje, acredita? Sou cheia de traumas de infância, ela avisa. Esse é o menor deles.
A risada de Roque ecoa pelo apartamento.

Lela havia pedido para ler o argumento de seu filme, e Roque não demorou a lhe passar uma cópia do que já havia escrito.
Talvez você estranhe a forma – disse, – mas um argumento tem essa vantagem: cada um faz como quer. Nesse momento, minha preocupação é contar a história da melhor maneira possível, ainda sem me preocupar com as cenas ou sua concatenação definitiva – o que começarei a fazer no primeiro tratamento do roteiro. E também ainda sem definir a ponte que eu quero que o filme construa com o presente. Por enquanto, o que preciso é apresentar a história para Mr. Bo e sua equipe.
Ele já havia lhe contado que em seis meses tem um encontro marcado com Mr. A. Bodelson, produtor europeu interessado em investir na América Latina.
Por isso, continua, dou todo tipo de detalhes para que eles tenham os elementos para imaginar o lugar, os personagens, as cores, o clima todo da história. Estou até fazendo uma coisa que pode parecer inútil, mas que acho importante para transmitir o ambiente cultural dos Andes: abro cada parte do texto com um verso de um poema-hino para Tupac Amaru, escrito por José Maria Arguedas, escritor peruano. São versos que expressam a maneira de ser do mundo andino. Na hora de escrever o roteiro e na hora de filmar, esse clima específico terá de ser aprofundado de alguma forma.
Sempre pensei que o argumento fosse apenas um resumo da história, comenta Lela.
Sim, costuma ser. Mas cada um faz como quer; é a etapa mais livre do processo. O que me disseram é que Mr. Bo gosta de conhecer bem o que vai produzir, ter o máximo de dados para “ver” a potencialidade do que pretende filmar. Sua equipe insistiu em me dizer que ele não é um produtor alérgico à leituras, pelo contrário. Portanto, é isso que estou tentando fazer.

Aquela noite, depois que ele saiu, Lela começou a ler.

PAI SERPENTE

Argumento para filme sobre Tupac Amaru

Roque Arrazola

O navio “San Pedro Alcântara” naufraga na costa portuguesa – cena que mais tarde será pintada por Goya.
Nele estão vinte e nove desterrados embarcados em Lima.
Céu negro, ondas encapeladas, espumas, vento e rugido, unem-se ao peso das águas que esmaga o pequeno grupo de homens ao mar.
Só um deles, Fernando, um adolescente, consegue chegar à praia.
Faminto, perdido e sem falar a língua, por vários dias ele vaga pela terra desconhecida e termina se entregando às autoridades portuguesas. Seu destino é ser enviado à Espanha onde, pelo crime de ser filho de Tupac Amaru e Micaela Bastidas, termina em uma cela na prisão de Cádiz.
É onde está agora, vários anos depois, já adulto.
Esquálido, debilitado, Fernando escreve ao Rei Carlos III, solicitando sua libertação. É mais uma, entre as muitas cartas que já escreveu e continuará escrevendo nos anos que passará na prisão da Espanha.

“Sem outro delito do que o de haver nascido, aqui vivo entre enfermidades e sofrimentos, na desesperadora estreiteza e umidade de minha cela, padecendo tanto tempo e inocente um martírio prolongado.
Até minha prisão, vivi encerrado no claustro sagrado de minha meninice, sem outro conhecimento do que se passava no Mundo, que o de correr atrás das borboletas, embebido neste e outros folguedos da infância. Quando se abriu o botão da flor de minha idade, no mais risonho da primavera, me sobreveio o sofrimento excessivo do mais rigoroso inverno.”

Fernando abaixa sua pena rústica, coloca-a sobre o papel de baixa qualidade, levanta os olhos.
E se lembra.

I

“Tupac Amaru, filho do Deus Serpente, feito com a neve do Salqantay; tua sombra chega ao coração profundo, como a sombra do deus montanha, sem cessar e sem limites.”

A tinta azul do céu dos Andes envolve a pequena cidade e os picos das serras que a protegem. Final de tarde. Tons de vermelho, ocre, laranja começam a se estender sobre o azul, e a escurecê-lo.
Da porta da sala de sua casa, Fernando, o menino moreno de 9 anos reconhece a figura que passa pelo portão vigiado por indígenas armados. É Antonio Oblitas, ex-escravo negro, pintor de ofício, e agora capitão das forças rebeldes. Carrega um pacote envolvido em uma rústica manta marrom: um quadro de tamanho médio, no qual vem trabalhando nas horas de descanso das tropas aquarteladas em Tungasuca.
Oblitas sobe pelo caminho de terra que leva à grande casa cercada de muros altos que domina o pueblo. Fernando, alegre, corre a seu encontro, cumprimenta-o e pergunta o que ele está carregando.
– Um presente para teu pai – diz Oblitas. – Sossega que já verás.
O menino e o capitão entram na sala.
Tupac Amaru está sentado em sua poltrona de praxe. Micaela Bastidas, de pé, conversa com ele; a seu lado um dos filhos, o jovem Mariano, com uniforme de soldado. A sala da grande casa é confortável. Mistura mobiliário europeu e indígena, e tem o luxo que se espera na casa de um nobre inca. Tapetes de colorido intenso misturando tons de vermelho, azul, verde e dourado; objetos de prata; três quadros de pintura cuzqueña de cores fortes e molduras trabalhadas em volutas pintadas com pó de ouro; uma escrivaninha de madeira sólida, modelo espanhol; um armário com vasos de madeira incrustados em laca – os qero, obras mestras da cultura andina. Também pendurada na parede, uma colorida manta tecida à mão com aplicações da flor da cantuta, a flor do império incaico.
Oblitas é recebido com amizade, mas se detém logo à entrada. Formal e respeitoso, pede licença e dá um passo à frente. Com orgulho de artista, tira a tosca manta que recobre o quadro montado também em moldura de volutas e tinta de ouro, do mesmo estilo das que estão penduradas na sala, como é de praxe na escola de pintura cuzqueña da qual ele faz parte.
É o retrato de um homem alto, imponente, rosto grande e quadrado, testa alta, nariz aquilino, olhos negros que encaram de volta quem o observa. Tem a pele morena clara e cabelos compridos, sinal da nobreza inca. Veste uma calça preta justa que chega até o joelho coberto pela meia de seda branca e parte da bota, camisa bordada com fios brancos, jaleco tecido com fios de ouro, casaca de veludo azul, sapatos pretos com fivelas douradas. Sobre a casaca escura, o uncu de lã bordado em ouro sobre fundo púrpura, com o escudo de seus antepassados. Nos ombros, duas fundas trançadas com seda multicor, entrecruzadas no peito, e outra na cintura, de onde pende também sua espada e se encaixa um par de trabucos. Na cabeça, o chapéu negro de três pontas, uma pluma branca de lado, e uma pequena cruz de palha na copa. Um pendente com a imagem dourada do sol orna-lhe o pescoço, preso por uma corrente também de ouro.
É José Gabriel Condorcanqui Tupac Amaru, Inca e Rei, montado em seu cavalo branco.
A família se agrupa ao redor do quadro e o admira. Micaela aproxima-se do marido, passa a mão por seu braço, e diz sorrindo para Oblitas que o quadro é bonito, muito bonito, faz jus ao original.
Tupac Amau sorri de leve, zombeteiro:
– Então esse é o motivo de teu desaparecimento em horas cruciais, Capitão Oblitas? Teremos que decidir que punição mereces.
O quadro é imediatamente colocado pelos filhos em lugar de destaque na grande sala, e o pintor convidado para o jantar.
Com estardalhaço, chega Andrés Mendigure, sobrinho de José Gabriel e comandante de excelência apesar da pouca idade – com impetuosos dezoito anos é o mais jovem entre os chefes do exército rebelde, e o único que hoje está em Tungasuca.
Ao entrar na sala, Andrés imediatamente vê o quadro e se aproxima para examiná-lo.
– Oh, Capitão Oblitas, perfeito. Conhecia suas habilidades com as armas, mas não com as tintas. Muito bem pensado: nosso Inca merece um quadro desses – e abraça, efusivo, o pintor.
Logo senta-se à mesa e comenta as excelentes notícias do dia.
– Em vários pueblos, tio, nossas tropas são recebidas com festas, e os caciques prestam imediata vassalagem ao novo Inca. Em outros, onde os caciques estão contra nós, os indígenas unem-se imediatamente às tropas, e as elites são derrotadas em um pestanejar de olhos. – Rindo espalhafatoso, continua: – Só não entendo porque o primeiro pensamento dos realistas é sempre o de se enfiarem nas igrejas, como se o Deus cristão tivesse prometido pegar em armas por eles.
A animação de Andrés é tanta que seus modos exagerados e galhofeiros seriam repreendidos por Micaela, não fosse ele hoje o comandante que é. Come com voracidade e gosto os pedaços de carneiro, as espigas de milho assadas e o chuño – a batata seca dos Andes, – como se há tempos não visse uma boa refeição, o que deve ser verdade pois chegara essa tarde do campo de batalhas.
– Mas não vamos nos esquecer dos curas que estão do nosso lado, e que são muitos – diz Micaela, de seu lugar em uma das cabeceiras da mesa. – É preciso separar uns e outros.
– Sim, Andrés, é preciso cautela. Não podemos assustar nossos aliados – intervém José Gabriel. Ele e Micaela estão preocupados com os excessos cometidos pelos rebeldes, dos quais têm recebido notícias. – Uma excomunhão não trará nada de bom para nós.
– Excomungados ou não, os índios estão do nosso lado. Não fossem os caciques traidores que ambicionam o que por direito é seu, meu tio, e preferem se juntar aos espanhóis, nessa divisão que é a lepra que nos contagia com as derrotas do passado; não fossem eles, tudo seria mais fácil. No entanto, mesmo contra eles, o movimento está se alastrando como se estivéssemos na estação propícia; a rebelião está madura e pronta para ser colhida. Não há o que temer.
Um burborinho na porta e entra Hipólito, o filho mais velho, exausto depois de três dias de ausência, e também com excelentes notícias. Os caciques de Carabya, Juliaca y Lampa tinham se unido aos rebeldes.
Hipólito é outro que imediatamente vê o quadro e o admira e cumprimenta Oblitas.
Dá um piparote na cabeça do pequeno Fernando, que não esconde a alegria por receber a atenção do irmão comandante que se senta à mesa, embora nem tenha se banhado. Come furiosamente o que ainda resta da refeição. Micaela olha-o, como se tentasse se convencer de que, mais do que filho, ele é agora um chefe na guerra, e tem o direito de devorar a comida que vê a sua frente, quando a vê. É uma espécie de compensação e reafirmação da vida. Os horrores das batalhas atiçam os apetites – ela já percebeu isso. Se no começo teve a ingenuidade de pensar que poderia preservar sua casa como ilha protegida no rio de violência e sangue em que estavam mergulhados, agora não tem mais. Sorri aliviada por ver a família reunida em um momento assim. Há dias não via o filho Hipólito e o olhar com que o envolve é de carinho, proteção, e orgulho. Tem os traços do pai e a mesma força.
Depois das notícias sérias e já de estômago cheio, Hipólito tira do bolso um pasquim que lhe enviaram de Arequipa. Sabe que o pai vai gostar. Pondo-se de pé na frente de todos, e brincando, “Tampe os ouvidos, mamacita”, lê em voz alta, se esforçando para não rir:

‘Me ca…go na boa união
de espanhóis e franceses
me cago trezentas vezes
me cago em todo esse trem
de morteiros e canhões
e me cago nos mandões,
para sempre e jamais, amém.”

As risadas de Andrés e Oblitas se sobrepõem às dos outros, sobretudo à de José Gabriel que apenas sorri; seu forte não são as risadas. Diz ao filho:
– Mostre para Dom Peter, quando o encontrar.
– Para aquele espião inglês? – comenta Micaela, já sem rir.
– Pode até ser espião, mãe – diz Hipólito – mas está do nosso lado. Os ingleses têm grande interesse em nossa vitória.
– Não por nós, melhor não nos esquecermos disso. Estão do nosso lado enquanto combatemos a Espanha. Não são nossos amigos; apenas inimigos do nosso inimigo.
– Seja como for, estão do nosso lado agora.
– E como é agora que estamos vivendo, que vivam os ingleses – diz Andrés.
– Viva! – dizem os outros, mesmo Micaela, ainda que reticiente pois considera os espiões um tipo de peste. Sabe o quanto valem esses tentáculos vivos do inimigo, pois é quem coordena a vasta rede dos espiões rebeldes, e não confia em nenhum deles. Pior que eles, só os traidores, aqueles que põem a máscara de amigos, mas a tiram conforme suas conveniências. Tão logo a rebelião começou, as autoridades haviam oferecido recompensas elevadas, títulos de nobreza e o perdão a quem entregasse vivos ou mortos os caciques rebeldes. Desde então, tornou-se preocupação constante de Micaela o esforço de afiar seus sentidos para chegar a perceber pelo modo de olhar, pela voz, pelo cheiro, a peçonha de um possível traidor.
Em meio à animação que se segue, Oblitas e Andrés se despedem da família. Na madrugada seguinte, sairão para conquistar Sangarara, onde os espias informaram a chegada de tropas enviadas de Cuzco. Será a primeira batalha de envergadura, e eles estão excitados e eufóricos, certos da vitória.

*

A leve mudança no ar da noite desperta Tupac Amaru.
Micaela dorme a seu lado.
Sua Micaela, Mica. Ajeita-lhe a manta. Vira-se na cama e sente que já dormiu o suficiente.
Levanta-se e veste suas roupas de Inca. Gosta de se vestir assim. Tem que se vestir assim. São as vestes de seu poder, e é assim, com todo o esplendor de suas indumentárias luxuosas, que seu povo humilde e espezinhado quer vê-lo. É quase uma compensação, uma maneira de sentir que do seio deles, de suas tradições, de sua pobreza, existe alguém que pode fazê-los se orgulharem do que são.
Amaru, seu nome, é o nome do deus serpente, antepassado dos incas. Serpente que é a ponte entre as montanhas, o céu e a terra com seus habitantes, que assegura a comunicação de um com o outro, e serve à água, fonte da vida. Tupac, seu título, é o título real, o título daquele que resplandece.
E é por ser o que é – e para que seu povo o veja como é – que ele se veste e se assume como Inca. Seu povo respeita e ama as tradições com o amor profundo de quem nada mais tem de seu a não ser um passado de grandezas. Um passado que acreditam sem fome. Um passado que imaginam sem miséria. Um passado que desejam com auto-estima.
É isso que ele quer lhes devolver.
Foi para isso que se preparou.
Desde rapazote, na escola especial para nobreza indígena, no Cuzco, ele se prepara para isso. Domina o castelhano tão bem quanto sua língua-mãe, o quéchua, e conhece o latim. Desde menino teve oportunidade de viajar e conhecer gentes de diferentes tipos, e figuras vindas da Europa. Estudou, leu. Conhece as idéias dos enciclopedistas e a luta de independência dos Estados Unidos. Tornou-se amigo de pessoas influentes, cultivou contatos e aliados em Lima, La Paz, Buenos Aires, Quito, e outras cidades importantes.
Cacique e comerciante rico, usou o dinheiro de suas terras, negócios e plantações de coca para viajar por toda a cordilheira, percorrendo os pueblos e os ayllus, a organização básica do incanato que os espanhóis juntaram e transformaram em comunidades.
Foram dez anos de preparação, viagens de discussão e convencimento, acompanhado de seu capelão particular e índios de sua escolta. Sua visão, naqueles anos de preparação, foi se tornando mais ampla; o conhecimento sobre sua terra, mais preciso. O que ele pretende hoje é edificar uma sociedade formada por índios, criollos – os espanhóis nascidos na América –, mestiços e negros, excluindo apenas os colonizadores espanhóis e seus sequazes.
É verdade o que disse o entusiasmo de Andrés, essa noite, sobre a rebelião estar madura. Há muito tempo está. O que não estava maduro, e queiram os céus que agora esteja, é a organização e disciplina capazes de fazê-la triunfar.
Que os dez anos de preparação tenham sido suficientes.
Até agora, tudo parece indicar que foram: o número dos índios que se engajam na luta é como o esperado, espetacular; lanças, fundas, ferrões, pedras, paus, espadas estão armazenados e escondidos em trechos estratégicos da cordilheira; armas de fogo e pólvora são tomadas dos espanhóis sempre que possível, e outras produzidas nas fundições montadas especialmente para isso – nem de longe são suficientes, mas à medida que as vitórias aconteçam, aumentarão também o número dessas armas; mantimentos há tempos vêm sendo estocados em esconderijos táticos, espalhados pelos caminhos – milho, chuño, carne salgada, folhas de coca, batatas secas, favas; espiões e vigilantes estão em toda parte, escutando o que se fala, interceptando correspondências, lendo cartas e relatórios. As ravinas e passagens estão sob vigilância. Os caciques aliados se levantam por toda a extensão prevista.
Tudo corre bem.
Tupac Amaru, vestido com suas cores, está pronto. Ainda é cedo para despertar os outros, nem os pássaros despertaram ainda. Vai até a sala, e se dirige à escrivaninha, onde se põe a escrever mais uma carta entre as muitas que tem enviado. Esta é a que vem preparando para o Visitador Geral Areche. É uma carta longa, de várias páginas, com detalhes e nomes e exemplos dos abusos e explorações e miséria a que seu povo vem sendo submetido.
Relê a última frase que escreveu e continua, a fina e delicada pena levemente molhada com a tinta negra correndo pelo papel:

“São os corregedores tão químicos que em vez de fazerem do ouro sangue que nos sustente, fazem de nosso sangue o sustento de suas vaidades…
A miséria e exploração de minha gente é tão notória que não necessita maior comprovação que as lágrimas que há séculos vertem os olhos desses infelizes.”

Levanta-se e vai até a janela. Ainda vê estrelas no céu e o vulto mais escuro dos picos na distância. Um cheiro de feno seco misturado a estrume e suor dos cavalos no estábulo. Vê as figuras alertas das sentinelas no portão.
Sente que a batalha de depois de amanhã será um marco do qual seus antepassados se orgulharão. Sangarara é um pueblo importante, e ele e seus comandantes estão tranqüilos: a força numérica e a paixão de seus índios têm lhes conferido um poder extraordinário.
Volta à escrivaninha para terminar a carta.
Quer que o Visitador Areche a receba junto com a notícia da grande vitória que acontecerá dali a dois dias.
Saberá, então, que uma avalanche indígena está retomando a cordilheira. Já não poderá alegar ignorância. Já não poderá alegar que desconhece os abusos perpetrados em nome do Rei de Espanha.
Saberá, se é que realmente não sabe, dos motivos que provocaram essa avalanche de carne, osso, sangue e sentimentos.

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