Primeiro capítulo de “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”

INAIÁ (1500-1514)

 

No lusco-fusco vermelho-dourado do entardecer no mar, quando depois de quarenta e dois dias os marujos da armada portuguesa viram as primeiras algas compridas se espalhando pelo verde-escuro do oceano, em claro anúncio de terra próxima, a mãe de Inaiá, no chão firme do terreiro de sua taba, olhou as primeiras estrelas e soube: “Está chegando”.

Quando a escuridão se alastrou e os marujos nos navios foram dormir alvoroçados, já tomados pelos canecões de vinho servidos como celebração antecipada da aproximação de terra desconhecida, a mãe de Inaiá virou-se de lado na rede de fibra de algodão, sentindo o primeiro repuxar das contrações.

De manhãzinha, quando as gaivotas de plumagem negra e cabeças brancas transformaram a expectativa dos marujos em crescente euforia e fizeram repicar os sinos da armada, a mãe de Inaiá em sua tribo se levantou e retomou os afazeres daquele dia de céu azul-turquesa.

À hora da véspera daquele 21 de abril, um monte alto e redondo foi avistado pelos marujos em rebuliço, debruçados uns sobre os outros nos tombadilhos dos treze navios da armada, no exato momento em que a mãe de Inaiá se dirigiu para o recanto da floresta que previamente escolhera para esse dia, à beira de um pequeno remanso de águas límpidas que refletia no fundo o verde-esmeralda das árvores ao redor.

E quando o céu outra vez começou a escurecer e nos navios as âncoras foram lançadas e todos se ajoelharam para dar graças pela visão da floresta copada junto à estreita faixa de areia branca, as aves da beira do remanso se levantaram em revoada, assustadas com o primeiro choro de Inaiá.

Seu pai, guerreiro tupiniquim, cortou com os dentes o cordão umbilical. Rejubilava-se intimamente porque dessa vez era mulher e ele não teria que ficar em abstinência na oca, protegendo-a dos maus espíritos. Poderia se juntar aos companheiros em vigília na praia, o grupo de guerreiros que mirava assombrado os gigantes marinhos se aproximando lentos sobre as águas.

Antes que os primeiros clarões do sol iluminassem a manhã seguinte, ele já estava com o grupo à beira-mar, oito guerreiros tupiniquins armados de arco e flechas. E de lá observaram a aproximação prodigiosa das treze naus e caravelas. Viram também quando o pequeno escaler se aproximou da areia com seres nunca vistos e se perguntaram, excitados: o que seriam?

Agora já eram mais de vinte guerreiros na praia — homens fortes, nus, pintados e adornados com plumas verdes, amarelas, vermelhas, segurando tensos suas armas — e viram os sinais daquelas criaturas e ouviram seus gritos em língua estranha que o rugido do mar arrastava para longe, incompreensível. As ondas encapeladas impediram que o escaler chegasse à praia, mas o grupo de guerreiros permaneceu ali a noite toda, ao redor de pequenas fogueiras, em vigília.

Na manhã seguinte, quase toda a tribo estava na areia para ver os caraíbas, os profetas que vinham do leste, o lado do sol. Mas o que eles viram nesse dia foi a armada se afastar para o norte e imediatamente decidiram segui-la por terra ou em pequenos barcos, os guerreiros e boa parte da tribo, curiosa demais para voltar à aldeia.

Aos poucos foram chegando ao lugar onde a armada ancorou pela segunda vez, a dias de caminhada dali.

Até a mãe de Inaiá — que saiu três dias depois — acabou também chegando, com o bebê na tipóia às costas, a tempo de ver o erguimento da cruz, no dia 1o de maio, dois enormes paus cruzados, levantados com músicas, cantos e marchas, pelas criaturas de pele estranhamente branca e peluda, como animais. Estavam armados com ferro e fogo, esses homens estranhos que por fatídicos desígnios foram aceitos como amigos e irmãos.

Pode-se dizer, portanto, que Inaiá estava presente, embora nada tenha visto, no acontecimento que mudaria para sempre sua vida e a de seu povo.

 

Sua tribo vivia uma época de tranqüilidade. Os homens pescavam e caçavam, as mulheres plantavam mandioca, faziam farinha e cauim e criavam belos cestos e cerâmica. Chegaram àquele lugar fértil, em sua peregrinação em busca da Terra Sem Males, e, embora as guerras com outras tribos acontecessem, eram como parte da ordem natural das coisas e não perturbavam o cotidiano sem grandes dramas de Inaiá e suas irmãs. Elas banhavam-se no rio, brincavam com os animais das matas próximas às tabas: sabiam reconhecer os tipos de cobras, aproximar-se das aves e dos sagüis, dos tamanduás e dos bichos-preguiças; conheciam as plantas e as árvores, os passos seguros dos rios, ajudavam as mães a descascar mandiocas e aprendiam a fazer a farinha e o beiju. Ao anoitecer, as meninas sentavam-se ao redor das fogueiras com os adultos, para escutar as histórias e risos, aprender as danças, músicas e brincadeiras.

Inaiá cresceu na crença de que a vida é sobretudo prazerosa e que nascemos para nos divertir. Melancolia e tristeza eram sentimentos que provocavam profundo desagrado entre os nativos. Os deuses eram benignos, e a idéia de uma vida depois da morte era a de um jardim florido onde cantariam, dançariam e pulariam ao lado dos antepassados.

Inaiá também cresceu escutando as histórias sobre os caraíbas que chegaram com o sol no dia de seu nascimento.

Os fatos presenciados naqueles dez dias de abril e maio eram contados e recontados por todos os adultos, milhares de vezes, cada um acrescentando novo ponto de vista, esmiuçando os detalhes, como se o contar mais uma e outra vez fosse a maneira de ajudá-los a integrar aqueles assombrosos acontecimentos ao seu mundo, a fazer deles um componente de suas vidas e não um caos disruptor. Passavam de mão em mão os guizos, espelhos, miçangas, os presentes dos brancos. Punham na cabeça o gorro vermelho dos marujos e pulavam, imitando o jeito deles, as piruetas, o modo de andar e de se mexer.

Uma e outra vez Inaiá viu caraíbas em visita a sua tribo ou na areia da beira do mar, junto às toras de pau-brasil que agora enchiam as praias à espera dos grandes barcos. Aqueles homens peludos já não eram tão imponentes quanto imaginara ao escutar as descrições dos que presenciaram sua chegada. Na verdade, aquelas figuras ao vivo não impressionavam em nada as indiazinhas. Elas riam muito de suas roupas molambentas, como se fossem uma sobrepele a pender dos corpos já não tão brancos depois de meses ao sol tropical, mas ainda assim de cor bem diferente. Achavam especialmente engraçados os cabelos que pareciam sair de todos os lados e cobrir as mãos, o corpo, o rosto inteiro. As indiazinhas riam muito e seguiam atrás deles, oferecendo o que encontravam pelos caminhos e recebendo em troca sorrisos gentis ou impacientes, muitos gestos e a repetição interminável das mesmas palavras para dizer quase tudo. Algumas vezes viam alguns mais bem-vestidos, de sobrepeles coloridas, essas sim vistosas e bonitas, um cocar não de plumas, mas de pele, na cabeça e pés dentro de carapaças duras.

Os adultos da tribo agora passavam boa parte do tempo cortando as árvores do pau vermelho, o pau-brasa, o magnífico pau-tinta que iria tingir as roupas da moda na Europa. A cor nobre dos reis e dos bispos fora liberada para uso geral, e a procura pela tinta de cor

púrpura intensificara-se. Os nativos que possuíam o machado de ferro, presente dos caraíbas, cortavam muito mais rápido, frenéticos, orgulhosos de juntar um monte de toras em poucas horas. Se Inaiá vivesse um pouco mais do que viveu, veria como dia a dia iriam se extinguindo essas árvores de folhas verde-metálicas, flores amarelas e tronco avermelhado que abundavam pelos lugares por onde passava na infância.

 

E como era Inaiá?

Bom. Inaiá nunca foi especialmente bonita. Bem sei que vocês gostariam que essa mulher com quem tudo começou, essa mãe quase mitológica, fosse, como um mito, perfeita. Mas não posso lhes dar essa satisfação, pois estaria faltando com a verdade, embora, é claro, essa afirmação seja relativa, tanto porque os ideais de beleza de uma tribo indígena da época não são certamente os nossos, como porque a beleza jamais foi uma verdade absoluta e sempre há os que acham feio alguém que a maioria acha bonito e os que acham bonito alguém que a maioria acha feio. Mas é bobagem querer idealizar a beleza dessa primeira mulher da família. Não precisamos disso. Basta saber que, de todas as maneiras, as primeiras habitantes da nossa terra atraíam muito a vista, como ficou registrado por ninguém menos que o ilustre escrivão Pero Vaz de Caminha, no primeiro documento sobre a nova terra. Ele parecia não conseguir desviar os olhos delas, como descreve, sem poder esconder seu encantamento: “Tão moças e tão gentis, com cabelos muito pretos e compridos, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha”.

Se todas eram assim tão encantadoras — e se foram vistas só de longe ou quão perto Caminha chegou para bem examiná-las — nunca vamos saber ao certo, mas nem por isso pensem que Inaiá era uma bela entre as belas, porque isso ela não era. Era de boa estatura e fornida de carnes, um pouquinho desproporcional na relação tronco-pernas, sendo essas mais finas do que se poderia desejar, um bumbum normal, nem grande nem pequeno, nem mais rijo nem menos, peitos gordinhos, infelizmente fadados a se deixar vencer pela lei da gravidade muito cedo, cabelos negros escorridos e compridos como os de todas as nativas, nem mais sedosos nem menos. O nariz um pouquinho esborrachado, os olhos negros também nem mais luminosos nem menos que o normal, uma boca tão vermelha como a de suas irmãs e uma marca de nascença, um triângulo escuro no começo da nuca, com o vértice virado para a esquerda, essa sim uma característica apenas sua. Mas, fora isso, nem mesmo a personalidade de Inaiá era especial. Era tão disposta às tarefas e alegre nos banhos, tão falante e despreocupada quanto as irmãs, tão adequada e satisfeita por estar no mundo quanto elas.

 

Com o tempo, ela já não seguia os grupos de brancos. Ficava de longe, junto com as irmãs, todas rindo muito, mas rindo já de outra forma, olhando já de outro jeito. Foi quando um deles — um caraíba quase tão jovem quanto ela, de nome Fernão, cara branca mas quase sem pêlos, com olhos tão claros que pareciam pedrinhas feitas das águas límpidas do mar — a olhou, sorriu e começou a repetir:

“Aqui, aqui. Menina bonita, vem aqui”.

Inaiá foi. Tinha doze anos.

Curiosa, sorrindo — nunca chegara assim tão perto de um caraíba —, Inaiá foi e tocou e riu, cheirou, cheirou e riu, a carne tão branca por dentro da segunda pele e riu, os cabelos da cor das folhas que caem, e tocou e cheirou e riu, os olhos, sim, quero ver de perto essas pedrinhas da cor da água do mar quando chega à praia, o mar sem ondas, o mar de quando o dia começa.

E riu, riu, riu.

Os pássaros multicores levantaram-se em revoada e as árvores verdejantes cercaram sem pressa os dois.

Vocês podem não acreditar, mas Inaiá também foi a primeira mulher de Fernão. O jovem lisboeta já havia, com certeza, apalpado uma ou duas raparigas no cais do porto, em noites escuras, mas pela pouca idade, pela inexperiência ou pela inocência, ficara satisfeito o bastante para parar por aí.

E enquanto Inaiá descobria o corpo tão estranhamente branco de Fernão, seus cheiros e suas funções, ele também descobria o corpo da jovem de cor avermelhada e a cheirava e lambia seu gosto de natureza, e lá ficaram os dois entre as folhas, ela rindo ainda, rindo sempre, como era de sua natureza alegre, ele também achando graça das graças dela, jovens, plenos, em paz.

 

 

Fernão, o Jovem, um “brasileiro”

 

Fernão era grumete da tripulação de um navio que comerciava pau-brasil, um dos marujos por isso mesmo chamados de “brasileiros”, e pela segunda vez estava no litoral da Terra dos Papagaios.

Da primeira vez, tinha pouco mais de doze anos, e foi também sua primeira viagem marítima. Filho de taberneiros do porto de Lisboa, nascera escutando histórias de além-mar, de seus portentos, perigos e riquezas. Tudo o que queria na vida era um dia chegar às Índias ou, mais ainda, seu sonho de todas as noites, não confessado a ninguém, era fazer parte de uma tripulação que descobriria uma terra nova onde o ouro, a prata e as mercadorias seriam tantos que enriqueceriam até o mais miserável dos grumetes, e os homens de um olho só e dois chifres seriam derrotados depois de uma luta sangrenta, e as mulheres seriam belas e amorosas e acessíveis, com deliciosas escamas de peixe nos pés.

Fernão era quase um menino, mas tinha a esperteza de quem se criara observando atentamente o mundo a sua volta. Na taberna, era quem servia com mais disposição aos marujos, e deles se tornou amigo até que lhe conseguiram o lugar de grumete em uma das naus que buscava o cobiçado pau-brasa na nova terra. Era uma nau do consórcio liderado por Fernão de Noronha, e o jovem lisboeta sabia que esse era o melhor jeito de começar a realizar seu sonho de aventuras e de ir às Índias.

A nau — como qualquer uma que saía daquele porto naquelas circunstâncias — tinha uma claríssima missão: trazer para Portugal a maior quantidade de pau-brasil no menor tempo possível e com o mínimo de despesas. Para isso, os regulamentos eram rígidos e a disciplina, militar. E bem no fim da cadeia hierárquica no navio, abaixo dos marujos, era onde estavam os grumetes cuja vida nada tinha de doce. Eram eles que faziam o trabalho mais duro do navio, içavam os cabos, serviam aos marinheiros e estavam sujeitos a todo tipo de maus-tratos e castigos.

Mas Fernão, o Jovem, sentia-se um privilegiado naquela primeira viagem. Amava o mar e não se cansava de observá-lo, de admirá-lo, aprendendo a conhecê-lo, a prever suas mudanças e caprichos. Incansável, fazia pequenos favores para qualquer um e se tornou o grumete mais requisitado do navio, indo e vindo por todos os lugares da nau, que em pouco tempo conhecia tão bem quanto a pequena taberna onde nascera. Nessas suas andanças pela nau, não perdia nenhum comentário e logo começou a aproveitar a paixão dos marujos por apostas para ganhar alguns ducados, apostando, por exemplo, quando haveria um pequeno acerto da rota para sudeste ou o que viria na ração do dia seguinte.

 

Ao chegar à nova terra, o jovem de primeira viagem se extasiou com o esplendor da luz na areia da praia, com os nativos em sua nudez, suas plumas e pinturas, as figuras risonhas das mulheres, os odores das árvores e das frutas dulcíssimas, a exuberância de uma vegetação e de uma realidade que fora incapaz de imaginar no mais desenfreado de seus sonhos.

Sôfrego, mesmo depois de horas extenuantes de trabalho ajudando os nativos a acomodar as toras dentro da nau, Fernão se deitava na areia da praia, respirando o bom ar e os cheiros que pouco a pouco começava a distinguir, e pensava que era aquela a terra de seus desejos, que nenhuma outra poderia ser assim tão bela, nem as Índias.

Com os ducados ganhos nas apostas durante a viagem, ele pôde negociar animais com os nativos — uma das poucas coisas permitidas à tripulação das naus — e comprou um extravagante papagaio, um dos novos produtos mais cobiçados em Portugal, o fantástico animal que, além da beleza da plumagem verde e vermelha, podia falar e divertir enormemente a todos. Ganhou também uma bela pele de onça ao apostar com um marujo o dia exato em que embarcariam de volta.

Na viagem de regresso, Fernão, como muitos outros da tripulação, passou o tempo de descanso ensinando seu papagaio a falar. Uns ensinavam cortesias, “Sim, meu cap’tão”, “Não, sinhoire”, outros ensinavam sacanagens, “Rap’rig de Lisboa, dai-me vossa mão e outras cheirosas partes”, e outros, ainda, querendo vendê-los caro para a nobreza do clero, ensinavam orações. Era um grande divertimento, e Fernão logo encontrou outra maneira de ganhar alguns ducados mais, começando a negociar sua habilidade nata como professor de papagaios.

Mal chegado a Portugal, ele se engajou para a segunda viagem ao Brasil. Dessa vez, porém, a sorte não lhe mostrou os dentes. O mau tempo os acompanhou durante quase todo o percurso, a comida foi mais racionada do que nunca, e a crueldade do guardião ultrapassava muito a que Fernão conhecera na viagem anterior. Por dá lá aquela palha, os grumetes eram chicoteados até desmaiarem, e Fernão já não tinha a mesma liberdade de andar pela nau como antes. Pior ainda, logo ao chegar à costa brasileira, foi detectado um roubo de machados e machadinhas destinados à negociação com os nativos, e ele foi um dos acusados, mais por antipatia do guardião do que por qualquer culpa de fato. Proibido de baixar ao litoral pelo qual se apaixonara e que julgava mais belo do que todos os seus sonhos, inconformado e rebelde, não lhe foi difícil decidir desertar. Quando o navio zarpou de volta a Portugal, Fernão e outro companheiro, Cipriano, um português corpulento, exímio tocador de gaita, conseguiram se lançar ao mar e alcançar a areia.

 

Logo depois Fernão conheceu Inaiá e se tornou amigo dos nativos. Com a perspectiva de chegada de novas naus, contudo, Fernão e Cipriano acharam melhor se afastarem do local onde certamente seriam procurados pela tripulação do próximo barco. Decidiram seguir rumo à feitoria de Cabo Frio, uma viagem longa, feita em canoas e dias de caminhada.

Inaiá e duas irmãs foram com eles.

Os motivos que fizeram as índias deixarem sua tribo, quem vai saber! Podem ter ido apenas pelo prazer da aventura, ou talvez tenham ido mais ou menos forçadas, ou podem ter ido também pela ambição de ter acesso aos cobiçados objetos dos brancos. Embora Fernão e Cipriano fossem apenas desertores, traziam consigo a possibilidade de contato com um mundo que já passara a fazer parte do imaginário e do desejo dos nativos.

 

A feitoria de Cabo Frio, uma das três que os portugueses instalaram na luxuriante costa que se transformara em gigantesca área produtora de pau-brasil, não era mais que um pobre galpão de madeira, cercado por uma paliçada de toras pontiagudas. O consórcio de cristãos-novos portugueses, a quem a Coroa portuguesa entregara a exploração da nova colônia, só queria dessa terra — como parece ter sido desde sempre seu inescapável destino — extrair o máximo de riqueza com a menor despesa possível. Um mínimo de homens fora deixado ali, com duas arcas e alguns caixotes.

Fernão e seu grupo foram bem recebidos, mas não quiseram se estabelecer na feitoria. Procuraram uma clareira próxima na mata, na encosta de onde se avistava uma cachoeira cristalina em cujas águas peixes multicores desciam aos borbotões. Ali ergueram um rancho de pau de aroeira-branca e jatobá, coberto com palhas de buriti.

Inaiá lhe mostrava as plantas comestíveis, o plantio da mandioca, as madeiras que não apodreciam, e com fibras das árvores fazia armadilhas de pesca. Fernão trazia os peixes ainda se debatendo em suas mãos, caçava capivara, sagüi, tatuetê. Inaiá preparava o beiju e alimentava seu homem com as mais variadas espécies de palmito, inhame, ananás, caju, pitomba, abiu, umbu, jabuticaba, todos os tipos de amora, a branca, a preta, a vermelha, e todas a guabirobas. Ensinou Fernão a se pintar com a tinta azul-escura do jenipapo e com os pigmentos amarelos do abacaxi-de-tingir. À beira do rio, ela lavava e tratava os cabelos, enquanto aos risos e brincadeiras praticamente obrigava o jovem europeu a se banhar pelo menos uma vez por dia.

Fernão passava boa parte do tempo ensinando papagaios a falar e trocava-os com os homens da feitoria, que, por sua vez, trocava-os com as tripulações que vinham recolher pau-brasil. Desde que desertaram do navio, Fernão e Cipriano mudaram de nome e de história, dizendo-se náufragos, e se alguém naquelas paragens alguma vez duvidou disso, nunca falou. Para maior segurança, no entanto, evitavam qualquer contato direto com os marujos portugueses.

 

As noites estreladas eram suaves e cálidas. Fernão aprendeu a tocar  flauta indígena e, junto com Cipriano e sua gaita, compunha melodias novas para divertir as irmãs.

Em um ano Inaiá deu à luz. Chamou-a de Tebereté, e o pai balançou a cabeça, satisfeito.

Sim, eles estavam no paraíso, e vocês me perguntam se eles se amaram. O que é o amor, o que era o amor? Não ouso responder. Que eles certamente gostavam de transar um com o outro, que Fernão não procurou outras índias porque isso nem lhe passou pela cabeça, que os dois passavam horas rolando no chão entre as folhas, brincando e gemendo, que Fernão tomava banho no rio puxado por Inaiá que queria melhorar o cheiro dele, que Inaiá só pensava em levá-lo para o sossego de sua rede, onde pudessem brincar sem as mordidas dos bichos nas folhas, tudo isso aconteceu assim.

É isso o amor? Então, sim, eles se amaram.

 

Com o tempo, a juventude aventureira de Fernão fez com que se pusesse a ruminar a idéia de procurar o reino da Serra da Prata, sobre a qual seus amigos indígenas contavam histórias surpreendentes. Ele chegara a ver, na maloca de um chefe tupiniquim, uma taça rústica de pura prata que diziam ser de lá. Falavam também de um caminho, uma rota para o sul, já usada desde tempos passados. Calculava ele que poderia arregimentar um grupo de brancos e índios para essa expedição, desde que conseguissem mais armas e munição.

E se preparava: aprendeu com os nativos a fazer arcos de jacarandá e ipê com pontas cortantes de taquara ou — como ele gostava mais — com dentes de tubarão; a fazer tacape com a madeira dura de jucá e cordas com casca de embaúba. Com grande curiosidade, aprendia tanto a fazer armas e armadilhas como a distinguir as ervas medicinais. Inaiá lhe explicava as funções das ervas e à noite lhe oferecia paricá, um pó afrodisíaco e narcótico parecido com o rapé.

Imaginava-se já senhor de exuberantes terras desconhecidas, onde os rios cristalinos escondiam tesouros de ouro e prata em suas funduras azuis.

 

Mas o tempo não lhe coube para tanto sonho.

 

Ao alvorecer de uma noite de lua cheia, de repente um grito agudo. Inaiá desperta em sobressalto: era o grito de ataque dos tupinambás.

O grupo era pequeno, mas aterrorizador.

Atacaram aos urros, berros, gritos, batendo forte os pés nos chão, tocando cabaças, pífanos e flautas, mostrando seus colares de muitas voltas, feitos com os dentes e os ossos dos inimigos que haviam matado e comido.

Fernão, o Jovem, caiu varado por várias flechas. Um pouco mais longe, Inaiá morreu na hora com um dardo envenenado no coração. Cipriano e as esposas caíram dentro do rancho.

Urrando e pulando, o chefe do grupo levantou seu tacape e, com um golpe único e preciso, esmagou, vitorioso, a cabeça sonhadora de Fernão.

Só os tiros dos brancos da feitoria, alertados pelo alarido, conseguiram afugentar o grupo, frustrando sua clara intenção de levar partes dos mortos como alimento para a jornada de volta.

Os guerreiros, no entanto, ainda tiveram tempo suficiente para agarrar Tebereté e as outras crianças e pôr fogo nos ranchos e nos cadáveres, deixando-os queimar qual tochas incandescentes debaixo do solzinho ameno daquela fresca manhã tropical.

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