Mulherio das Letras 2017

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Depois da última FLIP – onde a quase total ausência de escritoras femininas convidadas foi bastante conspícua – tive a sorte de me encontrar com Maria Valeria Rezende e Susana Ventura que voltavam de lá, e me contaram, rindo, que estavam planejando organizar um encontro só de mulheres, onde – como disse a Valéria em entrevista recente para o Suplemento Literário Pernambuco (um dos melhores deste país) – sua vontade era escrever como slogan “Meninos entram. Mas para escutar”. Aplaudi a ideia, rindo também, mas com sérias dúvidas de que fosse realmente possível realizar tal encontro.

Como se eu não conhecesse a Valéria!

Escritora premiada, criatura movida a ideias generosas, e que já viveu tanta coisa extraordinária que, quando converso com ela, fico repetindo, “Para, Valéria, para!”, mas que ela não para. Jamais parou. E continuará sem parar até onde sua fé e entusiasmo a levarem.

Não falo mais da Susana – outra pessoa maravilhosa – porque ela é de São Paulo, não da Paraíba que, afinal, é onde estão carregando o andor dessa história (gostou do “andor”, Valéria?). Mas sei que, daqui, também ela trabalha a mil para que o encontro aconteça.

Outra coisa que pensei erroneamente naquela primeira conversa é que seríamos quantas? 100? 200? Estourando umas 300 escritoras e mulheres das letras no país?

Mas foi só a Maria Valéria e seu front da Paraíba (não sei o nome de todas) colocarem as bases para o movimento que batizaram de “Mulherio das Letras” para que as adesões começassem imediatamente e chegassem – veja o espanto! – a quase 3.000 até agora, e continuassem crescendo porque é um movimento livre e aberto a escritoras, ilustradoras, tradutoras, editoras, críticas literária, professoras de literatura, e jornalistas. Enfim, o povo feminino das letras.

Como diz a ótima reportagem publicada pelo Suplemento Literário de Pernambuco, capitaneado por Schneider Carpeggiani, “O Mulherio não tem um nome central à sua frente, nem cachê de participação, curadora ou qualquer outra hierarquia típica de festa literária. Na verdade, não se trata de uma festa literária. E, sim, da culminância de uma série de articulações que têm ocorrido em grupos fechados do Facebook, marcado para acontecer na capital paraibana entre 12 e 15 de outubro. Das conversas, homens não participam. Mas, durante o evento, eles terão acesso. Como plateia.”

Acho que se alguém perguntar para alguma das organizadoras o que exatamente pretendem com o Mulherio, elas não saberiam responder. Isso porque o movimento está sendo feito de maneira coletiva, todas nós tateando, todas nós procurando entender o que pode ser feito para que as mulheres escritoras não sejam ignoradas nas várias instâncias onde ainda predominam o nosso conhecido critério misógino ou francamente machista.

Eu cá bem poderia dizer o que penso que será, ou o que gostaria que fosse esse encontro, mas correria o risco de errar pela terceira vez porque é algo muito novo o que a Valéria, a Suzana, e todas que estavam na primeira conversa em Paraty, colocaram em marcha.

Vejam, por exemplo, o que está acontecendo com os cartazes do encontro  de outubro. Uma artista gráfica (quem foi mesmo? Laís Chaffe?) teve a ideia de fazer uma arte para um cartaz, logo outras acharam a ideia ótima, e temos agora uma linda quantidade de artes para cartazes do “Mulherio 2017” que, até outubro, de alguma maneira, serão impressos, de alguma maneira, e divulgados. (Coloquei apenas 5 para ilustrar este post mas são muito mais. Uma pena não conseguir colocar todos, mas para vê-los é só passar pelo Facebook do “Mulherio das Letras”, onde a divulgação do movimento começou.)

O que vai sair de tudo isso, portanto, ninguém sabe.

Se não sair nada, pelo menos será divertido. E daremos boas risadas durante e depois.

Digo “depois” porque nos tempos vindouros, é certo que mulheres e homens da literatura reverão esse tempo de hoje e pensarão: Como foi possível isso? Em 2017, pleno Século XXI, ainda havia discriminação entre escritores? Que época mais atrasada. Inacreditável!

 

 

 

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Vivendo com o diverso

“As estratégias de miscigenação ensinaram a viver com o diverso; (…) isso não corresponde inteiramente à democracia racial, tese defendida por Gilberto Freyre, pois o convívio nem sempre foi “democrático”, nem isento de preconceitos. Porém é um passo à frente, um pano de fundo que caracteriza a cultura brasileira.”

Jorge Wilhelm, “São Paulo, uma interpretação”, Editora Senac, 2011:

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VIVA OS ÍNDIOS VIVOS!

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Com a conclamação do título acima, Guto Lacaz, grande artista paulistano, fez um poema gráfico que, infelizmente, não dá para reproduzir aqui. Está no Facebook, para quem quiser ver.

A partir de um poema de Carlos Rennó e música do Chico Cesar, a canção “”Demarcação Já” foi interpretada por 25 cantores como Maria Bethânia, Gilberto Gil,  Arnaldo Antunes, Elza Soares, Zeca Pagodinho, Criolo, Zélia Duncan. Vocês viram o clipe? Também está no Facebook. Linda a música, necessária e urgente a letra, beleza de interpretação. Vejam um dos versos:

“Pelo respeito e pelo direito

À diferença e à diversidade

De cada etnia, cada minoria

De cada espécie da comunidade

De seres vivos que na terra há

Demarcação já!

Demarcação já!”

Estes são apenas dois exemplos da solidariedade que a questão indígena provoca hoje, neste país onde, mais de 500 anos depois, seus primeiros habitantes continuam sofrendo todo tipo de maus tratos, rejeição, desprezo, roubos de suas terras, assassinatos.

Nesta semana, cerca de 3.000 indígenas de vários povos e regiões encontraram-se em Brasília para reivindicar o respeito a suas terras, condição sine qua non para manterem suas vidas e suas culturas.

Darcy Ribeiro, de saudosa memória, maravilhava-se com o Brasil justamente por ter um povo novo, absolutamente diferente de tudo o que havia no mundo. Ao que Daniel Munduruku, escritor com dezenas de livros premiados, filósofo, doutor em educação, acrescenta hoje: “O Brasil é um país adolescente. Um país em crise de identidade, que ainda não percebeu que é formado por um conjunto de outros.”

É o mesmo Daniel, do povo Munduruku, quem disse em entrevista recente:

“Quando cheguei a São Paulo, já adulto, sentia muita resistência dos outros. As pessoas se assustavam com o que eu era, e eu me assustava com o que eles eram. Como educador, comecei a perceber que nós éramos dois povos assustados um com o outro. E que era preciso que olhássemos mais para nós, que aprendêssemos com nossas diferenças.”

Ao ser perguntado sobre qual a maior contribuição que o indígena dá ao Brasil, ele não hesitou:

“A resposta me parece muito simples: manter-se vivo. Se os indígenas conseguirem resistir a tudo isso, já estarão contribuindo muitíssimo com o Brasil. Ao se manterem vivos, esses povos [250 povos, 180 línguas] vão trazer uma riqueza cultural, espiritual, moral que só bem faz ao país.”

Frente a tudo isso, nós, que somos frutos do paradoxo de ter sangue índio vis a vis um passado de genocídio indígena, em que pé estamos? Assumimos nossa dívida ancestral com eles, ou preferimos continuar (ainda hoje!!!) mostrando-lhes apenas nossa face cruel, injusta e degradante de mestiços que negam o próprio sangue e herança?

 

(Crônica publicada hoje (27/abril/2017) em “O Popular”. Foi escrita e enviada para o jornal na terça-feira, 25 de abril, quando ainda não havia acontecido a repressão aos indígenas que foram entregar suas reivindicações ao Congresso. Por isso não fala das bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e balas de borracha com que eles foram recebidos. 

A espantosa foto aí de cima, de Alberto Villas, foi tomada emprestada de um post do Alexandre Staut.) 

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Que beleza!!! Não deixem de ver.

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Para quem escreve sobre mulher

Deveria ser obrigatório ler a tetralogia napolitana da Elena Ferrante.

Se tem uma coisa que essa escritora vai deixar para quem escreve sobre os problemas mais íntimos da mulher é que, sem um pouco de verdade, não vai funcionar mais.

Boa parte de quem foca nessa grande questão vai ter que mudar de patamar. 

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Depois de um grande desânimo com o que estamos vivendo

Estou começando a animar, tipo esquentando os tamborins, para escrever um novo romance.

Ainda estou na fase da pesquisa, que desta vez começou um tanto fora de foco. Ainda vou continuar nas pesquisas, mas agora, pelo menos, já tenho um fio condutor que me parece mais ou menos sólido.

Coisa boa é isso.

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Sexta de crônicas: Morte anunciada

 

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Mais uma vez, um alerta vermelho dos cientistas: estamos cometendo um crime, levando nosso cerrado à extinção. Destruindo o chão de nossos netos e bisnetos.

Ainda existem saídas, mas se não mudarmos alguma coisa, em breve elas se fecharão. A morte do cerrado será irreversível.

Dessa vez, o alerta veio de um grupo de pesquisadores, coordenados por Bernardo Strassburg, do Centro de Ciências de Conservação e Sustentabilidade, da PUC-Rio.

Vejam agora a responsabilidade que nós, goianos, querendo ou não, temos: nossa morada, o imenso planalto central no coração do país, assenta-se sobre uma das rochas mais antigas do planeta. Nossa vegetação, a mais antiga do mundo, tem 4, 8 mil espécies de plantas e vertebrados, e abriga três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul. Mas se a taxa de desmatamento atual continuar, cerca de 480 espécies de planta podem desaparecer até 2050, o que seria, segundo os especialistas, “mais de três vezes todas as extinções de plantas documentadas desde 1500.” E se as plantas desaparecerem, desaparecerão também animais e, pior, a produção das bacias hidrográficas ficará comprometida.

O biólogo Rafael Loyola, da Universidade Federal de Goiás, avisa: “É muito mais do que só perder planta, é perder água, agravar crises hídricas como a que hoje atinge o Distrito Federal”. Sim, já começou a acontecer, já está acontecendo. Logo mais, pode começar a prejudicar diretamente (ó ironia!) nosso famoso agronegócio, responsável pela maior parte do desmatamento. É o chamado círculo vicioso: o desmatamento acaba comprometendo a própria atividade produtiva que o motivou.

Esse, o miserável cenário que estamos em vias de legar para os que estarão vivos em 2050.

Mas ainda pode ter uma saída. Logo mais, não vai ter. É o que o estudo mostra, fazendo propostas concretas de políticas públicas mais inteligentes e possíveis para evitar a destruição, mesmo sem prejudicar a expansão do agronegócio (podem respirar aliviados!).

Será que nossas autoridades tomarão conhecimento desse estudo, publicado recentemente na revista Nature and Evolution? Darão atenção às sugestões dos que estudam o assunto? Mudarão o rumo da destruição antes que ela seja irreversível, e hoje ainda está em suas mãos?  (Atentaram para a urgência do “hoje ainda”?)

No meu romance, “Guerra no coração do cerrado”, sobre as jornadas da índia Damiana da Cunha por um cerrado que, embora já tão destruído e diferente, continua a ser o nosso, escrevo que suas árvores fortes, tortuosas, e tão antigas “talvez sejam como guardiãs do âmago do ser árvore. Não é fácil guardar coisa tão preciosa por tanta antiguidade. Talvez, por isso, se retorçam assim. Para conservar o sumo. Concentrar a essência das árvores. Não deixá-las morrer.”

Será que acabaremos destruindo, sem dó nem piedade, essa preciosidade que está em nossas mãos?

O tempo é um raio que passa e nos leva junto. Enquanto as decisões certas não forem tomadas, não é para um lugar muito bom que ele estará levando todos os netos e bisnetos não só nossos, reles mortais, como também os dos donos dos agronegócios, políticos e impolutas autoridades.

 

(Publicada em “O Popular”, em 13/04/2017)

 

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Um momento de divulgação

Duas mensagens da grande Beatriz Cannabrava:

Esta mais recente, sobre o meu livro de contos, “Felizes Poucos”, que abordam vários momentos da luta contra a ditadura:

“Dizer que gostei do livro é pouco. Em vários momentos me identifiquei com Bia, Cristina, Alice, Mara, Angela… nas suas angústias, medos e esperanças. Também conheci (e creio que todos nós conhecemos) muitos Antonios, Carlinhos, Nandos… E o curinga… sempre presente às vezes brincalhão, às vezes reflexivo, interferindo em nossas lembranças. Obrigada, Zezé.”

Este, anterior, sobre o “Fantasma de Luís Buñuel”:

“Zezé. De férias, acabo de reler, dez anos depois, O fantasma de Luis Buñuel. Foi outra leitura, mais madura e percebi nuances e detalhes que antes talvez passasse por alto. Seu retrato de uma geração, a sua e de tantos outros companheiros e outras companheiras que viveram esses tempos, em Brasília, Rio, São Paulo e por esse Brasil afora é fantástico. Não deixe nunca de escrever… Obrigada por compartilhar seu talento. Bjs.”

Eu é que agradeço, Bia.

 

 

 

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Por que se é amigo de alguém?

Responde Deleuze:

“A amizade, para mim, é uma questão de percepção. Não é o fato de ter ideias em comum, mas de uma linguagem comum ou uma pré-linguagem comum. (…) Há um mistério aí, uma base indeterminada… Tenho uma hipótese: cada um está apto a entender um determinado tipo de “charme”. Ninguém consegue entender todos os tipos ao mesmo tempo. Há uma percepção do “charme”. Quando falo de charme não quero supor, absolutamente, nada de homossexualidade dentro da amizade. Nada disso. Mas um gesto, um pensamento de alguém, mesmo antes que este seja insignificante, um pudor de alguém, são fontes de charme, que tem tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais — que é assim que se torna amigo de alguém.”

 Trecho de entrevista dada por Gilles Deleuze à Claire Parnet, em 1988.

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Morte bonita

A garota lia um livro no metrô. Descemos na mesma estação e, quando o trem parou, ela se levantou lendo o livro, desceu do vagão lendo, e lendo continuou ao subir as escadas e sair da estação. Depois, perdia-a de vista. Imagino que deve ter continuado lendo pelas ruas até chegar ao lugar para onde ia ou ser atropelada.  Morrer lendo um livro. Morte até bonita, se ela não fosse tão jovem.

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