Para quem escreve sobre mulher

Deveria ser obrigatório ler a tetralogia napolitana da Elena Ferrante.

Se tem uma coisa que essa escritora vai deixar para quem escreve sobre os problemas mais íntimos da mulher é que, sem um pouco de verdade, não vai funcionar mais.

Boa parte de quem foca nessa grande questão vai ter que mudar de patamar. 

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Depois de um grande desânimo com o que estamos vivendo

Estou começando a animar, tipo esquentando os tamborins, para escrever um novo romance.

Ainda estou na fase da pesquisa, que desta vez começou um tanto fora de foco. Ainda vou continuar nas pesquisas, mas agora, pelo menos, já tenho um fio condutor que me parece mais ou menos sólido.

Coisa boa é isso.

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Sexta de crônicas: Morte anunciada

 

Resultado de imagem para imagens do cerrado goiano

Mais uma vez, um alerta vermelho dos cientistas: estamos cometendo um crime, levando nosso cerrado à extinção. Destruindo o chão de nossos netos e bisnetos.

Ainda existem saídas, mas se não mudarmos alguma coisa, em breve elas se fecharão. A morte do cerrado será irreversível.

Dessa vez, o alerta veio de um grupo de pesquisadores, coordenados por Bernardo Strassburg, do Centro de Ciências de Conservação e Sustentabilidade, da PUC-Rio.

Vejam agora a responsabilidade que nós, goianos, querendo ou não, temos: nossa morada, o imenso planalto central no coração do país, assenta-se sobre uma das rochas mais antigas do planeta. Nossa vegetação, a mais antiga do mundo, tem 4, 8 mil espécies de plantas e vertebrados, e abriga três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul. Mas se a taxa de desmatamento atual continuar, cerca de 480 espécies de planta podem desaparecer até 2050, o que seria, segundo os especialistas, “mais de três vezes todas as extinções de plantas documentadas desde 1500.” E se as plantas desaparecerem, desaparecerão também animais e, pior, a produção das bacias hidrográficas ficará comprometida.

O biólogo Rafael Loyola, da Universidade Federal de Goiás, avisa: “É muito mais do que só perder planta, é perder água, agravar crises hídricas como a que hoje atinge o Distrito Federal”. Sim, já começou a acontecer, já está acontecendo. Logo mais, pode começar a prejudicar diretamente (ó ironia!) nosso famoso agronegócio, responsável pela maior parte do desmatamento. É o chamado círculo vicioso: o desmatamento acaba comprometendo a própria atividade produtiva que o motivou.

Esse, o miserável cenário que estamos em vias de legar para os que estarão vivos em 2050.

Mas ainda pode ter uma saída. Logo mais, não vai ter. É o que o estudo mostra, fazendo propostas concretas de políticas públicas mais inteligentes e possíveis para evitar a destruição, mesmo sem prejudicar a expansão do agronegócio (podem respirar aliviados!).

Será que nossas autoridades tomarão conhecimento desse estudo, publicado recentemente na revista Nature and Evolution? Darão atenção às sugestões dos que estudam o assunto? Mudarão o rumo da destruição antes que ela seja irreversível, e hoje ainda está em suas mãos?  (Atentaram para a urgência do “hoje ainda”?)

No meu romance, “Guerra no coração do cerrado”, sobre as jornadas da índia Damiana da Cunha por um cerrado que, embora já tão destruído e diferente, continua a ser o nosso, escrevo que suas árvores fortes, tortuosas, e tão antigas “talvez sejam como guardiãs do âmago do ser árvore. Não é fácil guardar coisa tão preciosa por tanta antiguidade. Talvez, por isso, se retorçam assim. Para conservar o sumo. Concentrar a essência das árvores. Não deixá-las morrer.”

Será que acabaremos destruindo, sem dó nem piedade, essa preciosidade que está em nossas mãos?

O tempo é um raio que passa e nos leva junto. Enquanto as decisões certas não forem tomadas, não é para um lugar muito bom que ele estará levando todos os netos e bisnetos não só nossos, reles mortais, como também os dos donos dos agronegócios, políticos e impolutas autoridades.

 

(Publicada em “O Popular”, em 13/04/2017)

 

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Um momento de divulgação

Duas mensagens da grande Beatriz Cannabrava:

Esta mais recente, sobre o meu livro de contos, “Felizes Poucos”, que abordam vários momentos da luta contra a ditadura:

“Dizer que gostei do livro é pouco. Em vários momentos me identifiquei com Bia, Cristina, Alice, Mara, Angela… nas suas angústias, medos e esperanças. Também conheci (e creio que todos nós conhecemos) muitos Antonios, Carlinhos, Nandos… E o curinga… sempre presente às vezes brincalhão, às vezes reflexivo, interferindo em nossas lembranças. Obrigada, Zezé.”

Este, anterior, sobre o “Fantasma de Luís Buñuel”:

“Zezé. De férias, acabo de reler, dez anos depois, O fantasma de Luis Buñuel. Foi outra leitura, mais madura e percebi nuances e detalhes que antes talvez passasse por alto. Seu retrato de uma geração, a sua e de tantos outros companheiros e outras companheiras que viveram esses tempos, em Brasília, Rio, São Paulo e por esse Brasil afora é fantástico. Não deixe nunca de escrever… Obrigada por compartilhar seu talento. Bjs.”

Eu é que agradeço, Bia.

 

 

 

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Por que se é amigo de alguém?

Responde Deleuze:

“A amizade, para mim, é uma questão de percepção. Não é o fato de ter ideias em comum, mas de uma linguagem comum ou uma pré-linguagem comum. (…) Há um mistério aí, uma base indeterminada… Tenho uma hipótese: cada um está apto a entender um determinado tipo de “charme”. Ninguém consegue entender todos os tipos ao mesmo tempo. Há uma percepção do “charme”. Quando falo de charme não quero supor, absolutamente, nada de homossexualidade dentro da amizade. Nada disso. Mas um gesto, um pensamento de alguém, mesmo antes que este seja insignificante, um pudor de alguém, são fontes de charme, que tem tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais — que é assim que se torna amigo de alguém.”

 Trecho de entrevista dada por Gilles Deleuze à Claire Parnet, em 1988.

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Morte bonita

A garota lia um livro no metrô. Descemos na mesma estação e, quando o trem parou, ela se levantou lendo o livro, desceu do vagão lendo, e lendo continuou ao subir as escadas e sair da estação. Depois, perdia-a de vista. Imagino que deve ter continuado lendo pelas ruas até chegar ao lugar para onde ia ou ser atropelada.  Morrer lendo um livro. Morte até bonita, se ela não fosse tão jovem.

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Sexta de crônicas: O jovem contador

 

Saiu de casa cedo, barba feita, banho tomado, camisa e calças limpas e bem passadas. Para não se atrasar, nem tomou o café da manhã que a esposa deixara pronto antes de sair para o dia com seus alunos. Preferiu colocar os ovos mexidos e o pão francês em uma pequena marmita, e a marmita em sua mochila nova. Examinou o brilho dos sapatos que engraxara no dia anterior. Sua preocupação de contador era ser pontual, e de aparência irretocável. Como a mulher de Cesar, um contador não tem apenas que ser correto; tem que parecer correto. Havia se questionado sobre a mochila, mas decidiu que era adequado ao jovem que era. O anúncio especificara jovem. Para um jovem contador, a mochila estava bem.

Sua entrevista de hoje poderia ser a tábua da salvação.

Não era a primeira entrevista. Teve sorte no começo, recém formado em contabilidade, pediu demissão do trabalho estafante na lanchonete para tentar se empregar na nova profissão. Conseguiu logo o emprego, que também logo perdeu – a pequena firma que o contratara faliu um mês depois.

Agora, com tantas firmas fechando, conseguir o segundo emprego estava demorando bem mais do que o esperado. A falta do seu salário em casa começara a pesar assustadoramente.  A mulher não era dessas que fazia a maldita pergunta todos os dias, mas começara a olhá-lo com uma desolada interrogação nos olhos. Dera-se um prazo. Caso não conseguisse emprego como contador hoje, voltaria a trabalhar no que desse.

Ao sair, faz o nome-do-pai frente ao pequeno quadro que sua esposa colocara atrás da porta da casa, Jesus com seu vermelho coração à mostra e seu olhar de santo. Dessa vez, o gesto automático do hábito se detém. Acaba de se dar conta de que não gosta daquele olhar piedoso.  Não entende o que ele quer dizer: resignação? O coração – rubra pera envolvida pela coroa de espinhos com a pequena fogueira se erguendo da junção no alto – lhe parece mais compreensível e, mesmo assim, não lhe agrada. Na verdade não lhe agrada em nada aquele quadro. É a certeza que tem enquanto sua mão, sozinha, termina o gesto detido, e fecha a porta.

Na entrevista, acredita que foi bem.  Se o dinheiro não estivesse contado, levaria um chocolate para a mulher. Há tanto tempo não lhe faz um agrado! Reprime a vontade. A resposta sai em dois dias. Tem que esperar.

Ao entrar em casa, e ver outra vez o Sagrado Coração de Jesus à mostra, decide resolver logo o que decidira antes. Tira-o do prego e o deita no alto do guarda-roupa do quarto. Se a mulher perguntar por que o tirou do lugar, sabe o que responder. Não quer ver mais sofrimento. Basta os seus, e os que vai contando a cada momento de seu cotidiano de desempregado. Somos 13 milhões atualmente, e aumentando, se diz. Como a população da maior metrópole brasileira, caramba!

Precisamos de muita coisa. Olhar de compaixão não é uma delas.

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 30/março/2017)

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Ambição na literatura

“Nunca escrevi sem ambição. O problema da ambição é que ela tem o mau hábito de crescer na medida em que a gente envelhece. Não costumo respeitar escritores que não sejam ambiciosos, pois ambição, ao menos em literatura, equivale à esperança. Procuro escrever algo que seja digno de nota e dos leitores, mas infelizmente estou limitado ao que posso fazer.”

(Joca R. Terron, em recente entrevista a Guilherme Sobota, no “Caderno 2” do Estadão)

 

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Sexta de crônicas: Nascer menina

 

Neste surpreendente mês de março dedicado à luta das mulheres, meu dia anda começando cedo.

Hoje, por exemplo, já fui e voltei dos Supermercados Temer (como bem batizou Zé Simão), onde fiquei um bom tempo estudando as flutuações dos preços dos legumes, frutas e carnes, exercendo meu cívico papel feminino de controladora de preços da nação. Depois, para descansar um pouco, antes de contribuir para formação dos netos, dei uma olhadinha nas estatísticas nacionais, ainda que essas, segundo presidentes não eleitos, sejam tarefas tão só do provedor da casa, o homem.

Eis o que vi:

– o país ocupa o 5º lugar “no ranking de assassinados femininos no planeta”;

– a cada hora e meia uma mulher é assassinada por um homem, resultando em 13 feminicídios por dia;

– a cada 4 minutos há uma violência sexual, física ou psicológica sofrida por mulheres, ou seja, 405 por dia;

– a taxa de assassinatos de mulheres negras aumentou 44% em dez anos;

– calcula-se que 527 mil estupros são cometidos no país anualmente, dos quais apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia;

– 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados, amigos ou conhecidos;

– em São Paulo, a grande metrópole do país, nos últimos quatro anos houve um aumento de 850% (sim, oitocentos e cinquenta por cento!) no número de boletins de ocorrência por estupro, ato obsceno, importunação ofensiva ao pudor e estupro de vulnerável no transporte público da cidade;

– em todo o país, mulheres nos mesmos cargos continuam ganhando 30% menos que os homens.

Frente a tudo isso, o relatório da Anistia Internacional sobre violações de direitos no Brasil em 2016, afirmou que “o Brasil é um dos piores países da América Latina para quem nasce menina, em especial devido aos níveis extremamente altos de violência de gênero e gravidez na adolescência, além das baixas taxas de conclusão da educação secundária.”

Dizer mais uma vez que o nosso é um país com autoridades machistas que piamente acreditam que as competências das mulheres, essas cidadãs de segunda categoria, estão relegadas aos trabalhos do lar, é regurgitar uma dolorosa obviedade que a sociedade contemporânea há muito repudia. E, além de ressaltar ainda mais o crescimento que as estatísticas de desigualdades e violência contra as mulheres expõem, nos remete a um passado assustador.

Simone de Beauvoir, a filósofa que revolucionou a questão feminina, há 68 anos formulou uma preciosa verdade: não nascemos mulher; tornamo-nos mulher, a partir da história da civilização humana (que é a história da dominação masculina) e da história particular de cada uma. Com essa consciência e a luta das mulheres, a opressão em que a história teimava em nos jogar, vem sendo há décadas, com esforço e paulatinamente, desconstruída. Mas eis que, então, neste março do século XXI, quiseram nos passar uma rasteira e nos arremeter de novo para o século passado.

Não deu certo. Desculpas tiveram que ser pedidas no dia seguinte. Mas as estatísticas que aí estão mostram com clareza o crescimento do perigo de nascer mulher neste país.

 

(Crônica publicada em “O Popular” em 16/março/2017)

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Sexta de crônicas: Nós que aqui estamos por vós esperamos

 

A frase do título acima – que lembro hoje a propos de outro cemitério que recentemente vi no Nordeste – vem da inscrição no pórtico de um cemitério em Paraibuna, interior de São Paulo, e deu o título a um filme muito interessante, de Marcelo Masagão, do final da década de 90. O filme é um documentário feito com fotomontagem e texto do próprio Masagão, mostrando uma espécie de apanhado do século XX ainda tão próximo, seus contrastes e extremos.

E me lembrei da frase porque esse cemitério que por acaso vi em Alagoas é o exato oposto daquele outro, colorido e parte harmoniosa da natureza, que vi na Paraíba, e comentei aqui outro dia.

Esse de Alagoas é também pequeno, também antigo, só que hoje é apenas uma ruína infinitamente batida pela maré cheia, ao pé de uma praia de beleza esplendorosa. Pela arquitetura dos poucos restos dos seus túmulos destruídos, dá para ver que gente rica foi enterrada ali. Mas não só, claro. Resta também uma solitária cruz de madeira, embora mais recente, ainda fincada no chão.

Agora o mais interessante, o que me chamou realmente a atenção, foi o barraco de palha que invadiu as ruínas, erguendo-se sobre elas, para dar abrigo a uma família. Três crianças brincam indiferentes por entre os túmulos. Vivos que a miséria levou para o meio de um cemitério antes mesmo da morte, imagem muito apropriada ao filme do Masagão.

Tenho falado de cemitérios, e acho que ando passando a vocês a falsa impressão de que gosto deles. Não é verdade. Nem pretendo, jamais, morar em um já que, para minha ruína pessoal , há tempos optei pela cremação. Sempre achei – e creio que continuarei achando – que a melhor casa para os mortos não está debaixo da terra, e sim em nossas lembranças.

Pois considerem que nossos cérebros são habitados por 16 bilhões de neurônios – o dobro da população do mundo, calculou alguém –, com 16 trilhões de sinapses (as interações entre um e outro) em incansável movimentação. (Não à toa muita gente diz que ouve vozes na cabeça, entre as quais, aliás, eu me incluo, ainda que só ouça, até agora, minha própria voz). É aí, nessa interação contínua dos meus neurônios, que meus mortos amados vivem. É aí que os visito com certa constância. Penso, às vezes, que talvez até fosse bom dar um pouco de sossego a eles, mas ainda não. As lembranças boas são parte de nós, e acho que só abrirei mão das minhas quando eu for, também, nada mais que uma entre as sinapses de alguém.

Mas caramba! Vejam só para onde a escrita nos leva! Comecei essa crônica querendo falar apenas de um pequeno cemitério em uma bela praia onde recentemente passei dias de sol, brisa, água salgada e boa vida, e eis que a termino falando de minha própria ruína morta.

Eu, hein?!

Melhor deixar de falar de cemitérios, e ir pro tanque lavar a pilha de roupa que ficou do carnaval!

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 2 de março, 2017)

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