Fome

Sou amiga da vendedora de ticket eletrônico da Zona Azul aqui perto de casa. Antes, ela vendia o cartão. De vez em quando, também vende Yakult. É seu ponto há anos, haja frio, chuva ou sol. Tornou-se minha amiga por causa dos livros. É uma leitora consistente – Machado, Humberto Eco, os clássicos, bons policiais, seus preferidos. Sempre lhe empresto livros; alguns, digo que não precisa devolver. Sei que é ela minha fã (diz isso pra quem quiser ouvir) desde que leu “A mãe da mãe de suas mães e suas filhas”, e já lhe dei todos os outros. Quando lancei o “Felizes Poucos”, final do ano passado, levei um pra ela. “Tenho poucos exemplares deste”, lhe disse, “então desta vez este vai só emprestado. Quando terminar, me devolve.” Mas qual! Ela adorou os contos e queria comprar o livro. “Só faltava essa!”, respondi. “Se você gostou tanto, é claro que ele é seu, e não se fala mais no assunto”.

Passado uns dias, ela deixou pra mim na portaria uns potinhos de Yakult, gesto que muito me emocionou: potinhos de Yakult para agradecer um livro.

E hoje, passando por ela ao voltar da minha caminhada, parei para comentar a reviravolta que houve ontem à noite, e a previsível queda do Temer. Contei o comentário de um amigo: “A casa caiu, mas foi em nossa cabeça”. Mas ela não sorriu. Não estava pra sorrisos.  Me disse: “As coisas vão piorar, eu sei. E eu tenho medo é da fome.”

Tão clara como um céu de maio, a verdade me bateu na cabeça: minha amiga já passou fome. Ela, como milhões de brasileiros, é desse vazio muito concreto que têm medo: a fome.

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Sexta de crônicas: O Tititi da Floresta

 

Devia ser um belo dia quando Peter Wohlleben, andando por uma das magníficas florestas da Alemanha – onde trabalhava avaliando o rendimento das árvores – quase tropeçou (por assim dizer) no toco de uma grande faia, há séculos caída. Surpreendeu-se com sua cor, raspou sua casca e, por baixo, viu que a madeira era verde: o toco estava vivo. Mas se não tinha folhas para fotossíntese, como a energia necessária era produzida?

Pesquisando, chegou à conclusão que mudou sua maneira de entender como as árvores e plantas se comportam: as faias em torno estavam enviando açúcar para manter o toco vivo. Ou seja: ele “estava sendo cuidado por suas vizinhas.”

A floresta é uma comunidade: demonstra Wohlleben em seu fabuloso livro “A vida secreta das árvores”.  As árvores possuem “uma inteligência difusa, cega, localizada nos milhares de filamentos sensíveis e alertas de milhares de pontas da raiz, em uma rede de linguagem de mensagens químicas, espalhando-se através do chão da floresta via uma vasta rede de micélio simbiótico fúngico.”

Cada folha tem capacidade sensorial, explica. Quando atacada, ela “sente” o tipo de peste que a atacou. “O tecido da folha envia sinais elétricos, assim como o tecido humano faz quando é ferido, e esse sinais incitam a descarga de ‘componentes defensivos’ (os carvalhos, por exemplo, soltam taninos).” Assim, as árvores soltam “boletins” químicos e elétricos entre si, e se preparam descarregando componentes químicos de defesa.

“Elas tomam decisões, têm personalidades.” Podem ser intimidadoras, gananciosas, parcimoniosa com a energia, ou “despreocupadamente impacientes para crescer.” “Vivenciam a dor e têm memórias”.

Quem já viu uma grande árvore sendo abatida – por exemplo, uma castanheira – sabe como ela, cujas raízes se embrenham terra abaixo, não morre sozinha. Leva junto outras árvores de seu entorno, sua queda puxando as outras. Em segundos, a terre treme e ruge, e a mãe, esperneando as raízes, cai com suas crias. Ouve-se um berro da natureza. Um alerta, um aviso: vocês levaram essas, mas cuidado! Posso tardar em vingar as mortes dos meus, mas um dia vingo.

Essa parte da vingança é da minha lavra, não do Wohlleben. Mas é ele quem nos lembra que “toda criança em idade escolar sabe que árvores são seres viventes, mas aprende a categorizá-las como objetos”. É preciso entender que elas são seres viventes completos, e mudar sua categorização.

Outro alerta quem nos dá é Gary Snyder, também pesquisador ecológico, em seu ensaio “The practice of the wild”: “O mundo está observando: ninguém pode caminhar em um prado ou floresta sem que uma ondulação de aviso se espalhe a sua passagem. O tordo se arremete, o gaio guincha, um besouro esconde-se sob a grama, e o sinal é passado adiante. Toda criatura sabe quando um gavião está passando ou um humano caminhando. A informação passada pelo sistema é inteligência.”

Depois dessa, de minha parte, juro: se eu vivesse desmatando árvores, não conseguiria dormir à noite.

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 11/5/2017)

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Você é o seu romance

 

De uma entrevista de Ian Mcwan para El Pais

“O romance, como criação, é embaraçosamente revelador. Você mostra a sua natureza mesmo que não escreva sobre si mesmo. Você é o seu romance, esse é o problema e o fascínio. Alguém disse que ninguém poderia escrever 500 palavras de ficção.”

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A Mãe da Mãe de sua Mãe e suas Filhas nos States em novembro!

A MÃE DA MÃE DE SUA MÃE E SUAS FILHAS… em inglês, já está com a pré-venda na Amazon.
O romance de Maria José Silveira, que ganhou o prêmio de autora revelação

Ver mais

Her Mother’s Mother’s Mother and Her Daughters tells the story of Brazil through the histories of a twenty women. It opens with Inaia being born in 1500, at the moment when the Portuguese arrive in Brazil and continues through to the…
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Mulherio das Letras 2017

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Depois da última FLIP – onde a quase total ausência de escritoras femininas convidadas foi bastante conspícua – tive a sorte de me encontrar com Maria Valeria Rezende e Susana Ventura que voltavam de lá, e me contaram, rindo, que estavam planejando organizar um encontro só de mulheres, onde – como disse a Valéria em entrevista recente para o Suplemento Literário Pernambuco (um dos melhores deste país) – sua vontade era escrever como slogan “Meninos entram. Mas para escutar”. Aplaudi a ideia, rindo também, mas com sérias dúvidas de que fosse realmente possível realizar tal encontro.

Como se eu não conhecesse a Valéria!

Escritora premiada, criatura movida a ideias generosas, e que já viveu tanta coisa extraordinária que, quando converso com ela, fico repetindo, “Para, Valéria, para!”, mas que ela não para. Jamais parou. E continuará sem parar até onde sua fé e entusiasmo a levarem.

Não falo mais da Susana – outra pessoa maravilhosa – porque ela é de São Paulo, não da Paraíba que, afinal, é onde estão carregando o andor dessa história (gostou do “andor”, Valéria?). Mas sei que, daqui, também ela trabalha a mil para que o encontro aconteça.

Outra coisa que pensei erroneamente naquela primeira conversa é que seríamos quantas? 100? 200? Estourando umas 300 escritoras e mulheres das letras no país?

Mas foi só a Maria Valéria e seu front da Paraíba (não sei o nome de todas) colocarem as bases para o movimento que batizaram de “Mulherio das Letras” para que as adesões começassem imediatamente e chegassem – veja o espanto! – a quase 3.000 até agora, e continuassem crescendo porque é um movimento livre e aberto a escritoras, ilustradoras, tradutoras, editoras, críticas literária, professoras de literatura, e jornalistas. Enfim, o povo feminino das letras.

Como diz a ótima reportagem publicada pelo Suplemento Literário de Pernambuco, capitaneado por Schneider Carpeggiani, “O Mulherio não tem um nome central à sua frente, nem cachê de participação, curadora ou qualquer outra hierarquia típica de festa literária. Na verdade, não se trata de uma festa literária. E, sim, da culminância de uma série de articulações que têm ocorrido em grupos fechados do Facebook, marcado para acontecer na capital paraibana entre 12 e 15 de outubro. Das conversas, homens não participam. Mas, durante o evento, eles terão acesso. Como plateia.”

Acho que se alguém perguntar para alguma das organizadoras o que exatamente pretendem com o Mulherio, elas não saberiam responder. Isso porque o movimento está sendo feito de maneira coletiva, todas nós tateando, todas nós procurando entender o que pode ser feito para que as mulheres escritoras não sejam ignoradas nas várias instâncias onde ainda predominam o nosso conhecido critério misógino ou francamente machista.

Eu cá bem poderia dizer o que penso que será, ou o que gostaria que fosse esse encontro, mas correria o risco de errar pela terceira vez porque é algo muito novo o que a Valéria, a Suzana, e todas que estavam na primeira conversa em Paraty, colocaram em marcha.

Vejam, por exemplo, o que está acontecendo com os cartazes do encontro  de outubro. Uma artista gráfica (quem foi mesmo? Laís Chaffe?) teve a ideia de fazer uma arte para um cartaz, logo outras acharam a ideia ótima, e temos agora uma linda quantidade de artes para cartazes do “Mulherio 2017” que, até outubro, de alguma maneira, serão impressos, de alguma maneira, e divulgados. (Coloquei apenas 5 para ilustrar este post mas são muito mais. Uma pena não conseguir colocar todos, mas para vê-los é só passar pelo Facebook do “Mulherio das Letras”, onde a divulgação do movimento começou.)

O que vai sair de tudo isso, portanto, ninguém sabe.

Se não sair nada, pelo menos será divertido. E daremos boas risadas durante e depois.

Digo “depois” porque nos tempos vindouros, é certo que mulheres e homens da literatura reverão esse tempo de hoje e pensarão: Como foi possível isso? Em 2017, pleno Século XXI, ainda havia discriminação entre escritores? Que época mais atrasada. Inacreditável!

 

 

 

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Vivendo com o diverso

“As estratégias de miscigenação ensinaram a viver com o diverso; (…) isso não corresponde inteiramente à democracia racial, tese defendida por Gilberto Freyre, pois o convívio nem sempre foi “democrático”, nem isento de preconceitos. Porém é um passo à frente, um pano de fundo que caracteriza a cultura brasileira.”

Jorge Wilhelm, “São Paulo, uma interpretação”, Editora Senac, 2011:

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VIVA OS ÍNDIOS VIVOS!

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Com a conclamação do título acima, Guto Lacaz, grande artista paulistano, fez um poema gráfico que, infelizmente, não dá para reproduzir aqui. Está no Facebook, para quem quiser ver.

A partir de um poema de Carlos Rennó e música do Chico Cesar, a canção “”Demarcação Já” foi interpretada por 25 cantores como Maria Bethânia, Gilberto Gil,  Arnaldo Antunes, Elza Soares, Zeca Pagodinho, Criolo, Zélia Duncan. Vocês viram o clipe? Também está no Facebook. Linda a música, necessária e urgente a letra, beleza de interpretação. Vejam um dos versos:

“Pelo respeito e pelo direito

À diferença e à diversidade

De cada etnia, cada minoria

De cada espécie da comunidade

De seres vivos que na terra há

Demarcação já!

Demarcação já!”

Estes são apenas dois exemplos da solidariedade que a questão indígena provoca hoje, neste país onde, mais de 500 anos depois, seus primeiros habitantes continuam sofrendo todo tipo de maus tratos, rejeição, desprezo, roubos de suas terras, assassinatos.

Nesta semana, cerca de 3.000 indígenas de vários povos e regiões encontraram-se em Brasília para reivindicar o respeito a suas terras, condição sine qua non para manterem suas vidas e suas culturas.

Darcy Ribeiro, de saudosa memória, maravilhava-se com o Brasil justamente por ter um povo novo, absolutamente diferente de tudo o que havia no mundo. Ao que Daniel Munduruku, escritor com dezenas de livros premiados, filósofo, doutor em educação, acrescenta hoje: “O Brasil é um país adolescente. Um país em crise de identidade, que ainda não percebeu que é formado por um conjunto de outros.”

É o mesmo Daniel, do povo Munduruku, quem disse em entrevista recente:

“Quando cheguei a São Paulo, já adulto, sentia muita resistência dos outros. As pessoas se assustavam com o que eu era, e eu me assustava com o que eles eram. Como educador, comecei a perceber que nós éramos dois povos assustados um com o outro. E que era preciso que olhássemos mais para nós, que aprendêssemos com nossas diferenças.”

Ao ser perguntado sobre qual a maior contribuição que o indígena dá ao Brasil, ele não hesitou:

“A resposta me parece muito simples: manter-se vivo. Se os indígenas conseguirem resistir a tudo isso, já estarão contribuindo muitíssimo com o Brasil. Ao se manterem vivos, esses povos [250 povos, 180 línguas] vão trazer uma riqueza cultural, espiritual, moral que só bem faz ao país.”

Frente a tudo isso, nós, que somos frutos do paradoxo de ter sangue índio vis a vis um passado de genocídio indígena, em que pé estamos? Assumimos nossa dívida ancestral com eles, ou preferimos continuar (ainda hoje!!!) mostrando-lhes apenas nossa face cruel, injusta e degradante de mestiços que negam o próprio sangue e herança?

 

(Crônica publicada hoje (27/abril/2017) em “O Popular”. Foi escrita e enviada para o jornal na terça-feira, 25 de abril, quando ainda não havia acontecido a repressão aos indígenas que foram entregar suas reivindicações ao Congresso. Por isso não fala das bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e balas de borracha com que eles foram recebidos. 

A espantosa foto aí de cima, de Alberto Villas, foi tomada emprestada de um post do Alexandre Staut.) 

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Que beleza!!! Não deixem de ver.

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Para quem escreve sobre mulher

Deveria ser obrigatório ler a tetralogia napolitana da Elena Ferrante.

Se tem uma coisa que essa escritora vai deixar para quem escreve sobre os problemas mais íntimos da mulher é que, sem um pouco de verdade, não vai funcionar mais.

Boa parte de quem foca nessa grande questão vai ter que mudar de patamar. 

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Depois de um grande desânimo com o que estamos vivendo

Estou começando a animar, tipo esquentando os tamborins, para escrever um novo romance.

Ainda estou na fase da pesquisa, que desta vez começou um tanto fora de foco. Ainda vou continuar nas pesquisas, mas agora, pelo menos, já tenho um fio condutor que me parece mais ou menos sólido.

Coisa boa é isso.

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