JARAGUÁ E GOIÁS EM MINHA LITERATURA


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(…)

Quando íamos de carro de Goiânia para Jaraguá, nos anos 50, meus pais nos bancos da frente, e nós, até então quatro irmãos, empilhados atrás, na viagem longa e cheia de poeira como era na época, minha mãe assim que avistava a serra começava: “Avante, Jaraguá, lendária terra!” E nós, crianças, animados fazíamos o coro atrás: “quanta grandeza o teu futuro encerra/ teu róseo porvir!”

Esses versos são os que abrem o famoso poema de Augusto Rios, o grande poeta jaraguense, e haviam se tornado a senha para no animado ritual de chegada a mais uma temporada feliz entre primos e tios queridos, na casa de minha avó, na cidade que tanto amávamos. 

Eu nasci, mas nunca morei aqui. Fui com poucos meses de idade para Goiânia. Mas os laços de meu pai – que tinha sido prefeito – e de minha mãe – com sua extensa família (os Rios e os Freitas) eram muito fortes e, assim, voltávamos sempre, nos feriados e nas férias.

Quando adolescente, eu já não vinha tanto. E quando fui para Brasília, praticamente não vim mais. Depois viajei muito: passei um tempo em Nova York, outro em Paris, fui morar em São Paulo, depois exilada em Lima, voltei e morei no Rio, e outra vez em São Paulo, onde estou agora. Mas, embora eu sempre tivesse Jaraguá e suas histórias muito vivas em minhas lembranças, e uma relação muito afetiva com meus primos e primas, muitos dos quais moram ou vêm sempre aqui, confesso que tive certa surpresa quando, ao começar a escrever, fui percebendo como ainda era profundamente goiana. Foi quando descobri o impacto que Jaraguá teve em minha vida e minha formação, e como sou apaixonada pelo planalto central, pelo cerrado, pela luminosidade desse céu, suas cores, sua música, paisagem, a vastidão sem limites do horizonte goiano. Esse Goiás está em muitos de meus livros.

Sabemos que a infância é um momento fundador para o que viremos a ser e, no caso do escritor, para muito do que ele vai escrever. Acabei de entregar para uma editora, na quarta-feira, antes de vir pra cá, um livro de pequenos ensaios sobre literatura e o processo de criação, onde eu tento responder “De onde vêm as histórias” que o escritor coloca em seus livros. E o que digo ali, e vou dizer aqui, é que “Em cada livro que um autor escreve, se alguém quiser mesmo saber, vai encontrar sua origem na vida desse autor. Em alguns livros, essa relação é clara; em outros, nem tanto, pois nem mesmo o escritor está de fato consciente de todos os entrecruzamentos que seus caminhos tomam em seu mundo subjetivo. Mas essa relação sempre estará presente, de um jeito ou de outro.”

Porque “a pessoa que escreve é aquele indivíduo específico, com data e local de nascimento, com seu aprendizado, observações e vivências de infância, adolescência, juventude e amadurecimento, com seus traumas, sensações, sentimentos, emoções, temperamento, escolhas, amores, interesses e desejos – tudo, enfim, que forma uma vida. É essa pessoa única e, nesse caso, insubstituível que está em todos os detalhes do livro que escreve: foi ela quem escolheu o tema, os personagens, o local, a trama, e a linguagem.”

Mesmo quando é um livro de muita pesquisa – como foi meu primeiro romance, “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas” –, Goiás está lá, como estão também minhas leituras, meus gostos, desgostos, minhas observações do mundo – pois é disso que um romance é feito, das estradas que seu autor percorre.

Com os infanto-juvenis que escrevo, também, a mesma coisa. Há sempre a mesma relação sutil e mediada entre os temas e questões e situações que não aconteceram exatamente comigo mas têm tudo a ver com minha vida.

E é por isso, sem dúvida, que Jaraguá e Goiás estão presentes em muitos dos livros que escrevi. Meu primeiro romance foi publicado em 2002, e desde então já publiquei 6 romances e 17 livros infanto-juvenis. Participei também de várias coletâneas, e tenho 4 livros no prelo. Eu trouxe alguns exemplares, mas não deu para trazer todos porque alguns estão esgotados. A partir de amanhã eles estarão à disposição na Biblioteca Augusto Rios pois vou deixar lá uma coleção quase completa deles. 

Mas voltando, então, ao momento em que comecei a escrever, e redescobri em minhas lembranças que Jaraguá era a cidade mágica das minhas férias da infância. E digo mágica por que, sem nenhum compromisso com a verdade como é próprio da ficção literária, nas lembranças do meu imaginário, o meu pequeno mundo da Jaraguá daquela época, o meu pequeno mundo de criança que não tinha muita autonomia, era composto por poucas ruas como, em geral, é o mundo infantil. Havia a rua de entrada, onde antes estavam o ginásio e a fábrica de manteiga, e hoje está a escola da minha tia e madrinha, Affonsina de Freitas, a quem devo muitíssimo, inclusive minha alfabetização. A rua Direita, onde ficava a casa da minha avó, Diva de Freitas Rios, e da maioria de meus tios; e a rua De Trás. A continuação da rua de entrada se transformava na rua da família que na época, como em toda cidade de interior que se preza, era politicamente rival da nossa, e terminava na pequena Igreja do Rosário; e a rua da minha vó se estendia para além do largo da igreja, rumo a então chamada Cidade Nova, criada por meu pai quando prefeito.

Nas férias, a casa da minha vó se transformava com a chegada de primos e primas de várias idades, além de tios e tias, e se juntava a outros personagens muito queridos por nós, como Bastiana, a quem chamávamos de U, Barbo, a doce Barbo que felizmente ainda vive, e o violeiro Tião (de tia Mariinha) que sempre passava por lá.

Essa cidade mágica tinha também três rios, que eram os que eu conhecia: o perigoso Rio das Almas cujos redemoinhos afogavam desavisados; o na época desprestigiado Rio Vermelho, que se transformara em rio de quintal; e o Rio da Prata, o mais querido deles, de pedras, poços e pequenas cachoeiras.

Tinha três igrejas – uma antiga e abandonada; outra menos antiga e funcionando, e a matriz inacabada. E tinha Semana Santa, as Folias de Reis, Cavalhadas, rojões, procissões, bandas, quermesses e quarteis nas eleições, a quadra de vôlei, quadrilhas de julho e festas de casamentos, e o bar de tio Salvador, a farmácia de tio Clotário. E os inesquecíveis irmãos da minha avó e os da minha mãe – duas gerações que se foram, e que deixaram grandes saudades.

E tinha, sem sombra de dúvida, os muros e árvores dos quintais, as brincadeiras, o moinho de arroz, os meninos vendendo puxa e cajuzinhos da serra pelas ruas, as revistas e livros da minha prima Marica, o rapé da tia Mariinha, o velho cinema que eu amava de paixão, as boiadas passando no meio da rua, as loucas Sanfona e Maria Come Cabelo. Além das histórias das intrigas políticas e ameaças de morte; as brigas dos jogadores nos bares; os jagunços a cavalo; os casos de assombração. Era um lugar ideal para um escritor nascer.

 Evidentemente, essa é uma cidade que não existe mais. Na verdade, talvez, nunca tenha existido. Porque, como vocês devem saber muito bem, as lembranças que vão ficando em nossas cabeças nem sempre, ou quase nunca, correspondem exatamente à realidade. É próprio de nossa memória enfeitar, embelezar, e escolher guardar o que lhe interessa. O que a vida nos faz ver em outro lugar, de repente se junta ao que estamos rememorando, e vamos compondo dentro de nós mesmos uma narrativa de coisas que, se realmente existiram, não foram exatamente daquele jeito.

Foi isso o que eu fiz, neste meu livro, “Uma cidade de carne e osso”.

Nele, conto várias das histórias que ouvi aqui quando criança, e que emendei com outras, e com outras, e acabaram todas neste livro que se passa, exatamente, aqui em Jaraguá. A cidade de carne e osso do título é Jaraguá. Nesse livro eu conto, por exemplo, a história de Tereza Bicuda que todos conhecem, e várias outras.

Vou ler um pequeno trecho pra vocês. É do conto chamado “O nome do rio das Almas”. Eu começo o conto falando de uma velha que era meio bruxa, mas era uma bruxa do bem e seus feitiços, na verdade, saíam quase todos errados.

“E teve o dia em que ela deu o nome ao Rio das Almas.

Porque até então aquele era um rio sem nome. Era um rio bonito,mas assim meio comum. Tinha suas correntezas, com trechos de redemoinhos, e outros trechos tranquilos, mas nada daquelas grandezas que certos rios têm, de chamar a atenção.

Não.

Sempre foi um rio bonito para quem gosta dele, mas não de atrair grande admiração. Tem uns remansos bonitos cheios de garças, tem outros com umas prainhas engraçadinhas nos tempos da seca, mas isso quase todo rio tem. E suas águas têm aquela cor avermelhada, de aluvião; poucos são os trechos com águasmais escuras ou mais claras, as mais bonitas.

Mas aí acabou acontecendo o que sempre acontece: um foi e pegou gosto por aquela parte do rio que tem um remanso e forma uma prainha; o outro começou a achar bonito aquele trecho da ponte onde o rio faz uma curva; já outro ficou gostando daquele pedaço onde os galhos das árvores da beira se debruçam, quase tocando as águas e formando um poço bom pra nadar e saltar; outro gostou de um trecho mais pra frente que era também o preferido dos peixes.

E assim por diante.

O povo pegou amor pelo seu rio e hoje não o troca por nenhum outro. Nisso, o povo até que é sábio: quase sempre aprende a apreciar o que tem, o que aprende a conhecer melhor, pois parte do amor vem do conhecimento.

Então, aquele ficou sendo um rio querido só que ainda não tinha nome. Era só “o rio”.

A velha passava por lá todo dia e ficava matutando naquilo.

Tudo tem que ter um nome. Até os diabos têm nomes por que ter nome é importante para qualquer coisa: faz parte dela, é como se fosse uma roupa só pra ela, aquele detalhe pequeno que a faz única e sem o qual a coisa ainda não é aquela coisa. Mas tem que ser o nome certo, o nome adequado como a pele que cobre um corpo por inteiro, certinho, sem deixar nada sobrando. Tem que ser um nome próprio, especial. Só depois de ter seu nome é que a coisa, seja qual for, rio, bicho, gente, passa a ser o que é.

De tanto ficar andando pela beira do rio, pensando nisso, a velha descobriu um trecho muito diferente de outros trechos de rio que ela conhecia. Era um poço fundo, de águas limpinhas, e onde, ao entardecer, formava uma fumacinha branca, uma fumacinha estranha pois não dava pra saber ao certo se subia ou se descia, porque parece que era uma fumacinha que fazia as duas coisas ao mesmo tempo, ou eram muitas fumacinhas, e enquanto uma subia, outra descia.

A velha ficou estudando aquilo muito tempo até perceber que eram almas. Aquele era o poço aonde as almas vinham tomar banho.

Na hora que descobriu isso, ela viu também que já sabia qual era o nome daquele rio. E foi mesmo o nome certo porque depois disso ele virou o Rio das Almas e ninguém nunca mais o chamou só de rio.”

                                                            ( “Uma cidade de carne e osso”, p. 75/76.)

 

No primeiríssimo romance que escrevi, “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”, tem um pequeno trecho onde conto uma história que não é daqui mas que escutei aqui. A ideia desse romance nasceu no momento em que se comemorava os quinhentos anos do Descobrimento do Brasil, quando li uma reportagem sobre uma pesquisa feita pelos professores de biologia da Universidade de Minas Gerais, constatando que 2/3 dos brasileiros, isto é, a maioria, são descendentes de índios e negros por parte da mãe. Por parte de pai, vem o sangue europeu. Quer dizer, provavelmente quase todos nós, que estamos nesta sala, temos sangue indígena, negro e europeu em nossas veias.

Achei tudo isso muito interessante, e resolvi contar como poderia ter acontecido uma dessas milhões de histórias de miscigenação a partir de uma primeira mãe, uma indiazinha tupiniquim, que nasce justamente no dia do descobrimento, e depois tem uma filha com um marujo português. E pelo livro afora vou contando a saga das primeiras filhas das descendentes dessa indiazinha e do português, até chegar ao ano 2000.

Nesse romance, aparecem muitos detalhes que remetem à Jaraguá, mas tem um trecho maior que é de um fato que minha avó e minha tia Ieda escreveu um relato a respeito, aconteceu em alguma fazenda perto daqui.  

“O dia amanheceu em um silêncio tenso e carregado de ameaças. Podia-se sentir uma densidade nova no ar, a massa quente se condensando em volta de um núcleo de perigo e maldade que pairava quieto e pesado sobre eles. Os animais, numa quietude também fora do comum, postavam-se rígidos, os sentidos afiados em alerta.

Jacira mandou um grupo de escravos reforçar as portas e janelas com trancas de madeira. Outro grupo, que cuidasse para os animais não se dispersarem. E um terceiro, que procurasse todo tipo de pau e pedra e o que mais fosse que pudesse ter alguma serventia como arma e trouxesse tudo para a casa. E as negras que continuassem os afazeres domésticos na cozinha.

Foi no começo da tarde que o grupo que cuidava dos animais veio em pânico dar o alarme. Tinham visto índios com flechas se movendo perto do bambuzal. Jacira ordenou que imediatamente tocassem o sino convocando todos para dentro da casa. Em poucos minutos, escravos chegaram correndo dos quatro cantos do quintal e flechas começaram a atingir a varanda da casa, como se fizessem parte da coreografia da correria. As portas e janelas foram rapidamente trancadas e dos dois buracos para garrucha na porta da frente e dos fundos Jacira ordenou que atirassem, mas que mirassem bem, pois a munição era pouca e não podia ser desperdiçada. 

De uma coisa ela estava certa: os índios não eram superiores em número. Sabia que nas aldeias da região havia mais mulheres e crianças do que homens. E, com certeza, as mulheres não estariam nessa linha de combate. Ali, fechada dentro da casa, Jacira não podia calcular ao certo, mas pelos gritos e pelo relance da vista ao ver o grupo de ataque se aproximar quando fechavam a última janela, podia garantir que não seriam mais de duas dúzias. Já do seu lado, eram vinte escravos homens e cinco mulheres, pois para a defesa podia contar também com elas. Mandaria uma delas ficar com as crianças no quarto grande do meio, sem janelas, e as outras ficariam ali para ajudar no que desse. O capitão não demoraria, e o que ela precisava fazer era resistir até sua chegada com mais homens e mais armas.

Os gritos estridentes dos selvagens, os golpes dos tacapes forcejando portas e janelas, o pânico e o desespero nos olhos dos escravos só eram interrompidos pelos tiros da garrucha que na verdade não estavam sendo de muita serventia, a não ser para assustar. O grupo dos atacantes já estava muito encostado nas paredes, fora do alcance da linha de fogo, a não ser quando passavam diretamente debaixo do buraco das portas por onde saíam as balas.

A calma de Jacira era admirável, embora ela soubesse bem que não agüentariam muito tempo assim. Foi quando seus olhos passaram pelo fogão e uma idéia simples lhe ocorreu ao ver o grande tacho de cobre, esquecido sobre a trempe.

“Aticem o fogo do sabão”, ordenou rápido a duas de suas negras mais expeditas e em poucos minutos o fogo crepitou fazendo as bolhas do sabão começarem a espocar no tacho, qual boca incandescente de um pequenino vulcão em erupção.

“Agora, vamos”, disse, “encham as conchas com cuidado e joguem nos índios pelas frestas das portas e das janelas. E você dois”, continuou, “prestem muita atenção e, quando sentirem que eles estão bem perto, abram rápido a portinhola enquanto vocês duas, uma de cada lado, jogam duas frigideiradas cheias direto na cara deles.”

Imediatamente, às colheradas e com as frigideiras, as negras passaram a despejar a gosma fervente nos índios que se aproximavam do vão das portas e das janelas, seguindo a ordem de Jacira. “Mirem nos olhos ou nas mãos. Não desperdicem a lava quente com outras partes do corpo.”

Os uivos de dor e surpresa que começaram a ouvir do lado de fora encheram a casa de entusiasmo. Logo todos perceberam que essa tática fora dos cânones de qualquer guerra conseguiria impedir a invasão da casa até a chegada do capitão com armas e munição.

E então, com sua calma extraordinária e um sorrisinho de triunfo nos lábios, Jacira se sentou em sua cadeira no meio da sala e ficou apreciando o estranho mas vitorioso combate.”

  (“A mãe da mãe…” p. 185-187)

 

 Em outro dos meus livros para jovens, “Malcriadas”, a história se passa em uma cidade – da qual não digo o nome – mas que na minha cabeça é Jaraguá. A história é sobre uma mãe solteira em uma pequena cidade de interior, aí pelos anos 70.  É sua neta, de 13 anos, que escreve a história que a mãe contou, em cartas para uma grande amiga. Vejam se vocês reconhecem esse rio:

“….. (ela) quis ver a tal «prainha» do Rio Azulão, onde seus pais namoravam. Não existia mais. Nas margens do rio, no lugar das árvores, havia casas. Pequenas, quase emendadas umas nas outras. Já nem dava para saber com certeza por onde passava antes o leito agora ralo do rio. Sempre fora um rio pequeno, de muitas pedras e alguns poços, mas agora virara quase uma enxurrada, que de azul não tinha mais nada. “

Há ainda dois romances em que não entra exatamente Jaraguá mas Goiás Velho.

Um é “O Fantasma de Luís Buñuel”, que foi adotado duas vezes no vestibular da UFG, e infelizmente está esgotado, por isso não tenho nenhum exemplar aqui nem para mostrar. Na verdade, hoje ele está à venda como livro digital – não sei se alguém aqui tem algum leitor de livros digitais. Nele eu conto a história de cinco jovens estudantes da Universidade de Brasília no final dos anos 60, os anos da ditatura civil-militar que tantos danos fez ao nosso país. Uma dessas jovens é de Goiás Velho, então tem algumas cenas que acontecem lá.

Já no outro romance, “Guerra no Coração do Cerrado”, eu conto uma versão – a minha versão – da história de Damiana da Cunha. Provavelmente muitos de vocês já ouviram falar dessa índia panará/caiapó que foi criada por um governador de Goiás, nos tempos do Brasil colônia. Eu quis escrever a história dela depois de uma conversa com a antropóloga da família, Dulce Pedroso, que me contou como Damiana se despia de suas roupas de branca para entrar pelas matas e convencer seus irmãos indígenas a se converter ao catolicismo. Foi uma época de muita crueldade e injustiça para com esses primeiros brasileiros que habitavam essas terras, os caiapós, e Damiana, com as boas intenções de que o inferno é feito, acabou participando sem querer da dizimação de que seu povo foi vítima.

Eu procurei entender porque ela fez o que fez, e termino dando a ela um destino que não é o oficial. Essa é uma das belezas da literatura: ela nos permite escrever não apenas o que de fato aconteceu – e que poucas vezes alguém sabe direito – mas o que poderia de alguma forma ter acontecido. E assim nos permite refletir melhor sobre vários problemas. No caso desse meu romance, o que pretendi mostrar foi, justamente, como poderiam ter sido nossos antepassados indígenas.

 

“Pela noite adentro, os dois conversam e chegam a uma decisão. Não deixarão o povo da Cidade de Goiás saber da fuga de Damiana.

Dirão que ela morreu.

(…)

Animados, traçam um plano e um emissário de confiança de Dom Nonato parte a galope para Vila Boa, para informar ao governador.

Dois dias depois, na madrugadinha friorenta, o fazendeiro, o padre e o soldado Manuel da Cruz deixam a fazenda, rumo à Cidade de Goiás.

À frente deles, seguem dois empregados de confiança de Dom Nonato, carregando o caixão feito às pressas pelo velho faz-tudo da fazenda, e dentro do qual colocaram um saco cheio de terra para dar o peso de um corpo feminino.

No meio da tarde, o cortejo aproxima-se da cidade.

Um ventinho fraco começa a soprar atrás deles.

Quando aparecem na boca da grande praça, o vento está mais forte e levanta uma grande poeira vermelha.  

Estranho, pensa um velho morador à janela de uma das casas do largo, ao ver o pequeno grupo entrar na praça, levando o caixão. Eles vêm acompanhados pela nuvem vermelha que o vento levanta atrás e vai cobrindo toda a entrada da cidade. É uma nuvem parecida com aquela que os guerreiros cayapós levantaram na manhã que aqui entraram pela primeira vez, relembra o velho:

– Mas onde estão os índios?

Olha para o outro lado e vê o governador, lento, subindo a pequena inclinação da praça para recebê-los. Está com seu uniforme de gala, cercado pelas poucas autoridades que convocou para acompanhar a cerimônia do funeral.

O rufar de dois tambores em surdina tocando fúnebres acompanha-os e desperta a cidade de sua letargia.

A pequena comitiva encontra o caixão na praça.

Há salvas de canhão – do mesmo velho canhão de mais de cinquenta anos atrás. Os sinos começam a tocar – não os das sete igrejas da cidade, só os da matriz, convocando para a missa de Réquiem.

Alguns moradores dirigem-se para a praça e, curiosos, se perguntam de quem é o cortejo fúnebre e o sepultamento. Por que a farda de gala do governador e das autoridades?

É quando da poeira vermelha na boca da grande praça começa a surgir um redemoinho. Poeira levantando poeira que vem girando em seu próprio eixo, puxando e erguendo o que está no chão e em volta. E como se tivesse livre arbítrio e moto próprio, vai formando um assombrado redemoinho que, impetuoso e voraz, levanta pó, folha, grama e lixo, leva pedras, ramos, gravetos e pedregulhos, arrasta passados e futuros, mistura tudo, memórias, temores e esperanças, e cresce, girando poderoso e veloz, até engolir a praça.

Há um susto, de repente, um temor espantado, algo que diz respeito a alguma coisa em cada um deles. Alguma coisa vaga: um medo, um ódio. Talvez, uma vergonha.

Os que estão dentro das casas, correm e fecham portas e janelas.

Os que estavam fora, na praça, correm à procura de abrigo, e entram na igreja que permaneceu aberta. Aglomeram-se ali e a igreja acaba cheia.

Só de brancos.

E são eles que ajudam a sepultar o caixão.”

                                                               (“Guerra no Coração do Cerrado”, pp 253-254)

 

Para terminar, ainda gostaria de dizer que embora eu tenha dedicado um dos meus primeiros livros juvenis às histórias que ouvi aqui, ainda poderia contar muito mais sobre o que vivi nesta cidade e o efeito mágico que ela tem em minha imaginação. Pois as coisas mágicas são inesgotáveis como as histórias: é só ir contando e inventando. Como a vida no mundo, não tem fim.

(Trechos da palestra feita no campus da UEG de Jaraguá, em 9 de maio de 2014)

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5 respostas a JARAGUÁ E GOIÁS EM MINHA LITERATURA

  1. Caio Bravo disse:

    Gosto bastante de suas crônicas e histórias, sempre as leio no jornal. Parabenizo a Srª por falar tão bem de nossa cidade, a “Velha Jaraguá-GO”, que este ano, em 2014, completa 278 anos de história. Aqui, como toda cidade histórica, sofre com a questão do Patrimônio Histórico e a cada dia vemos nossos casarões ruírem tombados pelas intempéries do tempo…ainda bem que nossas lendas, histórias e tradições são algo imaterial, pois assim poderão vagar ainda por muito tempo na memória daqueles que virão. Grande Abraço, sou seu fã!

  2. Muito legal. Adorei a viagem … rs . Espero que aprecie meu blog, onde procuro divulgar e vivenciar a literatura … TUdo de bom

  3. Yuri Baiocchi disse:

    Só agora li Zezé. Foi bom te conhecer, tenho notícias sobre a Biblioteca.

    Abraço,

    Yuri Baiocchi.

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