Contos


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A VERDADEIRA HISTÓRIA DA MULA-SEM-CABEÇA

Pode ser que eu esteja enganada, mas você morre de medo da mula-sem-cabeça, não?
Morre de medo de uma coisa que nunca viu e só sabe de ouvir falar.
Convenhamos, é meio estranho.
É verdade que os maiores medos que sentimos são justamente de coisas que nunca vimos e só conhecemos de ouvir falar.
Mas no caso da pobre mula-sem-cabeça, isso é uma grande injustiça.
Primeiro, porque essa mula-sem-cabeça de meter medo que sai furiosa por aí como as pessoas contam não existe.
Pelo menos, não desse jeito. A mula-sem-cabeça que existe é outra.
Pra começar, não é brava.
E se sai correndo desenfreada à noite, lançando fogo pelo buraco que tem onde devia ter a cabeça, quero ver se você não faria o mesmo se um fogo desesperador lhe saísse de dentro, irrompendo por suas ventas.
Não sairia também correndo enlouquecido sem ver por onde?
Claro que sairia.
Qualquer um sairia.
Eu também. Sairia correndo desabalada com uma dor dessas.
Evidente.
E isso é tudo que a pobre mula-sem-cabeça faz: corre como louca. Ninguém jamais disse outra coisa da pobre. Ninguém jamais disse que ela alguma vez comeu, matou, seqüestrou alguém, disse?
Não.
O máximo que puderam dizer foi que ela queima tudo por onde passa: plantação, casa, folha, o que tiver na sua frente.
Mas diga quem não queimaria se tivesse uma tocha de fogo saindo de dentro si? E como é que ela vai ver por onde corre? Se não tem cabeça, como teria olhos? Faça-me o favor.
Agora, diga: é culpa dela?
De jeito nenhum.
Ninguém tem culpa de seus sofrimentos.
Você tem culpa quando tem dor de cabeça? Dor de dente? (Bom, dor de dente não vale porque sei lá se você não teve preguiça de escovar os dentes, esquece.) Mas dor de barriga? (Bom. Essa também não vale, porque pode ser que você tenha comido o que não devia, ou exagerado.) Mas você tem culpa se tem dor na nuca? Dor no peito?
Não. Pois é a mesma coisa.
A mula também não tem.
Dor é dor.
E quando é uma dor assim lancinante, sai de baixo! Se nem gritar a coitada pode, já que não tem boca, como vai conseguir ficar parada, esperando o fogo apagar?
Só se ela fosse mágica.
Por isso é que eu digo que poucos sabem realmente quem é a pobre mula. E o tititi milenar diz que.
1. Ela tem cascos de prata. (O que é certo.)
2. Seu relincho é altíssimo e espantoso, um misto de som animal e lamento humano. (O que também é certo e a parte do lamento humano é de uma tristeza de cortar o coração.)
3. Virou mula porque era uma moça apaixonada pelo padre da cidade. (Errado. Isso foi uma invenção de séculos atrás, quando as pessoas tentavam explicar o mundo dividindo-o em dois lados: o dos pecadores e o dos inocentes.)
4. Que virou mula porque era uma rainha que gostava de comer carne de criancinha enterrada no cemitério. (Outra vez, errado.)

Mas explicarei esse quarto ponto melhor porque ele foi o começo de tudo.

De fato, a mula-sem-cabeça era uma rainha.
Não era jovem – em geral, as princesas é que são jovens, as rainhas, não – mas era ainda bela e muito triste. Havia perdido seus três filhos. Todos mortos quando criancinhas. Todos envenenados pelo rei que não queria herdeiros. Um rei cruel, horrível, chato, e absurdamente ignorante: acreditava que, se não tivesse herdeiros, seria imortal.
Já a rainha, bem ao contrário, era uma pessoa demasiado boa, daquele tipo incapaz de ter sequer pensamentos que pudessem ferir alguém. Incapaz, portanto, de tomar uma atitude para se libertar de tudo aquilo e começar vida nova.
Vivia resignada com sua triste vida de rainha, fazendo bondades daqui e dali, com suas mãos cobertas de anéis enormes pois assim devem ser as mãos das rainhas. Usava um anel de brilhantes, de seu casamento com o rei; um anel de rubi cor de sangue, pelo nascimento de sua primeira filha; uma safira azul do céu, pelo nascimento de seu filho; e outro de esmeralda verde mar, pelo nascimento de sua caçula. Isso na mão direita. Na mão esquerda usava três anéis de pérolas negras, cada um pela morte de um dos filhos.
Mas quase não saía. Vivia dentro do palácio ou nos bairros pobres. E só ia às festas e bailes quando obrigada.
Mesmo assim, o rei estava de olho nela.
Não acreditava em tanta bondade e achava que a esposa sabia demais, o que representava uma ameaça para ele. Melhor também eliminá-la de uma vez.
Cogitou primeiro em matá-la, simplesmente. Com veneno, que é prático e eficaz.
Mas como era uma rainha queridíssima por todos – em geral são queridas as pessoas boas – ele considerou que a morte poderia transformá-la em mártir, ou santa, e seus inimigos poderiam se aproveitar disso para ameaçá-lo. (Esse rei passava o dia todo assim, pensando em quem iria ameaçar ou em quem poderia, por sua vez, ameaçá-lo. Que vida!)
E de tanto pensar, arquitetou um plano.
Encomendou ao feiticeiro do reino, muito seu puxa-saco, que lhe fizesse um feitiço espantoso, desses que dessem o que falar e durassem séculos.
O feiticeiro inventou o pó da mula-sem-cabeça.
Um dia, então, quando a rainha foi ao cemitério visitar o túmulo dos três filhos, ele armou sua armadilha, e criou a sórdida versão. Como dominava a imprensa oral, escrita, e televisionada, foi fácil para ele divulgá-la aos quatro ventos. Antes mesmo de ir atrás da rainha no cemitério, sua assessoria de imprensa já havia enviado seu comunicado a todos, dizendo que:
“Como os súditos deste reino sabem, nossa rainha tem a mania de ir certas noites ao cemitério, sem permitir que ninguém a acompanhe. Para o bem de todos e felicidade geral da nação, o rei decidiu, ontem, seguir secretamente sua mulher e encontrou-a debruçada sobre uma cova que abrira com as próprias mãos reconhecidamente cheias de anéis, devorando o cadáver de uma criança, enterrada na véspera. O rei soltou um berro horrível, e quando a rainha viu que fora pega em flagrante, soltou um berro mais terrível ainda, se transformando em um monstro novo e pavoroso que deverá para sempre ser chamado de Mula-Sem-Cabeça.”
O que o desalmado rei não contara, ao redigir sua versão e mandar propagá-la, foi que o sofrimento inenarrável que iria impingir para sempre à rainha, teria também um efeito sobre ele.
Ao jogar o pó sobre sua esposa debruçada sobre o túmulo dos filhos, ele ficou ali de pé observando a espantosa transformação que causara. E tão extasiado estava que demorou alguns minutos para sair do rumo da mula de cabeça incendiada, transformando-se, assim, em sua primeira e única vítima conhecida.
Dizem que é daí que vem aquele antigo ditado, “Quem com ferro fere, com ferro será ferido.”
Se alguma vez, portanto, você – mesmo sem querer – se deparar com a pobre mula, apenas saia do seu rumo.
E pense duas vezes antes de criticá-la.

Fim

CARTA A UM CERTO AUTOR

Ao Sr.
Hans Christian Andersen
Ilmo.Escritor

Caro senhor:

Embora sendo quem o senhor hoje é – famoso, além de humano – quero crer que não tomará esta carta de maneira leviana. Escrevo-a usando minhas prerrogativas de personagem e não na condição de rainha – o que poderia ter feito, mas não fiz, para que não me acusem de fazer valer nenhum princípio de autoridade.
São meus direitos de personagem que gostaria de abordar aqui, esperando contar com sua sensível compreensão. O mundo ficcional nem sempre permanece totalmente sob o controle de um criador – como o senhor deve saber bem – e é o que parece ser outra vez o caso.
Quero crer, igualmente que, como autor, o senhor esteja preparado para receber tanto elogios quanto restrições a sua obra, venham de plebeus ou majestades.
Começarei com os elogios.
Não são muitos.
Terminada a leitura de seu conto sobre o meu reino e uma de minhas adoráveis netas, ao qual o senhor deu o título de “A Pequena Sereia”, devo, por justiça, reconhecer o bom trabalho que o senhor fez em relação a alguns pontos.
Sua descrição, por exemplo, de algumas características do mundo marítimo é, embora parcial, acurada. Gostei particularmente do relato sobre as belezas do meu castelo, ainda que não possa deixar de lamentar a falta de ênfase ao descrever nosso famoso telhado de ostras, uma reconhecida obra de arte arquitetônica revolucionária, da qual tenho muito orgulho porque foi especialmente encomendada por mim a meu falecido pai.
Reputo também como muito feliz a comparação feita entre os peixes do mundo do mar e os pássaros de suas florestas da terra. Foi bastante perspicaz de sua parte colocar assim a questão, tornando compreensível para seu leitor o papel que os peixes representam no fundo dos oceanos.
Parabéns.
Outrossim, apreciei bastante a descrição da beleza de minhas netas. O senhor empregou palavras justas.
Lamentavelmente, porém, não posso dizer o mesmo da maneira como trata outros personagens, supostamente secundários, como eu. Não posso deixar de dizer que me senti profundamente injustiçada em seu livro. Como rainha e como personagem.
Senão, vejamos.
Para começar, uma impropriedade que, numa primeira leitura, encarei apenas como defeito de estilo. Ao longo de texto, porém, constatei que, além de ser uma completa inadequação, é também sintoma de sua incapacidade de compreender minha real figura e meu papel. Aludo ao epíteto de “velha”, que o senhor coloca sempre antes dos meus títulos ou atributos, quando a mim se refere.
Marquei todas as vezes – e são muitas. Por todo o livro, o senhor só se refere a minha real figura como: a velha rainha, a velha viúva, a velha rainha viúva, a velha avó, a velha mãe do rei, a velha sereia.
Por meus sais! Permita-me lhe perguntar, senhor, qual é seu propósito?
Esse estilo repetitivo e sem originalidade visa exatamente a quê?
Logo o senhor que já havia compreendido perfeitamente bem a extensão peculiar do tempo médio de vida no mar, bastante diferente do tempo de vida na terra. Nosso tempo médio de vida é, como o senhor bem colocou, de 300 anos, razoavelmente mais do que o de vocês. Portanto, como ser chamada de “velha” – e reiteradamente como se fosse quase um apodo natural a ser acoplado a meu nome –, se estou no pleno auge de minha exuberância de sereia?
Ser avó, no meu reino, permita-me que lhe diga, senhor escritor, é uma honra! Principalmente em casos como o meu, que fui avó muito jovem. Ainda hoje tem muita gente que, ao ver minhas adoráveis netas, não esconde sua admiração:
“Netas?! Parecem mais suas filhas!”
Se o senhor tivesse pesquisado melhor, saberia.
Se tivesse pesquisado melhor, inclusive, ouso dizer que provavelmente teria mudado o foco de sua história. Essa história que o senhor se deu ao trabalho de contar, convenhamos, não passa de mais uma versão do batido tema do amor rejeitado. Quem, hoje, já não está cansado desse tipo de história? Quem não está enjoado de ver mais uma adolescente irresponsável e masoquista trocando tudo que tem por um idealizado amor romântico? Quem quer ouvir tudo isso se sabe que, no final, a mocinha inocente será deixada por outra?
Por meus sais!
Sei, sei o que o senhor vai dizer! Que não é sua culpa se esse é um arquétipo da adolescência: o frenesi pela busca da identidade própria, o abandono da família, a rebeldia, a idealização do amor etc.etc. Admito tudo isso. Mas achar que valia a pena contar para posteridade a tolice de minha neta em entregar para a velha bruxa – essa, sim, realmente uma velha, diga-se de passagem, senhor autor – o que tinha de realmente excepcional, sua voz, e concordar em ficar muda? E, além disso, aceitar passar a vida pisando em lâminas afiadas? O que tem de edificante nesse exemplo da única desmiolada da família que só nos deu dissabores?
Por meus sais!
Se o senhor pesquisasse mais, como soem fazer, por exemplo – não precisamos ir longe – os bardos ingleses, teria percebido que debaixo de seu nariz havia outra trama se passando. Uma trama que, sem falsa modéstia, reputo muito mais interessante e pertinente. A trama que realmente conta: a de quem conquista e mantém o poder. O trono.
O senhor não vive na Dinamarca? Não sabe quando um reino tem algo de podre?
Que reino, aliás, não tem algo de podre?
Pois o nosso também tem, e isso o senhor deixou passar. Nem sequer percebeu. Se percebeu, não mencionou. Sequer se interessou pela minha história, minha vida, meus sofrimentos. Não! O senhor não viu em mim o poder, só viu em mim uma velha!
Ó cego!
Sei que agora já não é possível mudar a trama de seu livro, mas vou lhe contar um pequeno resumo da minha vida, para que o senhor tenha um gostinho do que perdeu.
Saiba, senhor escritor: não nasci rainha.
Venho de uma família de sereias muito pobres.
Há uma parte do meu reino que o senhor possivelmente não conhece – e que isso, por favor, fique entre nós; realmente não há razão para que o público estrangeiro conheça nossas contradições internas. Só lhe conto essa parte para que entenda a via-crúcis pela qual passei.
Nasci numa periferia de favelas e bairros populares. Meu pai era um trabalhador especializado em lapidação de ostras. Um artista em seu tempo. Sábio e ambicioso, soube me preparar para o mundo.
Desde pequena, e sem falsa modéstia – a falsa modéstia não me trouxe aonde cheguei – minha beleza e inteligência eram dignas de atenção. Fui, e ainda sou – como já disse a falsa modéstia etc. etc. … – belíssima. Nenhuma das minhas netas chegou sequer aos meus pés. Minha fama atraía admiração e, conseqüentemente, inveja. Passei – e ainda passo – meus dias administrando essas duas pontas do mesmo iceberg.
Naquele tempo, o reino era governado pela rainha que me antecedeu – essa também outra que poderia verdadeiramente ser chamada de velha, senhor escritor.
Seu filho, o príncipe, se apaixonou por mim. Foi uma paixão recíproca e verdadeira, mas creio que podemos pular essa parte; sabemos como são cansativas e parecidas as histórias da descoberta do amor. Basta dizer que a Rainha foi contra. Não queria admitir que o filho se casasse com uma plebéia, menos ainda uma plebéia preparada e inteligente. Uma plebéia que poderia se contrapor a ela. Uma plebéia que poria em xeque seus planos de controlar o filho, quando se tornasse rei.
Mandou seus lacaios me seqüestrarem.
Passei quase dois anos prisioneira em uma caverna, sem ver os raios do sol atravessando as profundezas das águas. Tampouco os raios da lua. Muito menos os das estrelas. Nenhum raio, portanto. Nenhuma luz, a não ser o candeeiro de peixe-elétrico.
Tinha por companhia apenas uma lula – essa, apesar de muito querida, também velha, senhor escritor; sei reconhecer uma pessoa velha.
Com fina astúcia – cujos detalhes também podemos pular, pois encompridaria muito essa carta – consegui enviar uma mensagem ao príncipe que percorria o reino a minha procura.
Como parte de sua estratégia, a velha mãe espalhara que eu havia morrido nas mãos de um tubarão feroz, atacado pela raiva – uma enfermidade que também acomete os seres marítimos. Meu príncipe não acreditou. Estava apaixonado, mas não era tolo. Percebeu a armação da velha mãe. Como era um bom filho, no entanto – e um pouco covarde, coisa que só vim a descobrir com o tempo – não se sentiu capaz de obrigá-la a confessar seu crime e revelar onde eu estava.
Em sua peregrinação de quase dois anos pelo meu paradeiro, meu belo príncipe passou por momentos tenebrosos – o que também podemos pular. Basta dizer que ele foi parar na gruta da Bruxa Má dos Mares Revoltos, sem saber que ela era mais uma aliada da velha Rainha. Ninguém suspeitava que a baixeza de minha futura sogra pudesse chegar a tanto. Mas chegou. Só que a Bruxa era o pior tipo de aliado, daqueles que não merecem a confiança de ninguém e trocam de lado por qualquer mínima vantagem. Portanto, em vez de enganar ainda mais meu belo príncipe, ela o ajudou – só que podemos pular isso também, pois envolve negociações chatíssimas. Basta dizer que depois de tudo, ele me libertou.
Mas não: não fomos felizes para sempre. Isso o senhor, com sua experiência de escritor, deve saber perfeitamente bem: ninguém é feliz para sempre.
Tivemos nossos bons momentos, claro, com champanhe geladinha e caviar dourado (o mais raro e delicioso, não sei se o senhor já experimentou), cafuné e longos tatibitates ao pôr do sol. Com muito empenho, consegui que meu príncipe banisse a velha rainha para sua casa de inverno. Ela certamente merecia um castigo maior, mas já estava se aproximando dos 300 anos – entende o que quero dizer, senhor? Não representava grandes riscos.
Tivemos também nossos momentos ruins, enfrentando as intrigas e baixezas de praxe em qualquer corte, com os correspondentes banimentos, execuções e suores noturnos. Muitos suores noturnos, dito seja de passagem. Dos dois tipos: os bons e os ruins. Podemos também pular essa parte.
Basta dizer que só tive um filho, esse que o senhor conheceu – o pai das minhas netas – e ao qual também não faz jus em seu conto, permita que lhe diga. Quando assumiu o trono, depois da desventura ocorrida com seu pai, foi ele quem modernizou o reino, ampliando suas fronteiras e potencializando suas riquezas. Sempre fomos muito unidos e, sem falsa modéstia – que a falsa modéstia etc.etc. – meu filho acatava meus conselhos. Seus feitos mereceriam uma carta à parte – por isso, vamos pulá-los também.
Recentemente, no entanto, meu dileto filho e poderoso rei está passando por uma fase delicada. Começou a ser assombrado por fantasmas que, temo, estejam colocando minhocas em sua cabeça.
O senhor sabe com que facilidade isso ocorre.
Minhocas e fuxicos horríveis. Referem-se – imagine! – à desventura vivida por seu pai. Insinuam – veja o senhor! – que a lança que feriu o velho rei na batalha – me esqueci de dizer que casei muito jovem, quase uma menina, e o rei, meu dileto esposo, era bem mais velho do que eu – não pertencia ao exército inimigo e sim a um traidor de sua própria escolta.
O senhor sabe também que esse tipo de rumor escabroso é que faz a vida de uma corte, certo? Portanto, podemos pular essa parte. Basta dizer que meus cabelos de sereia, por exemplo, que em seu livro o senhor diz que perdi devido à tristeza causada pela desmiolada da minha neta mais nova – errado! Imagine se os perderia pelas leviandades de uma jovem inconseqüente! Vê-se que o senhor realmente não me conhece! Esses cabelos – cuja beleza é lendária no meu reino – só comecei a perdê-los recentemente, devido a problemas relacionados ao exercício do poder e à administração dessas horrorosas fofocas fantasmagóricas cochichadas aos ouvidos do meu filho que, de uns tempos pra cá, incompreensivelmente passou a me evitar.
Não é fácil ser rainha.
Mas como disse no começo, só estou fazendo um resumo de minha vida. Uma sinopse – como se diz modernamente. Apenas para lhe dar um gostinho da história que perdeu. Uma pequena isca.
Sei que é assim que funciona um escritor: como um peixe.
Sabedor de tudo isso agora, quero crer que o senhor entenderá por fim meu inconformismo ao ver que no seu conto mal apareço.
Por isso, venho – não com autoridade de rainha, repito, mas como prerrogativa de uma personagem injustamente tratada – pedir que o senhor faça algum tipo de retificação nas próximas edições de seu livro.
Temo que, apesar dos toscos erros que ostenta, ele corra o risco de se tornar mundialmente conhecido: o ser humano adora esse tipo de historinha arquetípica e humor duvidoso no qual o senhor se especializou.
Mas se não puder mudar toda a história – o que suponho já compreendeu que seria o melhor a fazer – espero que pelo menos tire do meu nome aquele detestável e inadequado epíteto com o qual não quero – e não mereço – ficar para a posteridade.
Pelo menos isso.

Com meu real empenho,

A rainha do mar

Nota do editor: Quando essa carta foi encontrada dentro de uma garrafa encalhada numa praia isolada da Dinamarca, o Sr. Hans Christian Andersen estava há muitos anos falecido. A carta se encontra hoje em seu espólio, etiquetada como documento número 333300-7, de autenticidade contestada. Considera-se que o Selo Real encontra-se muito danificado pela umidade, o que não permite uma avaliação definitiva de sua procedência original.

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Meu “Pinheiro Branco”
Maria José Silveira

Felicidade: vou lhe contar uma história. Uma história sua, menina, de quando você nasceu e recebeu esse nome tão diferente de seus irmãos.
O primeiro que nasceu ia receber o nome de Augusto, mas era 25 de dezembro e sua mãe declarou, daquele jeito que tem pra falar comigo, revirando qualquer palavra pra torná-la um carinho: “Se nosso nenê escolheu esse dia pra nascer, por algo será, meu Estrupício. Vamos lhe dar o nome de Natal.” Com a segunda, Natália, foi a mesma coisa. Nascida no dia 25 de dezembro, dois exatos anos depois. “Quer dia mais bonito pra nossa filha nascer, meu Ypsílon!” Não sei como sua mãe contava suas datas mas não errava: de dois em dois anos, na noite de 24 de dezembro, lá íamos nós pra maternidade e o bebê nascia na manhã seguinte, de parto natural. Dessa vez, até que achei bonito quando ela disse: “Natal e Natália, nosso parzinho de filhotes, meu Enxame de Abelhas!”
Dois anos depois, Noel; outros dois, Noélia. Quando eu lhe dizia que nem parecia a mesma mulher que vivia com seus “meu Nucumpativo”, meu “Diabinho a Quatro”, meu “Martelo dos Deuses”, meu qualquer coisa que lhe ocorresse pra me chamar. Na hora de dar nome aos filhos, sua imaginação parecia colapsar. Ela sorria, “O que posso fazer, meu Armário Embutido?” E embora jurasse que não era de propósito, dava esse jeito de parir sempre no mesmo dia. Anos a fio.
Quando veio o Natalino, pensei em rebelião. Mas ela quase morreu daquela vez, e de olhinhos febris, pediu, “É minha última vontade, meu Colapso Nervoso.” E ficou Natalício. Dois anos depois, Natalino. A essa altura, eu já estava como que enfeitiçado, pedindo ao médico que me explicasse como é que ela estabelecia a data do nascimento dos filhos só pra lhes dar esses nomes, e ele ria. “Coincidência pura”, dizia. Pois sim.
No sétimo, achei que ela não conseguiria. Mas conseguiu, e lá fui eu acabrunhado registrar Natividade. A essa altura, eu já havia esmorecido e daria qualquer nome que ela quisesse. Bastava que me chamasse de “meu Terreno Baldio’, meu “Lusco-fusco”, meu “Milharal”, que eu fazia o que ela pedisse.
Então, veio a oitava gravidez, a sua. Outra vez ela passou mal e o médico avisou, “Vamos ter que ligar essas trompas.” Deu uma piscadela pra mim, “O senhor não terá mais esses natalícios em casa.” E foi então que, vendo sua carreira de natais na maternidade se encerrar ali, ela me disse, “Está bem, meu Sapatinho na Janela, dessa vez escolha você o nome.”

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PORQUE HOJE É SÁBADO

Para Rita Sipahi

Eles chegaram quando estávamos vendo desenho animado na televisão. Eu e meu irmão – eu com 6 anos; meu irmão, com 4. Fui abrir a porta e três ou cinco homens, não sei bem quantos, perguntaram, Onde estão seus pais? Eu disse que não sabia, eles não estavam, talvez tivessem ido visitar meu tio; meu tio morava ali perto. Naquela época, nossa casa era grande, com um quintal enorme – quer dizer, na minha lembrança parece que era enorme, mas não posso dizer ao certo. Nunca mais voltei lá, e as lembranças que restaram estão esmaecidas, borradas, misturadas umas nas outras. Sei que tinha árvores com frutas, goiabeiras e duas mangueiras. Uma de manga rosa, manga que fica de um lindo vermelho sangüíneo quando amadurece. E a outra, de manga comum, que minha mãe me ensinou a comer ainda verde com sal. Era minha mãe quem trepava na mangueira para pegar as mangas, e comia com a gente. Acho que ela gostava até mais do que nós. E também fazia doce com as goiabas do quintal. Minha mãe, meu irmão e eu, nós três catávamos goiabas, mas só as goiabas vermelhas, as brancas não serviam pra fazer doce. Ela descascava as goiabas e eu e meu irmão íamos tirando as sementes, uma a uma, com colher. Minha mãe colocava tudo numa panela com açúcar por cima e mexia, mexia, até ficar uma calda bem vermelha, espessa, que depois deslizava da concha sobre o sorvete de creme branco. A calda escorria vermelha e se misturava com o branco cremoso, deixando poças rosadas no fundo da taça. Minha sobremesa preferida. Principalmente quando minha mãe enchia a taça e me deixava terminá-la sentada em frente à televisão. A primeira coisa que eles fizeram, assim que entraram, foi desligar a televisão. Uma televisão pequena, imagens em preto e branco; TV a cores ainda não era comum. Então, andaram pela casa toda, pegando coisas, e nos fizeram entrar num carro enorme que eu nunca tinha visto antes. Depois fiquei sabendo que era um camburão. Meu irmão, eu e minha tia, que estava passando uns tempos conosco e estava grávida. Ela repetia, Eu estou grávida, cuidado! Eu estou grávida. Me lembro bem disso. A voz da minha tia dizendo, Eu estou grávida, e pondo a mão na barriga. Perto de onde ela ficou sentada, no chão, vi uma coisa que era uma arma e achei grande demais. Fiquei com medo e perguntei o que era, e minha tia me disse, Não mexa, meu bem. É uma metralhadora, cuidado. É disso que me lembro. E tudo me aparece como se estivesse muito longe, entre cinzas, neblina, nevoeiro. Nunca mais voltei àquela nossa casa, e acho que foi a casa onde mais gostei de morar, com todas aquelas árvores no quintal. Lembro também de um aniversário que passei nessa casa, e do meu vestido da festa, azul claro, com um laço de fita branco na gola. Era lindo, esse vestido! E lembro perfeitamente do meu bolo de aniversário, um bolo coberto de chicletes cor-de-rosa na bandeja cheia de caramelos. Foi minha tia e minha mãe que fizeram. Minha tia ficava repetindo, com a mão na barriga, Cuidado, estou grávida. Disso eu me lembro perfeitamente. E depois me lembro do lugar aonde chegamos, cheio de gente. Parecia pequeno, mas não posso dizer com certeza se era pequeno ou grande. Na minha cabeça, era como se fosse pequeno e cheio de gente. E também não sei se demorou muito ou não, sei que depois vi meu pai e minha mãe. Eles estavam sentados assim, meio duros, as mãos debaixo da mesa, mais ou menos perto um do outro, mas com um jeito estranho, diferente. Parecia que não eram de verdade, mas de outra coisa, como se fossem bonecos. E quando alguém abriu a porta, assim meio devagar, e eu vi os dois, quis gritar mamãe, papai, mas não sei por que não gritei, fui correndo até eles, só que nenhum deles se levantou para me abraçar. Minha mãe se encolheu mais na mesa. Fiquei chateada porque eles não pareceram contentes em me ver. Pareciam de cera. Ficaram me olhando, de longe, brancos demais, e alguém me pegou. Achei que eles estavam doentes e comecei a chorar.

(De repente, vi minha filha na sala de tortura. E de repente também, ela sumiu: alguém a tirou dali. Foi tão rápido que foi bom: fiquei achando que estava variando. Eu a vi ali e depois não vi mais. Enlouqueci, pensei. Tão rápido, e já enlouqueci. Mas também achei que não podia ser ela, o cabelo da minha filha não era curto assim. Naquele momento, também pensei: se fizerem alguma coisa com meus filhos, não vou agüentar. Melhor enlouquecer de vez. Mas não pode ser minha filha. O cabelo dela é comprido, e ela está em casa, está a salvo, nada vai lhe acontecer. E só muito mais tarde, dias depois, soube que meus pais estiveram lá; e que depois de um grande escândalo conseguiram tirar minha filha e meu filho dali.)

Depois que eles chegaram à nossa casa e me levaram no camburão, e depois que chegamos a esse lugar, que eu não sei onde era, um lugar pequeno mas cheio de gente, eles estavam cortando o cabelo de todo mundo e cortaram também o meu, com aquele pente esquisito que os barbeiros usam, com uma gilete dentro. Meu cabelo era comprido, liso, e estava solto. Minha mãe gostava muito de fazer em mim um penteado que dizia que minha avó gostava de fazer nela e que se chamava sempre-no-meu-coração, e hoje sou eu que faço o mesmo penteado na minha filha. Hoje eu faço na minha filha como minha mãe fazia em mim: primeiro escovo bem os cachos, mas com muita suavidade para não deixar doer. Depois, pego um feixe de cabelo de cada lado e junto os dois atrás, com um prendedor ou laço de fita, no alto da cabeça. É um penteado antigo que até hoje fica lindo em criança. Naquela época eu gostava muito do meu cabelo. E não gostei nada quando eles o cortaram daquele jeito tão curto e de maneira tão bruta. Depois, sei que minha avó lhes perguntou por que tinham feito aquilo. Cortar assim o cabelo de uma criança, com que objetivo? Por nada, foi o que responderam. Por objetivo nenhum. Filho de comunista conosco é assim. Como foi com o filho da minha tia que acabou nascendo na prisão, praticamente na cela, e quando foram buscá-la, depois que as outras presas, as políticas e as presas comuns do outro pavilhão, começaram todas a gritar, a berrar, bater nas grades e nas latas e no que mais havia para ser batido, que o menino estava nascendo e precisava de assistência, e ela disse para o obstetra, Acho que meu filho está morrendo, ele respondeu, E daí? Que importa? Será um comunista a menos.

(Há um limite, eu acredito, para a capacidade de resistir a algo que invade e tira a humanidade de alguém, como a tortura. Cada um tem o seu. Os heróis, não, mas nós, a maioria, não somos heróis. É um erro pensar que podemos ser, que é um ato de mera vontade. E ali, naquele momento, eu soube, claro como uma facada de luz bruta e insolente, qual era o meu. Minha filha, meu filho. Que eles fossem torturados, eu não agüentaria deixar acontecer. Mas não; não era a minha filha ali parada na porta. Aquela menininha tão parecida tinha cabelo curto; minha filha, não.)

Meu cabelo foi caindo, cacho a cacho, e ficou lá no chão, em cima do meu sapato. Tive vontade de chorar, senti meus olhos se encherem, quase escorrendo, mas senti também que por algum motivo as lágrimas não iam cair. Essas pessoas não são minhas amigas, pensei, e sacudi meu pé para que os cachos caíssem direto no chão e não em mim. Minha avó apareceu como se estivesse possuída e entrou gritando e gritando, gritando, e de repente caiu desmaiada. Depois ela nos contou que foi mais por fingimento. Tinha usado suas armas femininas, ela disse, para desnortear e amedrontar os guardas. Até nessas horas, minha avó é cheia de idéias. E funcionou. Eles de fato se amedrontaram. Ter uma senhora de idade esparramada no chão da cadeia não iria lhes trazer nenhuma vantagem. Disseram, Vai, toma, leva a porra dos seus netos, e suma daqui.

*

(A certeza de que, seja o que for, tudo em algum momento chega ao fim, era nossa única aliada. A certeza de que tudo, seja o que for, acaba. Que dali, em algum momento, iríamos para o presídio. Ir para o presídio significava que havia ficado para trás o manto negro de algo cuja existência não era admitida. Por sua própria natureza, a tortura é clandestina, tem que ser negada em todos os escalões. Enquanto esse tempo durasse, enquanto nossa prisão não fosse reconhecida, tudo era possível: a morte, a loucura, o desaparecimento. Só quando essa parte por si mesma se exauria e o interrogatório cessava, é que oficialmente se abria o inquérito, era feita a denúncia pública. Voltávamos, então, a existir para o mundo, e o mundo voltava a existir para nós. Estávamos outra vez entre companheiros, num simulacro de vida normal; vida de presos, mas ainda assim “vida” e “normal”.)

Depois, muito depois, quando chegava o sábado, eu e meu irmão sabíamos que dia era porque minha avó nos acordava logo cedo, a voz animada, quase alegre, Hoje é dia de ver seus pais, dizia. Então nos aprontávamos e íamos visitar meu pai e minha mãe no presídio onde eles estavam. Devia ser triste, mas para mim era como um passeio no parque. Os adultos ficavam conversando e nós íamos brincar no pátio, na areia, nós e muitas outras crianças. Minha mãe ria, me abraçava, me beijava, meu pai também. Eram abraços que às vezes doíam. Doíam por dentro e por fora, como uma aflição de braços sufocados e sufocantes. E me davam presentes, coisas que eles mesmos faziam: brinquedos de caixinhas, pulseiras, colares.
Minha mãe fez pra mim uma boneca de crochê, cabelos roxos de lã, saia de muitas cores, olhinhos de botão preto. Mas cismei: ela não tinha pés. Tinha como se fossem umas mãozinhas marcadas no final dos braços, mas eram mãos sem dedos, e pés ela não tinha. Reparei muito nisso. Fiquei alegre mas também me deu vontade de chorar. Não consegui ficar totalmente feliz com essa boneca de crochê. Ficava e não ficava. Tinha horas que a abraçava sufocado como minha mãe me abraçava, e depois a jogava longe. Não queria mais vê-la, colocava-a debaixo do travesseiro. E só voltava a tirá-la de lá mais tarde, na hora de dormir, quando então, quase sonhando, voltava a abraçá-la apertado, e conseguia imaginar que se ela não tinha pés era porque por dentro, escondido, tinha algum tipo de asa e podia voar e me levar para lá, onde minha mãe estava.

(Nos dias de visita, íamos todas para o pátio. As presas casadas encontravam os maridos, se eles também estivessem presos. Era quando recebíamos a visita dos filhos. O pátio se enchia de crianças e por um momento éramos uma família normal. As crianças chegavam ressabiadas, mas aos poucos se soltavam, correndo e brincando como qualquer criança. A chegada era o melhor momento; na partida, outra vez a dor. As presas solteiras também iam para o pátio receber visitas, e os namorados. Por isso, o dia anterior era o dia da vaidade: queríamos descer lindas, aprontadas. Nossas famílias nos traziam roupas da moda e trocávamos minissaias e enfeites entre nós. Prendíamos o cabelo, fazíamos limpeza de pele, ginástica. Bronzeávamos no banho de sol. Estávamos presas, sim, mas estávamos vivas. Éramos jovens e bonitas, a pele dourada. Eu ia ver meus filhos, meu marido. Eu me sentia feliz.)

Éramos muitas crianças. Crianças, mas filhas de comunistas: antes de entrar e depois na saída, as guardas nos revistavam, pedaço por pedaço de nosso corpo. Essa parte era triste. Eu sentia muito frio e segurava a mão da minha avó e fazia cara feia. Tinha vontade de bater naquelas mulheres-guardas que me apertavam e levantavam minha roupa. Era quando eu me lembrava do dia que eles chegaram à nossa casa para prender meus pais e me levaram no camburão, e cortaram meu cabelo e deixaram meus pais doentes. Então, eu esperneava. Minha avó me abraçava e dizia, Calma, meu bem. Já vai terminar. Meu pensamento ia pra longe, e eu me lembrava do quebra-cabeça que meu pai e eu estávamos montando juntos, acho que ele gostava daquele quebra-cabeça até mais do que eu, e era um daqueles grandes, de 200 peças, que um dia ele chegou trazendo a caixa debaixo do braço, foi de aniversário que ele me deu, e disse, Esse agora é gigantesco, minha filha, você vai ver! E então toda noite, depois do jantar, nos esparramávamos pelo chão da sala os dois e ficávamos montando as peças até me dar sono, e meu pai me levava pra cama e o quebra-cabeça não de todo montado ficava lá no chão; era uma casa grande, e não atrapalhava ninguém. Só atrapalhou os três ou quatro homens que chegaram e não passaram por cima das peças no chão, como todo mundo fazia, mas pisaram em cima e chutaram e eu falei, Não façam isso que papai vai ficar bravo!, Ah!, vai??, eles riram, e aí sim sapatearam ainda mais por cima, como se fizessem uma dança esquisita, desmontando tudo. Foi quando tive vontade de chorar e entendi que eles não eram nossos amigos.
Um sábado, minha mãe me levou para visitar o lugar onde ela morava, sua “cela”. Palavra horrível, “cela”. Ela e outras companheiras que tinham filhos conseguiram autorização e nos levaram para conhecer onde ficavam. Uma espécie de quarto com várias camas e beliches. Muitas colchas coloridas penduradas como se fossem paredes. Abajur coberto com papel rosa todo recortado. Desenhos e figuras pregadas por todo canto.
Tudo muito colorido, muito forte, quase sufocante. Hoje eu sei que era um colorido-salvação, um colorido fake que elas sabiam que era fake, mas que precisavam colocar naquelas paredes sujas e cinzas para alegrá-las um pouco. Mas na hora achei outra coisa. Não achei bonito nem feio. Achei outra coisa. Uma coisa ruim. Comecei a chorar. As amigas da minha mãe me abraçavam, me davam lápis de cor para desenhar, me ofereciam balinhas e caramelos. Ao lado de minha mãe, elas não sabiam o que fazer para me alegrar. Mas me lembro que não gostei nada daquilo, de jeito nenhum. Era totalmente o contrário do que era a casa onde a gente vivia antes de meus pais serem presos. Com o quintal cheio de árvores, que talvez não fosse grande mas para mim parecia enorme. Não sei o que aconteceu com essa casa. Também não sei o que aconteceu com aquele meu quebra-cabeça. Nem com meu bolo de aniversário com cobertura de chicletes, e a bandeja forrada de caramelos. Caramelo, sim, é uma palavra bonita, escorrega na boca.

(O tempo na prisão não tem limites. Prolonga-se, infinito. Cada minuto, cada segundo igual a si mesmo e ao que veio antes e ao que virá depois. Cada hora, cada dia, cada noite transformando-se em outra hora, outro dia, outra noite: igual. E sem marcas: todos os momentos se parecem, o dia e a noite. Igual. A qualquer momento pode-se fazer qualquer coisa, e tudo pode ser adiado para amanhã. Amanhã.)

O tempo que passei sem meus pais – minha mãe, um ano; meu pai, dois – é um período do qual não me lembro bem. Lembro da casa da minha avó, da minha cama perto da cama do meu irmão, de como muitas vezes ele se deitava ao meu lado, sobretudo nos sábados depois que voltávamos da visita ao presídio. Mas se começo a pensar naqueles anos, meu pensamento quase imediatamente parece que voa para o “antes”, para a casa onde morávamos, a casa grande, com quintal, as frutas, o quebra-cabeça. Depois, passa rápido, em imagens sem seqüência, pela metralhadora do camburão, a barriga da minha tia, a sala cheia de gente. Cachos do meu cabelo caindo no meu pé. E então ele corre, outra vez, e voa, para meus sábados no parque junto com meus pais no pátio da prisão.


(Este conto – cujo título vem de um verso de Vinícius de Moraes – foi escrito a partir de depoimentos publicados em dois trabalhos: “Tiradentes, um presídio da ditadura – Memórias de presos políticos”, organizado por Alípio Freire, Izaías Almada e J.A.De Granville Ponce, Ed. Scipione Cultural, 1997, e “Esperança Equilibrista – Resistência feminina à ditadura militar no Brasil (1964-1985)”, de Olívia Rangel Joffily, inédito. Foi finalista do Prêmio Unicamp de Contos e publicado por primeira vez no livro “CONTOS – Unicamp Anos 40)

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A VERDADEIRA HISTÓRIA DA MULHER DO PADRE

Você quer saber se acredito em lobisomem e mula-sem-cabeça?

Acredito não, minha filha.

Esse povo gosta muito de exagerar e de espichar um caso, e até inventar mesmo, bem inventado. Qualquer coisinha vira um deus-nos-acuda. Mas eu, que já sou dessa idade que Deus quer, só acredito mesmo no que vejo ou ouço de certo, o que já não é pouca coisa.
Por exemplo: seu Marcelino, que mora perto da estrada velha, vive falando de um lobisomem, um Mané Criatura, que ele diz que é vizinho dele.

Eu acho é graça, pois nunca tive vizinho assim, não.

Seu Marcelino diz que o lobisomen aparece em noite de lua cheia, logo nessas noites que são as mais bonitas, quando todo mundo gosta de ir pra rua, apreciar. Deve ser por isso, exatamente. Deve ser algum marido quem começa a inventar essas coisas, com medo da mulher se interessar por outro em noites de lua,e depois uns fantasiam que ouviram gritos de lobo esconjurado uivando e, na manhãzinha seguinte, que viram fiapos de roupa nos dentes ou nas unhas de beltrano ou de sicrano.

Como esse Marcelino que diz que viu fiapos de carne humana nas unhas do tal Mané Criatura.

Mas veja bem: se alguém assim fosse mesmo vizinho dele, você acha que ele continuaria morando lá?

Claro que não.

Mas o bicho humano é assim mesmo, adora uma invenção, um exagero, um rebuliço, um espalhafato.

O que eu sei, de fato, é que o tal vizinho do seu Marcelino é um homem solitário e muito peludo, sabe? Daqueles que têm barba grossa e pêlo saindo por tudo quanto é lado, mãos peludas, pés peludos – que eu falo não de ter visto, que eu mesma nunca vi o pé dele, mas geralmente quem tem mão muito peluda tem os pés peludos também. É raro, mas tem.

Mas, então, coitado!, só porque é peludo e feio que nem a peste, tem que carregar essa pecha de ser também lobisomem? Maldade de quem não tem mais o que inventar: pra se fazer de importante, diz ter visto coisa que ninguém mais viu.

Por que também isso é outra certeza: nunca são duas pessoas que vêem o mesmo lobisomem. Geralmente é uma só, que diz o que lhe dá na telha porque não tem ninguém pra desdizer.

A mesma coisa acontece com a mula-cabeça. Dizem que a mula é a sétima filha de um amor sacrílego ou é mulher de padre. Pois olha que eu conheço muita mulher de padre mas não conheço nenhuma mula-se-cabeça. Nenhuminha.

Há pouco tempo, mesmo, teve não só uma mas duas mulheres de padre por aqui e, pelo que sei, nenhuma delas saiu por aí à noite cuspindo fogo pelas ventas, o que é modo de dizer pois se não tem cabeça como vai ter ventas, não é mesmo?

Um delas, inclusive, sempre passa por essa rua, de tardezinha, a caminho da igreja. E a outra, embora não saia muito de casa, também qualquer um pode ver: é só ir na casa dela. É a Irma, que mora naquele sobrado que foi de Seu Antero.

Agora ela já é uma senhora, mas já foi moça, e no tempo que era moça, tinha aqui um padre muito bonito, o padre Estéfano, que deixava a mulherada toda em polvorosa.

Era um italiano alto, de olhos claros e uma voz poderosa que reverberava por toda a igreja na hora dos sermões, causando sensação. As beatas, no seu tradicional papel e natureza, faziam tudo por ele. Não só as beatas, a cidade toda gostava dele. E então, por isso mesmo, por gostar dele, todo mundo fazia de conta que não sabia de nada. Mas sabia.

Mesmo com certa dose de escândalo e um pouco de inquietação, a cidade ia convivendo com o fato – desde que tudo ficasse dentro das normas do sigilo e do decoro – de que o padre tinha uma amante, que era não Irma, mas a outra, que não vou dizer o nome porque a pobre já sofreu muito com essa história.

Só digo que era uma mulher delicada, discreta, melancólica. Muito piedosa, ajudava a quem precisasse, e fazia todo o trabalho da igreja. Era a mão direita, vamos dizer assim, do padre Estéfano. E se todo mundo sabia, ninguém falava nada porque era como se houvesse uma espécie de código do pecado aceito. Código que dizia assim: se pecar é ruim, pior é deixar o pecado aparecer. E claro que o outro nome disso é hipocrisia, mas parece que hipocrisia e sociedade são comadres e adoram viver juntas.

Pois bem. Se a amante do padre era um pecado aceito, Irma veio alterar essa ordem estabelecida das coisas.

Irma, quando moça, adorava novelas de rádio e gostava de ficar na janela, procurando namorado. Como não achava, ficava falando mal da vida alheia.

Muito sonhadora e romântica, todo dia, depois de fazer as tarefas de casa, tomava seu banho e aprontava-se toda, com roupa bonita e perfume, pra ficar na janela. Entardecia e ela continuava na janela. Chegava a noite, todo mundo ia dormir, ela continuava com os braços apoiados no parapeito. Dava meia-noite, e ela lá.

Uma noite, uma procissão passou em frente da sua casa. Uma procissão bonita que só vendo. Aquela fila comprida, começando lá no fim da rua do Rosário e virando a rua Direita, cada um com sua vela acesa dentro do envoltório de papel de seda branco, a luzinha tremeluzindo com o vento sem nunca se apagar, o cheiro bom de incenso se espalhando pela rua toda, os anjinhos como se fossem de verdade, com sandalinhas tão delicadas que pareciam nunca ter pisado o chão, e com asas tão bem feitas e grandes que pareciam poder voltar voando pra casa. Tinha-se a impressão de que só estavam esperando uma ordem para sairem todos em revoada. E a bandinha acompanhando tudo, tocando umas músicas tristíssimas, de partir o coração.

Mas Irma não reconheceu ninguém.

Falou, que coisa, meu Deus! Será que não conheço mais o povo dessa cidade? Nem o pessoal da banda, que ela gostava tanto de ouvir, ela reconheceu.

Foi então que uma moça saiu da procissão, chegou perto da sua janela e disse:

– Olha, dona, a senhora toma conta dessa vela pra mim?

Irma falou, claro, pode deixar.

A procissão passou e a vela ficou ali na sua mão. Como nada da moça voltar para buscar sua vela, Irma foi examinar melhor e viu que aquilo era osso de canela de defunto, esse ossinho que fica aqui, ó, tá vendo?

Ela reparou também que já passava da meia-noite e que procissão nenhuma saía da igreja aquela hora. Foi aí que compreendeu que acabara de ver passar uma Procissão de Mortos e que por isso não reconhecera ninguém.

Irma se assustou demais com aquilo e entendeu que era um aviso pra que não ficasse tanto na janela. No fundo, reconhecia que andava falando muito da vida alheia e sabia que isso era ruim.

Resolveu mudar de vida e recomeçar a ir à igreja onde há muito tempo não ia. Ainda nem conhecia direito o tal do padre bonito, o italiano.

Pois foi só conhecer e se apaixonar.

Moça velha, apaixonada, passando da idade de casar, já viu o perigo que é. Começou aquela consumição. Irma já não ficava à janela, mas agitava-se o tempo todo, esperando a hora da igreja abrir. Mal conseguia dormir a noite.

Madrugadinha, passava com seu véuzinho, missal e terço debaixo do braço, compenetradinha, sem nem olhar pros lados. No meio da manhã, lá vinha ela outra vez, pretextando uma confissão. Depois do almoço, passava de novo, pretextando uma reza de novena. De tardezinha, outra vez, que era hora do Angelus. E lá ficava até a igreja fechar.

Os comentários começaram:

– Lá vai Irma pra Igreja.
– Outra vez?
– Passa tão apressada que mal cumprimenta as pessoas.
– E não fica mais na janela. É o dia todo na igreja, ou em casa, rezando no oratório.
– Que coisa! Essa menina mudou.

Passava pelas ruas, agitada, alheia, e as janelas – onde antes era ela quem ficava – se alvoroçavam com os comentários. Com ar inquieto, olhar ardente, jeito de consumição, ela pisava na linha que separa o tolerável pela cumplicidade coletiva, da afronta.

O caso foi caindo na boca do povo e a família de Irma começou a ficar preocupada. Família que eu digo era o pai – que a mãe tinha morrido e as irmãs e irmãos estavam casados. Ela era a única que continuava solteira.

Um dia o pai não agüentou e foi atrás dela na igreja. Chegando lá, foi uma altercação grande porque a filha não queria voltar pra casa e o pai teve que arrastá-la, puxando pelos cabelos, um alvoroço só.

Depois desse escândalo, claro, a situação piorou e o pai não teve outro jeito a não ser mandar a filha passar uns tempos na casa de uma das irmãs, na Capital.

Logo depois o padre Estéfano – por outros motivos – foi chamado de volta à Itália e a igreja perdeu boa parte de sua graça.

A discreta amante do padre – a outra, a verdadeira -, não tendo para onde ir, continuou na cidade, com sua melancolia e reserva, cada vez mais parecida com uma imagem de Nossa Senhora das Dores.

Com o tempo, Irma acabou achando um fazendeiro viúvo, interessado em se casar e casou. Teve filhos, apanhou, dizem que muito, do marido, viveu sabe-se lá quanto sofrimento. Curada de seu romantismo, de sua ardência e amores, optou pela obesidade.

Hoje, nem à igreja vai mais.

Passa o dia todo sentada em uma cadeira que mal contém sua figura que beira os cento e tanto quilos nos seus pouco mais de metro e meio, pois é bem baixinha. Parece até uma porca, pobre Irma!, daquelas que não conseguem andar de tão gordas. Um golpe baixo que a vida pregou no final feliz de seus sonhos românticos.

Agora, é preciso que se diga, nem ela nem a outra mulher do padre, a verdadeira, nunca viraram mula. Estão por aí, como outra pessoa qualquer, vivendo suas vidinhas de tristeza.

Por isso é que eu digo: mulher apaixonada por padre, conheço muitas, mas mula-sem-cabeça nunca vi nenhuma.

(Do livro “Uma Cidade de Carne e Osso”, Ed. FTD )

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Uma pérola de garota

Nada além do frio e da língua hostil. Língua que não abriga, repele.
Dias curtos e brancos. Noites demasiado longas, desrespeitando o sentido do tempo.

Levantar com esforço, ir até a pia do banheiro. Olhar o espelho.
Que rosto era aquele?
Concentrar.
Abrir a torneira. Deixar a água correr. Fazer a barba, escovar os dentes. Nessa ordem.
Vestir a mesma roupa de ontem. Olhar para o pequeno monte de peças sujas a um canto do quarto. Avaliar se é hora de colocar tudo na máquina.
Abrir a geladeira. Avaliar.
Fazer mentalmente a lista do supermercado:
3 iogurtes
1 detergente pequeno
3 maçãs
3 águas
(Na hora da insônia à noite, sente muita sede.)

Fechar a porta. Descer. Entrar na cafeteria da esquina. Tomar uma xícara de café.
Tomar o metrô até a Tallstingen.
Chegar ao pequeno prédio cinza. Entrar. Subir a escadaria.
Ir até a escrivaninha do fichário.
Começar a catalogar as fichas em inglês e francês.

A tática é essa. Concentração total em cada detalhe dos gestos cotidianos. Não deixar o pensamento se soltar. Não deixar que as lembranças o invadam com seu tropel particular de carne e osso.
Não enlouquecer.
Não perder o sentido das coisas. Se concentrar nisso.
Respirar. Parar.
Focar na ficha.

Ficha número 120
Data: 2/ abril/1969
Nome: Jesus Arroyos
Idade: 26 anos
Origem: Uruguai
Escolaridade: formação técnica como ferramenteiro.
Histórico resumido: Sem militância definida. Preso por cerca de 6 meses. Marcas de torturas. Processado por prestar apoio à organização dos Tupamaros. Exilado pela Cruz Vermelha Internacional. Não necessita acompanhamento especial.
Conhecidos: ficha n. 103 e 38.
Contato: Cruz Vermelha Internacional.
Condições atuais: empregado na fábrica Bergstigen.
Endereço atual: Solgatan, 83/51B
Supervisor responsável: Dr. Stellan Mankel.

Seus olhos deslizam para o pedaço de braço branco sob sua camisa. As cicatrizes têm vida própria, pulsam.
Mas não são elas que o apavoram. São apenas marcas do que já passou. O terror, quando vem, é de outra fissura. A que importa, profunda; a que não cicatriza. A incapacidade de continuar. A impotência mental e física.
A mesma que o faz se isolar de tudo e de todos.
A mesma que fez dele um vencido. Um homem à margem. Imprestável.

Ficha número 114
Data: 7/ dezembro/73
Nome: Jorge de Canto Lima
Idade: 32 anos
Origem: Brasil
Escolaridade: graduação em arquitetura
Histórico resumido: Militante. Processado por ações armadas no Brasil. Exilado no Chile. Preso no Estádio Nacional. Cicatrizes e seqüelas físicas de eletrochoques, agressões e queimaduras, no Brasil e também no Chile. Tendências suicidas. Incapacidade parcial. Exilado pela Cruz Vermelha Internacional.
Conhecidos: nenhum
Contato: Cruz Vermelha Internacional.
Condições atuais: em acompanhamento, com medicação. Empregado na Associação de Solidariedade Internacional aos Exilados.
Endereço atual: Ljungskilevägen, 33/2.
Supervisor responsável: Dra. Birgitta Lansen

A ficha dele.
Todos os dias ele a lê. Lê também os relatórios de acompanhamento anexos.
É sua maneira de encontrar alguma concretude, ainda que provisória. Um tipo de chão. Ver escrito no papel por que se tornara essa carcaça.
A leitura reafirma sua decisão.
Está vencido. O rito final é o único que ainda falta.
Mas algum raciocínio lhe resta. Não vai deixar que imputem sua morte à estatística do inverno sueco. Não a transformará em um equívoco. Seu verdugo não é esse mundo branco.
Agüentará um pouco mais. Em poucas semanas, terá o suficiente para comprar a passagem até Londres.
Já sabe o ângulo em que pulará da ponte sobre o Tâmisa.
O que tem a fazer agora é apenas se focar.
Mais uma ficha. E outra. Até o final daquele dia.
Uma coisa de cada vez. Uma hora de cada vez. Um dia de cada vez. Uma noite de cada vez.
O controle de seu estado o exaure.

Ficha número 151
Data: 20/ outubro/ 71
Nome: Salazar Torres
Idade: 33 anos
Origem: Argentina
Escolaridade: PHd em arqueologia, ex-professor titular da Universidad de Córdoba.
Histórico resumido: Sem militância definida. Expulso do trabalho letivo. Acusado de atividades subversivas e apoio estratégico aos Montoneros. Exílio voluntário. Escolha do país.
Conhecidos: fichas números 95 e 76.
Contato: nenhum; veio por iniciativa própria.
Condições atuais: em trânsito. Aguardando resposta à solicitação de colocação na Universidade de Nanterre, França.
Endereço atual: Långgatan, 6
Supervisor responsável: Dr. Lars Bnark

Ficha número 113
Data: 4/ janeiro/ 74
Nome: Amanda Rojas de Bacellar
Idade: 23 anos
Origem: Santiago de Chile
Escolaridade: estudante do quarto ano de engenharia civil.
Histórico resumido: Militante. Prisão clandestina, sem processo. Trazida pela Cruz Vermelha Internacional. Marcas de eletrochoques, extração da unha do polegar direito e do mamilo esquerdo, queimaduras diversas, dilaceração do colo do útero e do canal vaginal. Marido, Julio Bacellar, desaparecido no Chile. Nenhuma escolha de país. Nenhum relacionamento. Apresenta mutismo e incapacitação temporária.
Contato: Cruz Vermelha Internacional.
Condições atuais: em acompanhamento psicológico com medicação.
Endereço atual: Margarettagatan, 1C
Supervisor responsável: Dra. Alma Erickson.

Amanda.
Depois das sessões diárias com a psicóloga, ela fica sentada no banco de plástico branco na pequena sala da recepção a Associação dos Exilados. Toda tarde. A tarde toda. Aquele canto do banco é o mais próximo do que pode chamar de um lugar. É dali que ela olha o vazio.
Tão destroçada quanto ele.
Dois invólucros esvaziados de sentimentos e desejos. Dois corpos ocos. Duas mentes em busca de controle.
No final do expediente, quando Jorge sai, ela ainda está lá, no mesmo lugar branco onde passa as tardes.
Ele lhe diz: “Hora de fechar”
Ela se levanta e sai a seu lado.
Caminham lado a lado, sem nada dizer.
Até a boca do metrô, aceitam a presença mútua. De lá, seguem cada qual seu rumo.

Hoje, no entanto, acontece algo.
À frente na calçada, a porta de um café-restaurante se abre e dali sai a figura exuberante do Dr. Lars.
“Meus jovens”, ele diz em espanhol. “Providencial encontrá-los aqui. Venham, entrem; tenho dois convites para a ceia que já vai ser servida. São seus. Tenho uma emergência e seria uma vergonha desperdiçar essa fartura. Entrem, entrem. Só vão ter que se sentar e desfrutar. Excelente.”
Os dois olham para o Dr. Lars, impassíveis.
Puxados por ele, entram no recinto cheio. Sentam-se no lugar indicado. Esperam.
A ceia começa a ser servida.
Os vinhos. A comida bem feita. Um cheiro perfumado que há muito não sentiam.
Comem quase nada. Indiferentes. Cumprem uma obrigação.
Amanda nem toca no vinho.
Jorge mal bebe talvez um terço da taça.
Terminam a comida. O garçom retira os pratos.

Um violino começa a tocar ao fundo: Mahler.
Nenhum dos dois se levanta.
Há um brilho líquido que desliza pelo rosto de Amanda.
Um fio de voz sai de sua boca.
“Meu marido”, ela diz. “Não vi o corpo dele.”
Jorge não diz nada.
Muito aos poucos, ela continua.
“Um desconhecido veio me contar. Ficou preso com ele, mas não sabia seu nome. Ninguém sabia. Ele morreu sem dizer. Não podia dizer. Nem para o desconhecido na cela; um segredo a mais para o outro manter.”
O brilho líquido é suave em seu rosto. Quase uma jóia.
“No último dia, deu meu nome e o endereço da minha família. Pediu ao desconhecido que se saísse vivo, me avisasse. Foi nos primeiros dias do golpe. Que eu saberia, se ele me dissesse uma frase. Uma frase só. “I see a girl; a pearl of a girl.”
Ela vê alguma coisa no vazio à distância.
“É de um filme que vimos juntos. Uma jovem conhece um rapaz num parque. Perto de uma estátua. Ela diz : “Look at me. Who do you see?” Ele responde: “I see a girl, a pearl of a girl.”
No restaurante deserto, as luzes começam a se apagar.
“Fui presa só depois. Queria que também me matassem.”

Quando saem, encontram a porta do metrô fechado.
Ele diz que pode acompanhá-la, mas o bairro onde ela mora é distante. Impossível chegar até lá a pé sob a neve que começa a cair. O quarto dele é mais central.
“Vamos. Você dorme em minha cama. Tem dois colchões. Ponho um no chão pra mim.”

Na caminhada até seu quarto, é ele que de repente escuta a própria voz. Pela primeira vez, fala de algo que não o horror. Fala de uma coisa que houve antes. Um filme que também viu e agora se lembra.
Um homem e uma mulher caminhando por uma estrada.
Passa um carro. Eles dão adeus.
Não tem o mesmo significado que o filme que ela lhe contou.
Mas talvez para ele tenha.
Não é uma imagem de dor.

Apesar dos remédios, Jorge não dorme essa noite.
No escuro, tenta se concentrar.
Amanhã: levantar, ir até a pia, lavar o rosto, fazer a barba, escovar os dentes.
Nessa ordem.
Tirar dois iogurtes da geladeira. Duas maçãs. Servir.
Não ir até a cafeteria da esquina e sim fazer ele mesmo o café para Amanda. Sabe fazer um bom café.
Sem nenhum ruído, levanta-se do colchão no chão, abre o pequeno armário em cima do fogão. Ainda tem pó. Volta a se deitar.
Servir o café.
Se ela quiser pão, ele não tem. Levanta-se outra vez. Tem biscoito. Volta a se deitar.
Servir o café. Perguntar se ela quer biscoito.
Uma inquietação miúda toma forma dentro dele. Mas ele custa um pouco a reconhecer o que é. Um vestígio de vontade.
Cuidar de Amanda.
Da fragilidade dela. Das lágrimas que deslizaram como um brilho.
Isso ele pode fazer.
E só aos poucos compreende: isso parece que ele quer fazer.
Cuidar de Amanda.
Ela precisa dele.
Servir o café. Servir o biscoito. Levá-la ao parque. Como se leva uma convalescente.
Amanhã é sábado.
Focar nisso: levar Amanda ao parque.
Desde os horrores que viveu, é a primeira noite que tem alguma coisa levemente boa para pensar.
Cochila.

Dessa vez, não vê a ponte sobre o Tâmisa; e não sonha.

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COMO APRIMORAR UMA HABILIDADE ANCESTRAL

Outro dia, um amigo Ph.D em Filosofia, David Livingstone Smith, fez uma descoberta tão óbvia que parece a de Colombo ao colocar o ovo em pé.
“A evolução seleciona as características que são mais vantajosas do ponto de vista da sobrevivência – ele diz, reafirmando Darwin, e acrescenta: – A mentira é uma delas.”
É por que as mentiras são – e sempre foram – vantajosas do ponto de vista da sobrevivência do ser humano que ela é hoje uma característica da espécie.
Faz parte do equipamento mental que o ser humano adquiriu e vem aprimorando na luta pela sobrevivência. Mentir, dissimular, ocultar é parte necessária para a preservação da espécie.
Depois que é dito, isso parece tão verdadeiro que não necessita de explicações. Como o ovo.
David é radical, no entanto: afirma que mentir é tão natural quanto respirar, caminhar, falar e fazer sexo. Argumenta e mostra (brilhantemente!) como a evolução da estrutura do cérebro humano vem desenvolvendo essa necessidade de mentir para sobreviver. Há milhões de anos.
Não é a toa que alguns mentem superlativamente bem!
A questão, portanto, é que para sobreviver, conseguir trabalho, se dar bem com os amores e os amigos, e não enlouquecer, é preciso mentir mais e melhor.

Alguns exemplos iniciais
No começo, evidentemente, a habilidade de mentir ainda não estava muito bem treinada. Por isso quando Deus perguntou:
“Eva, foram vocês quem morderam essa maçã?”
Ela se ruborizou, titubeou e olhou desesperada para Adão, que fingiu estar olhando para outro ponto distante, justamente do lado oposto. Por essa reação típica de péssimos mentirosos, iniciantes, Deus nem precisava da denúncia da serpente para saber que os dois estavam mentindo.
Corolário: se a capacidade de mentir já estivesse evoluída neles como hoje está em nós, ainda estaríamos na vida mansa.
Já Caim, cujo treinamento foi um pouco mais extensivo, se saiu melhor, e quando Eva, distraída, perguntou:
“Filho: quem está gritando assim como um alucinado com dores lancinantes não é Abel?”
Ele, tranqüilo, pegou seu pedaço de carne crua e falou de boca cheia (os hábitos à mesa também estavam no começo de sua evolução):
“Abel está dormindo, mãezinha. Esses gritos são da mulher do macaco aí do lado. Os dois já estão brigando de novo.”
Mais tarde (ou terá sido antes? Qual foi mesmo a era em que Adão e Eva viveram? Pleistoceno Superior?), os gritos de “Não fui eu!”, “Não fui eu!” , correram mais do que dinossauros e mamutes pelos campos da nossa pré-história.
Quem soube convencer o outro, sobreviveu.

A situação de hoje
A história do nosso mundo está repleta de exemplos assim: mentiras que deram certo, outras que deram errado, no meio de toda a confusão, ruído e fúria que trouxe o ser humano incólume (foi?) até o século XXI.
A verdade é que essa luta do mais forte por um lugar ao sol tem dado resultados questionáveis, mas não por culpa da mentira que vem se aprimorando bastante no decorrer desses milhões de anos.
Continua sendo uma bela vantagem quando bem usada. Continua ajudando a espécie humana a manipular seu grupo social, como ajudou nossos ancestrais.
Os bons mentirosos foram os que conseguiram – e conseguem – melhores salários, mais status, cônjuges com mais saúde (por que comem e se cuidam mais) e filhos cheios de aptidões evolutivas (idem).
Os vencedores sempre souberam mentir mais e melhor.
Mesmo no caso da mera sobrevivência, a convivência humana sem a mentira seria não só insuportável, como impossível.
Já imaginou se você dissesse a verdade para todos que encontrasse e a recíproca fosse verdadeira? Quanto tempo levaria para você desistir de tudo e correr para se internar no primeiro hospício?
Meu objetivo aqui, portanto, é apenas fazer você entender melhor essa sua habilidade congênita – se é que você está precisando de alguma lição sobre isso.
Se estiver, preste atenção.
As mentiras se subdividem em duas categorias básicas.
A mentira defensiva, totalmente darwiniana: é a mentira inocente. A que se pratica desde o berço e é muito bem treinada na infância, quando a cada pergunta de “Quem foi que fez isso?”, o pequeno indivíduo em formação responde com a cara mais inocente do mundo, “Não sei.”. Em geral, não machuca ninguém e apenas evita que aquele que a usa passe por um mau pedaço. O problema começa quando a criança cresce e tem que se defender das conseqüências de suas próprias mentiras. Aí, talvez, comece a perder seu ar inocente, ou talvez não. De qualquer maneira, é sempre usada na defesa e não no ataque.
Já a mentira agressiva é aquela praticada pelo conquistador. É a que tenta justificar a aniquilação do mais fraco. É a que Bush, por exemplo, usou e abusou para invadir o Iraque. É das mais populares entre os países, mercados e campos e locais de trabalho, como você já deve ter percebido.
Quanto à forma, as mentiras se subdividem em duas modalidades: a deliberada e a inconsciente.
A mentira deliberada é difícil para alguns e, para outros, facílima. Os menos capacitados nessa escala de evolução, mesmo depois de todo o treinamento da espécie, ainda hoje não são lá grande coisa na forma da mentira deliberada: gaguejam, se ruborizam (como Eva), fazem cara de quem acabou de chegar ali naquele instante e tentam simular não ter a menor idéia do que é que está se passando (como Adão). Na maior parte das vezes, se dão mal.
A mentira inconsciente é, verdadeiramente, a mais ancestral. Tão ancestral que faz parte do funcionamento da nossa psique. É aquela que você já nem sabe mais que é mentira. É a mais convincente e também automática, explica David. É, por exemplo, a resposta do “Tudo bem” à pergunta de “Bom dia, como vai?”
Em geral funciona a contento e tem um inegável papel no equilíbrio social: já pensou se você pára a pessoa que lhe fez a automática pergunta com ar de grande simpatia, e lhe conta todo o drama que vem enfrentando nesse seu dia? Provavelmente, nunca ouvirá mais essa pergunta partindo dele: o pobre fará de tudo para jamais se aproximar de você outra vez.
Quanto à sua utilidade para a espécie, as mentiras se subdividem também em duas: para os outros e para si mesmo.
É verdade, a mentira para si mesmo existe, e não é nem a mais difícil. É o conhecido auto-engano, aliás, a condição para sua boa saúde mental. É a que evita que você fique (completamente) louco. Em geral, diz David em sua tese, os deprimidos são os que têm essa habilidade pouco desenvolvida.
Já a mentira para os outros é a clássica, a que lhe permite viver seu dia-a-dia sem provocar grandes desastres, ruínas e, em certo nível, a própria destruição da sociedade (pelo menos da sua).

Sugestões para seu aprimoramento

Agora, a parte boa: como aprender a mentir mais e melhor.
Já que mentir é uma habilidade congênita, algumas pessoas a têm bem mais desenvolvida do que outros. Desnecessário dizer que a classe política se sobressai nesse aspecto. Mas na espécie em evolução, como um todo, os mecanismos da dissimulação e falsidade são continuamente aprimorados.
Exemplos da sofisticação desses primores podemos ver todos os dias a toda hora em todos os lugares. Jornais, TVs e encontros sociais são entretecidos por eles.
Para ter lições práticas, portanto, e se aprimorar, é fácil: basta olhar com atenção para o mundo a sua volta.
Foi assim que, hoje, por exemplo, fiz uma nova aquisição evolutiva apenas observando um dos nossos próceres do momento. O prócer que, ao ser pego publicamente em uma mentira, não titubeou nem se ruborizou como Eva, mas apenas se justificou, com cara de ofendido, afirmando não ter “se apegado à acepção estrita” do termo que inicialmente usou. (Importante! A cara de ofensa e ultraje é condição necessária para se fazer a correção de uma versão dada anteriormente.)
De fato, uma pérola de sofisticada lapidação.
Depois dessa, acredito, qualquer outra lição torna-se, pelo menos por hoje, desnecessária.

Para finalizar, um pequeno teste de compreensão.

O texto que você acabou de ler contém pelo menos uma mentira deliberada e provavelmente várias mentiras inconscientes.
Quem detectá-las, concorrerá a um prêmio, caso se dê ao trabalho de enviar o resultado para esta editora.
Só não vale me chamar de cínica, pois não o sou. Não passo de um mero indivíduo do gênero feminino de nossa evoluída espécie.

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O NAMORADO DE LÚCIFER

Olha quem vem lá, o vaqueiro mais educado dessa cidade!
Aí vem ele, cumprimentando, tirando o chapéu para todo mundo, com muito jeito, muita educação. É da fazenda dos Alfarrinos. Os vaqueiros de lá são todos assim, muito educados, bem vestidos, muito finos. É uma gente caprichosa que faz questão de tudo nos conformes.
E isso não é de hoje, não. Começou bem antes do tempo do avô deles, seu Capistrano, que Deus o tenha! Começou com o bisavô do seu Capistrano, toda essa educação, a fineza, esse chinrinfinfim.
E também a tragédia.
Pois o caso é que esse bisavô era um fazendeiro muito rico, muito mais rico do que eles são agora. Era dono daquelas terras todas que vão do pé da serra até bem pra lá do Rio das Almas.
Era terra que não acabava mais. Uma riqueza que não dava para medir.
Além de tudo, era também um homem danado de bonito. Alto, esbelto, cabelos de cachos pretos, olhos esverdeados. Muito bem vestido e educado. Fazia questão de todo dia trocar de roupa e só usava camisas brancas, alvíssimas, com monograma com as iniciais dele bordadas no bolso com fios de seda. Calças e botas, tudo muito limpinho, brilhando e combinando. Tinha vários tipos de chapéus, um para cada ocasião, que mandava buscar no Rio de Janeiro e até na França.
E os modos, então, nem se fala: parecia uma donzela de tanta educação. E era mesuras pra cá e rapapés pra lá, esmeradíssimo. As moças todas eram apaixonadas por ele, só vendo o sucesso que ele fazia.
Era muito culto também. Lia um monte de livros que mandava trazer da Capital. Podia ser em português, em francês e em latim, que ele sabia todas essas línguas. Chegavam os pacotes pelo correio, e logo vinha um dos homens da fazenda buscar. E todo cuidado era pouco porque ele recomendava que livro era pra ser tratado como um tesouro.
Sem dúvida nenhuma, esse fazendeiro era um exemplo de gente requintada pro povo daqui.
Logo se casou com uma moça que veio de São Paulo, bem delicada, branquinha, parecendo um lírio. Só que morreu quando deu à luz o segundo filho. E ele passou a ser um viúvo jovem e ainda mais cobiçado.
Pois bem.
Passado uns meses da morte da esposa, acho que até mais de ano, não é que esse moço de tantas prendas e qualidades foi se apaixonar logo por quem?
Por Lúcifer. Exatamente, o próprio. O Príncipe das Trevas, O Imperador da Escuridão, O Anjo Ruim.
Como é que isso foi acontecer, ninguém sabe ao certo. Como foi que Lúcifer apareceu e seduziu o viúvo moço, como foi que o namoro começou, ninguém nunca ouviu dizer. Deve ser porque esse momento, como em quase todas as histórias de amor, foi testemunhado só pelos dois interessados, e nenhum deles quis contar pra ninguém.
O que todo mundo sabe é que Lúcifer, quando quer, pode aparecer muito bonito, disfarçado de moço, muito refinado e cheio de sedução. Pode seduzir quem quiser, homem ou mulher, dá no mesmo.
Pro Diabo, tanto faz.
O fazendeiro se apaixonou pelo moço bonito e refinado que apareceu um dia na fazenda, com rapapés e salamaleques, montado em um garboso cavalo preto e acompanhado de perto por um cachorro preto de uma raça que ninguém conhecia, os dois, cavalo e cachorro, tão pretos e bem cuidados que até provocavam um halo brilhante em volta.
No meio daquele pretume todo, também vestido de preto, porque o Diabo só se veste de preto e de vermelho, lá vinha ele, o moço que era também alto e esbelto, só que louro e com os olhos de uma cor que não dava para ver direito porque ninguém conseguia olhar direto nos olhos dele.
Quem tentasse, tinha um estremecimento, uma coisa esquisita, uma vertigem, e era obrigado a desviar o olhar.
Contam também que o pobre do fazendeiro só teve certeza que o moço era Lúcifer quando deu um espelho pra ele e a imagem não se refletiu. Mas aí já era tarde. Já estava completamente apaixonado daquele jeito cego, louco, sem perdão, o jeito das grandes paixões.
Na verdade, o fazendeiro fez o teste do espelho porque já vinha desconfiando do namorado por dois motivos: primeiro, porque ele não tirava as botas nem pra dormir e, segundo, porque quando se esquecia de lambuzar o corpo com os perfumes que trazia num alforje constantemente a seu lado, ficava com um cheiro que até o fazendeiro, mesmo apaixonado como estava, achava meio que repugnante.
Essas são as duas características do Diabo disfarçado de gente: ele consegue mudar tudo nele, menos o pé bifurcado e o cheiro de enxofre.
Mas vocês sabem direito quem foi Lucifer?
No Paraíso, ele era o anjo preferido de Deus, o Anjo da Luz, de beleza fulgurante e única jpa que Deus jamais conseguiu fazer outro anjo igual, nem tão inteligente, nem tão perfeito.
Só tinha um defeito, um defeito tão grande que foi sua perdição: a soberba, que é o exagero do orgulho. Com o tempo a soberba foi lhe subindo à cabeça, e um dia ele pensou que já que era tudo aquilo, por que tinha que se submeter ao Senhor?
Por que não podia ser, ele também, deus?
E foi então que se rebelou e o Senhor dos Céus teve que lhe mostrar sua força e o expulsou do Paraíso. Como castigo adicional, mudou também completamente sua aparência, para que ele aprendesse de uma vez por todas quem era que mandava, e aprendesse também que orgulho demais nunca traz nada de bom. Suas penas translúcidas de anjo viraram escamas nojentas de réptil, suas asas faiscantes, garras pontiagudas, seus delicados pés voadores, cascos bifurcados, e seu perfume natural das mais belas flores que ainda nem tinha sido criadas, um odor pestilento.
Foi condenado para sempre ao Inferno, de tormentos indescritíveis e lagos de fogos escaldantes. Desde então, passou a ser Lúcifer, o Imperador do Mal, e chefiar suas legiões de demônios na luta eterna contra Deus, o Imperador do Bem.
Só que, embora condenado, seus poderes ainda são enormes, e Lúcifer não se conformou em ficar restrito ao Inferno.
De vez em quando ele sai.
Gosta de andar pelo mundo, examinando essas coisas todas que o mundo tem e, quando tem tempo, passa temporadas na Terra, descansando, refazendo suas forças, tirando umas férias, porque se até Deus descansou no sétimo dia da Criação, imagine o Diabo!
Foi para suas férias daquele ano que ele escolheu aquela bela fazenda, e lá ficou o tempo que quis.
Ao que tudo indica, foi um tempo de muita felicidade pro fazendeiro. Os dois saíam a cavalo pra passear e ver, do alto da serra, o deslumbrante pôr do sol do planalto, onde que dizem que fica o coração do país.
Andavam por ali, sossegados, e o fazendeiro mostrava pro namorado tudo que a fazenda tinha de bom. Mostrava as plantações, o gado, as benfeitorias. Mostrava os rios e as quedas d´água, as árvores e as flores tão diferentes do cerrado.
Todo amoroso, inventava apelidos para o amado: Lucifuge, Lucibel, Luciluz. Tratava-o como só quem ama sabe tratar aquele que é o objeto de seu amor.
Mas ele, Lucifer, o que achava disso tudo?
Ora, pra começar, Diabo não ama ninguém.
Em compensação, é o criador do fingimento e do interesse. Fingia-se de educadíssimo e requintado, pois era de sua conveniência passar um tempo ali descansando. Por isso ia fingindo que aceitava aquele amor cego e tudo o que o fazendeiro lhe oferecia.
Os passeios pela fazenda.
O banho cristalino nas cachoeiras.
A cama com lençóis de linho macio pra ele descansar.
Os biscoitos quentinhos feitos a qualquer hora, a pamonha cozida, preparada só com o milho mais verde e tenro da região.
A garapa da cana caiana mais doce.
As comidas da despensa: as latas de doce leite, as goiabadas cascão, as compotas das frutas do cerrado. As rapaduras e as moças-belas.
Os violeiros cantando modinhas tristes ao redor da fogueira à noite.
O fazendeiro mimava-o de tudo quanto é jeito. E todo o pessoal da fazenda tinha que servi-lo muito bem. Foi por isso que aprenderam as regras da cortesia e da educação e de bem tratar as pessoas: para servir a Lúcifer.
Todos os vaqueiros e agregados e empregados de casa, todos, além de muito competentes e de entenderem do riscado que faziam, tinham que andar muito limpos e muito bem vestidos, e ter bons modos e saber se comportar, cumprimentar, conversar com Lúcifer na hora certa, isto é, na hora que ele quisesse conversar, essas coisas de gente fina. Que o fazendeiro ensinava e depois exigia.Vaqueiro que aparecesse sujo ou não soubesse tirar o chapéu do modo certo para cumprimentar, era mandado embora na hora.
Com esse sarapatel todo, Lúcifer foi ficando, foi ficando.
Até que um dia achou que já estava descansado o bastante e era hora de tocar pra frente suas legiões de demônios.
Mandou chamar seus dois Ministros preferidos: Agaures, o Grão-Duque do Inferno, o diabo encarregado de ensinar línguas, fazer os espíritos terrestres tremerem e distrair os inimigos, comandante de 31 legiões; e Adremeleque, Presidente do Alto Conselho dos Infernos e Superintendente do Guarda-Roupa do Diabo, de torso humano e rabo de pavão e um espírito muito rápido, irônico e propenso a boas gargalhadas.
Chegaram os dois muito bem disfarçados de velhos, que era para não provocar desconfiança nem ciúmes do fazendeiro, e começaram a confabular, trancados numa sala da fazenda, tomando a Bebida do Ódio, feita com a bílis de quatro animais.
Passaram a noite assim. No dia seguinte, o Diabo já decidira o que fazer.
Mas nem sequer disse pro fazendeiro que ia embora porque, além do mais, diabos abominam despedidas.
Só esperou chegar a noite de uma sexta-feira sem lua, pra selar silenciosamente seu cavalo preto, assoviar pro seu cachorro preto num tom que ouvido humano não escuta, e partir no pretume da noite.
Quando o fazendeiro se deu conta do que acabara de acontecer, saiu atrás, como louco, em seu cavalo veloz.
Lúcifer já estava longe, desaparecido para nunca mais.
Ah, pra quê!!
O pobre do fazendeiro penou as dores da morte de um amor, e essas dores doem demasiado. Fez de tudo: procurou por esse mundo afora, subiu nas serras mais altas para invocar seu nome, desceu aos desertos mais secos, andou por esse planalto todo, foi para o sul, para o norte, cavalgou léguas e léguas, tudo em vão.
O Diabo não queria mais saber dele. Tinha enjoado. E quando o Diabo não quer mais saber de alguém, não quer mesmo.
O fazendeiro jamais mais se consolou. Foi emagrecendo, definhando, perdeu o gosto pela fazenda e pela vida.
Um dia amanheceu morto, com um tiro no peito do lado do coração, lá no pé da serra onde gostava de ver o pôr-do-sol ao lado de seu Lucibel, Luciluz, Lucifuge.

É uma história triste, não é? Mas foi assim que aconteceu.
A fazenda, abandonada pelo dono, o herdeiro ainda pequeno, definhou. A família perdeu boa parte das terras e do gado que tinha.
Mas não perdeu a educação. O povo que trabalha lá até hoje é gente finíssima. De muitas cortesias e gentilezas, como aquele ali.
Dá gosto ver.

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MARIA ANTÔNIA*

Carta anônima? Àquela altura de sua vida?
Suas mãos tremem um pouco ao pegar a colher para refogar o molho de tomate e manjericão do jantar. Sente um zumbido na cabeça, mas não é labirintite. Funcionária aposentada da Câmara, com filha criada, há muito acreditava que o tempo dos amores ficara bem, bem para trás. Não que tivesse tido muitos; mal teve um: o marido.
O marido que logo depois do casamento revelou-se o que seria pelo resto dos anos. Raivoso, como se algo permanentemente o consumisse por dentro. Trancado em si mesmo com uma porta sem chave. Não fossem os finais de semana no clube, desconfiaria que havia perdido o dom da fala. Mas conversar com os amigos, ele conversa. Só com ela a comunicação se restringe a resmungos exclamativos: “Você é um caso perdido, Antonia!”
Se ele soubesse das cartas de amor, o que faria? Não tem idéia. Abriria a boca em estupor, como no dia em que a filha veio anunciar que estava grávida? A queridinha dele, desde então proibida de entrar em casa. Como se tivesse deixado de existir. Poderia ter tido um enfarte, não fosse a saúde de jumento. Pelo menos isso ele tem de bom: não adoece. Quando também se aposentou, as amigas lhe disseram, “Agora você vai ver”. Mas até hoje ela não viu. Um jumento. Ainda bem que de doenças ele a poupa.
Se descobrisse as cartas, o mais certo é que daria a gargalhada que nunca dá: “Não pode ser pra você, Antonia! É engano.” Depois, no clube, faria o comentário que adora: “Só em Brasília acontece coisas assim! Carta anônima!? De amor! Para Antônia! Essa cidade é doida.”
E todos ririam dela, como tantas vezes riram. Dessa vez, talvez até ela risse junto. Se nem ela acredita!
Quando abriu a primeira, leu “Maria Antonia”, numa letra caprichada, parágrafos sem erros, concordância e ortografia impecáveis, e o assunto, Deus meu!, como foi perturbador! Como poderia ser a mulher da vida de alguém que nem conhece?
O que ele poderia saber sobre ela?
Muita coisa, pelo visto. Sabia onde morava, sabia da filha, sabia do marido. E assinava, “Quem te esperou a vida inteira”. Não era lindo? Podia ser anônima, mas como era bem escrita! E logo para ela! Pessoa tão aquém de seu tempo, sempre por fora, mesmo quando jovem. As moças de sua época conheciam a pílula, ela não. Casou virgem. Talvez a última mocinha a se casar virgem no mundo. Era do interior, educação à moda antiga. O último exemplar no mundo de uma educação antiga! Deviam exibi-la em um museu.
Aos 20 anos, enquanto sua geração jogava pedras nas ruas, ela dava de mamar à filha. Primeira e única. Que depois da briga, o marido nunca mais deixou entrar em casa. Nem o gosto de ver a filha, Antonia pode ter. Só escondido. Uma criança frágil que lhe deu tanto trabalho, e mesmo assim só queria saber do pai. A vida toda manteve a mãe a distância. Tudo de ruim que lhe acontecia era culpa de Antonia. O cabelo ralo, as espinhas da pele, as inaptidões físicas, as pernas finas. Por um milagre, não a culpou pela gravidez. Mas culpou depois, quando fez o aborto e quase morreu. Acusou-a de não ter enfrentado o marido quando precisou. O que não era verdade. Antonia enfrentou. À sua maneira, mas enfrentou. Até hoje enfrenta. Faz tudo o que pode pela garota, que vive lhe cuspindo na cara: “Ah! mãe! Que saco!”
Por que nunca se separou? Pergunta que a atormentou quase todos os dias de sua vida. Para as poucas amigas, dizia: “É do meu feitio.”
Mas a resposta era outra: medo. A única resposta para todas as não-escolhas que fez na vida: medo.
Sentada na cadeira da cozinha, olhar perdido, Maria Antonia balança a colher no vazio. O molho, esquecido, forma crostas mini-aluviônicas na panela em fogo baixo.
Nos anos de trabalho no Congresso, foi funcionária exemplar no cumprimento de horários e das obrigações. Entrou ali por conselho do pai – o marido não queria, mas o parco salário de vendedor fez com que engolisse o argumento do sogro que insistiu (“Aí onde você foi morar, todo mundo é funcionário público. Se você não quer seguir essa carreira, deixa Antonia.”).
Os melhores anos de sua vida.
Saía de casa, conversava com as pessoas, fez amizades. Naquele tempo houve também estremecimentos, paqueras, voltear de cabeças masculinas. Antonia foi bonita, um pouco sem graça, mas bonita: cor perolada, ossos bem formados, pernas formosas. Mas nunca permitiu que ninguém se aproximasse com outras intenções. Não que o marido merecesse, mas era do seu feitio, pensava. Embora também quanto a isso, ela soubesse: não era correção. Era seu terror particular, a vertigem, o desconhecido.
O molho na panela solta uns estertores, mas ela não ouve.
Será um dos antigos colegas de trabalho o autor da carta? Aquele moreno, quase negro, sério como ela, que lhe sorria quando ela passava? Disseram que ele foi transferido para o Estado do deputado com quem trabalhava. Talvez o vizinho do Bloco D. Esse muitas vezes tentou se aproximar, ela cortou. Está divorciado, contou a fofoqueira do 402. Ou será um dos amigos do marido, do clube? Se for, melhor esquecer; ela abomina todos eles. Um amigo de verdade faria isso? Acha que não, mas o que entende dos homens? Nada. Seu mundo sempre foi minúsculo. Suas opções, pouquíssimas. Ou ao contrário: suas opções foram poucas, e por isso seu mundo ficou minúsculo. Ovo ou galinha?
Tinha pavor desse enigma. Medo da resposta, que sabia.
Medo, medo. Essa, a resposta. Sempre
Medo do pai, primeiro; depois, do marido. Até de Brasília ela teve medo quando chegou, 22 anos, grávida. Tanta amplidão, para quê? Uma cidade que não caberia em nenhum outro lugar, criada para aquele espaço desmesurado do planalto, como se a natureza clamasse por esse tipo de cidade. Depois foi se acostumando, mas no começo não saía de casa. As coisas passando e ela incapaz de escapar.
Deixando a vida passar por medo.
De repente, levanta-se, Desliga o fogo. As crostas já estavam no estágio desesperado de se agarrar ao que pudessem, e um cheiro picante invade a casa. Dariam um trabalhão para limpar. Mas agora não tem tempo.
Vai até o quarto vazio da filha. Abre a última gaveta do armário, onde guarda seus lenços de seda. Nunca usa, mas tem paixão por eles. Lenços de cores e estampas variadas, tão suaves ao toque que a remetem de imediato a prazeres que desconhece. Tem certeza, agora: o desconhecido também pode ser suave e caloroso.
Um estranho impulso a move. Bem no fundo, debaixo dos lenços, as cartas anônimas. Oito.
Só uma aberta, a primeira.
Volta à porta e passa a chave. Ou lê as cartas agora. Ou nunca.
Na sua cabeça, a pergunta: será tarde demais?


* Conto publicado por primeira vez no Caderno Pensar do Correio Braziliense, em 25/6/2007

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4 respostas a Contos

  1. pedro disse:

    gostei muito,mas todos esse contos são do livro “uma cidade de carne e osso”?

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