Pequenino sobrevoo dos dias do 1° Encontro do Mulherio das Letras em João Pessoa

 

Tanta gente querendo saber como foi o Mulherio das Letras, que aqui vai uma espécie de resumo por alto. Por alto mesmo, pois como explicar um evento tão diverso e original? Com mais de 300 mulheres vindo de vários pontos do país (tantas que não consegui ver muitas que gostaria de ter visto), com enorme alegria, animação e disposição de abrir portas juntas?

Na primeira noite, a cerimônia de abertura com todas se encontrando para escutar a homenagem a Maria Firmino Reis, escritora negra, autora de “Úrsula”, considerado hoje o primeiro romance brasileiro. Duas professoras, Lenita Estrela de Sá e  Algemira de Macedo Mendes, que estudam a obra de nossa primeira romancista quase desconhecida, contaram quem foi ela, e a grande Conceição Evaristo ressaltou a importância de se ter uma negra abrindo o cânone das mulheres escritoras do país. Apoiadíssima. Depois, música; depois, dança; depois mais homenagens; depois, a cantora Socorro Lira, com voz e interpretação emocionada cantando os poemas de Maria Firmina que lindamente musicou.

No segundo dia e terceiro, as rodas de conversa se espalharam pelo espaço do Centro Cultural José Lins do Rego. Cada uma escolheu a roda da qual queria participar para discutir um determinado tema (democraticamente listado) e daí tirar seus consensos. Depois, mais performances, e noites de autógrafos de muitos livros, e recitais de poesia, e danças, e um tanto de coisa que foi impossível ver tudo.

Na manhã do quarto dia, o encerramento, com a apresentação das conclusões das rodas de conversas, e mais música, e mais dança, e a enorme alegria de ter feito algo que nos uniu e fortaleceu, sob a batuta de generosas organizadoras e voluntárias, tendo à frente Maria Valeria Rezende, Susana Ventura, Tati Fraga, Rosaly Senra e muitas outras cujos nomes não cito porque foi tudo muito espontâneo, criativo, e não dava para saber direito quem era quem na multidão diversa e agregadora. Aí estavam as escritoras negras com um papel relevante desde a mesa de abertura, e as escritoras morenas e brancas idem e idem. Faltaram as indígenas? Não tenho certeza, não vi. Sei que desde o início havia uma grande preocupação em chamá-las, e se não conseguiram participar dessa vez, certamente participarão na próxima, e enriquecerão o segundo encontro que será no Guarujá, cuja prefeitura ofereceu local e apoio.

Será que deu para começar a entender como foi?

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Sexta de crônicas: Atentados

 

A pele, nossa porosa muralha frente ao mundo, é a primeira a receber as pedradas do nosso gradual, lento e implacável envelhecimento. É ela. Não a culpada, mas a primeira vítima, com suas manchas e rugas pequenas e grandes. Logo, lenta e gradualmente também por dentro vamos envelhecendo. Na década dos 60 anos é quando isso fica cada vez mais perceptível. Com o peso do estresse, então, tudo se torna mais perceptível ainda.

Sei que temer o estresse aumenta ainda mais o estresse, mesmo assim tenho medo dele, o vilão de nossos dias. Tento me defender. A rigor, eu diria até que sou calma. Alguns me acham (imagine!) serena. Só eu sei que é falsa calma, serenidade aparente. De todo modo ajuda, creio. A aparência é sempre parte, ainda que superficial, da verdade.

E é então que no meio dessa reflexão sou interrompida.

Talvez você não acredite, mas é verdade. Mal acabei de escrever os dois primeiros parágrafos acima, tentando me entender com nosso inexorável processo de envelhecer, me esforçando para compreender como ele atua no intuito de aceitá-lo com o melhor dos meus ânimos porque hoje acordei mais ou menos disposta a encará-lo de frente, dizer tudo bem, vem cá, vamos ver direitinho o que você me reserva para que eu possa ir recebendo-o, não com alegria, jamais, seria muita hipocrisia da minha parte aceitar essa insanidade de querer revertê-lo e tomá-lo pelo que não é, chamá-lo de “melhor idade” me faz ter engulhos e vontade de chutar baldes, todos os baldes, desculpe, mas hoje meu esforço era o de tentar pelo menos recebê-lo, recebê-lo simplesmente, sem adjetivos, já que ele está insistindo mesmo em chegar, a cada mês me aproximando da morte – seu nome, envelhecimento, sinto lhe dizer, é sinônimo da aproximação natural da morte -, e era assim que seguiam meus pensamentos, depois de escrever os dois primeiros parágrafos desta crônica, nessa toada de resignação, de aceitar a vida como um continuum que um dia acaba, quando então meu telefone, que mantenho tolamente, equivocadamente, sadicamente ao alcance do meu braço achando que é mais prático, campainha de telefone para mim é como mandato imperial, não consigo escutá-la sem atender, e é então, continuo, que, depois de escrever aqueles parágrafos iniciais, a campainha guincha, interrompendo para todo o sempre o fio da minha meada.

Atendo.

“Olá”, diz a falsamente simpática voz masculina gravada, “você já pensou na importância de ter um seguro funerário?”

Quêêê?!!!

Bato o telefone; nem escuto o resto. Sou assim de educada com esse tipo de invasão doméstica, que lamentavelmente já me interrompeu, me contaminou, e me deixou com esse eco da palavra funerário perturbando minha manhã.

Marketing invasor é um atentado. Usá-lo como propaganda é um atentado. Leis que permitem isso são um atentado. Querer vender seguro funerário para quem está escrevendo sobre a aproximação da morte é um atentado. Encher a vida da gente de propaganda é um atentado. O capitalismo é um atentado.

E olha que sou aparentemente calma!

 

(Publicado em “O Popular”, 28/09/2017)

 

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Sexta de crônicas: Alto lá!

 

Rio Xingu

 

Imaginem sua casa ameaçada, o belo jardim pisoteado, o poço corrompido, seu modo de vida colocado em xeque?

Ou, mais especificamente: imaginem que o amado Araguaia dos goianos seja barrado em algum ponto do seu leito, sua vazão modificada, seus peixes contaminados, e sua água, de um lado do barramento se torne pesada pela morte e podridão das árvores de suas margens e seus peixes e, do outro, dependendo não das mudanças tradicionais das estações e sim de uma decisão alheia a de vocês, chegue a ficar tão seco que impeça a passagem de canoas, barcos e lanchas, a piracema dos peixes, a vida dos animais?

O que fariam?

Sem dúvida, reagiriam, indignados, e ergueriam céus e terras em defesa dos seus direitos.

Foi o que os Juruna (Yudjá) fizeram e continuam fazendo. Ergueram-se em defesa do seu rio, o Xingu, e de seu território, o Paquiçamba, reconhecido há décadas como terra indígena. E foi extraordinário o que conseguiram defender da destruição da Usina de Belo Monte, o “belo monstro” cujo projeto inicial pretendia muito mais do que efetivamente conseguiram.

 

Aldeia Muratu

 

Os Juruna (Yudjá) são um lindo povo moreno, orgulhoso, risonho, guerreiro, exímios nadadores e pescadores, conhecedores como ninguém das águas, recantos, pedras, correntezas e cachoeiras do seu rio. Cuidam da vida do Xingu como quem cuida de uma extensão de si mesmos. Separá-los ou conspurcar suas águas seria como decepar seus próprios membros.

Quiseram cometer esse crime de lesa-humanidade contra eles, que reagiram, se uniram, lutaram, e conseguiram vitórias dignas de quem tem segurança do direito inalienável de ter seu lugar no mundo. E continuam lutando pois entendem perfeitamente que o monstro continua atacando. Como agora está à espreita um outro projeto criminoso de construir ali mesmo, em suas margens, em terreno já comprado pela mineradora canadense Belo Sun, a maior mina de ouro a céu aberto do mundo.

 

Canoada 2017

Estive nessa região na semana passada, remando com os índios e um grupo de estudiosos, professores e ambientalistas, em uma canoada de cinco dias organizada pelo ISA – Instituto Socioambiental, passando por entre as correntezas de um rio com trechos quase secos, vendo alguns dos estragos evidentes deixados pelos impactos da construção da barragem principal e da usina já com parte em funcionamento. Mas vendo também os pedaços preservados: prainhas convidativas, esculturas de rochas negras junto a trechos da mata viva, da água viva, transparente e calidamente acolhedora, saboreando os peixes, admirando suas noites de lua cheia, seus amanheceres e entardeceres de pintura, e me perguntando como é possível que pessoas sem alma ousem destruir tantas beleza?

A discussão sobre a questão energética brasileira é de fundamental importância, sei disso, como sei também que a ciência criada pelo homem tem, hoje, condições de investir em fontes de energia menos destruidoras. Há alternativas para a destruição. É preciso investir nessas alternativas e parar com a prepotência autoritária de invadir o território alheio e destruí-lo como quem pisa e sai matando as flores de um terreno sem dono.

É preciso saber – quem ainda não sabe – que o território do Rio Xingu tem dono. Eles são guerreiros e se defenderão.

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 14/setembro/2017 – Fotos de Galiana Lindoso) 

 

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Do ofício de escritor

Escritor é bicho estranho. Faz coisas que pouca gente entende.

Um exemplo sou eu agora, saindo para uma canoada no Rio Xingu, aventura que inclui montar acampamentos em areia, dormir no chão, enfrentar carapanãs e um sol de torrar o couro cabeludo.

Por que estou indo?

Explico.

Para escrever nossos livros, nós, escritores, recorremos continuamente a nossas memórias, observações e, quase sempre – pelo menos no meu caso – a pesquisas. Feitas em livros, jornais, revistas, TV, Google, conversas. Qualquer lasca de informação serve. Um jeito de falar. Um nome. Uma foto. Qualquer coisa. Mas quando a gente se depara com um tema cruel e complexo como me deparei no romance que estou escrevendo agora, pode ser preciso mais do que isso.

É um romance sobre os expulsos, os desgarrados, os que perdem pai, mãe, casa, terra, ofício, país. Tem duas protagonistas: a mãe e a filha.  A mãe é uma das poucas sobreviventes da avalanche que, em 3 minutos, soterrou completamente a cidade de Yungai, Peru, com seus 20 mil habitantes, em 1970. A filha nasce em Altamira, em 1980, em plena movimentação dos povos indígenas contra a construção da Usina de Belo Monte e suas consequências.

Yungay, eu conheci. Altamira, não. E pela primeira vez ao escrever um romance, senti a necessidade de fazer meu “trabalho de campo”, ser antropóloga antes de ser escritora. Ou melhor: usar minha formação de antropóloga em apoio ao meu trabalho de escritora. Por isso, a ida a Altamira, e a escolha de ir guiada por quem, há anos, faz um excelente trabalho na região, o ISA – Instituto Socioambiental, a instituição que organiza todo ano essa canoada.

Quero conhecer os Juruna/Yudjá, os donos do rio; ver os estragos ambientais e problemas humanos criados pela construção da barragem; conhecer o Rio Xingu – sei que é belíssimo –; andar pelas ruas, bairros, bares e comércio de Altamira que, posso estar enganada, imagino de uma feiura ímpar. Cores, cheiro, vegetação, fauna, flora, comida, e muita conversa: é o que pretendo buscar por lá.

E para completar, farei a viagem em companhia da Gali, minha filha, bióloga, montanhista e, agora, canoeira. Alguém duvida que será uma maravilha?

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Uma gravação onde falo um monte de coisas

O Itaú Cultural gravou este áudio com o tema Escritora-Leitora onde falo sobre processo de criação, personagens, escritores que compuseram meu “hard-core” de escritora, influência da antropologia e da política em minha escrita, e um monte de coisas mais.

http://www.itaucultural.org.br/escritora-leitora-maria-jose-silveira

 

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Sexta de crônicas: Estamos todo em um Titanic

 

Lamento dizer a quem ainda não prestou atenção: nossas universidades públicas estão em perigo. A ponta desse iceberg já está abalroando a famosa, combativa e tradicional UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Voltei de lá há pouco. Fui participar do formidável XV Congresso Internacional da ABRALIC – Associação Brasileira de Literatura Comparada –, realizado ali em uma iniciativa quase heroica de resistência.

Digo heroica porque a UERJ está sufocada: seus professores e funcionários não recebem há quatro meses, as bolsas dos alunos estão cortadas e, mesmo assim, há um esforço hercúleo, contínuo, de não deixar a universidade parar e prejudicar seus estudantes. Professores e funcionários sem receber salários, unidos aos estudantes, resistem há meses para manter a universidade aberta e funcionando.

E se o caso dela – por depender de um governo levado à falência por uma quadrilha cujas façanhas criminosas arruinaram o Estado e a cidade do Rio – está sendo o primeiro a chegar a essa situação falimentar, a fila vem engrossando dia a dia. Olhem em volta e vejam como as universidades estão sofrendo.

Creio possível dizer que a maioria dos profissionais e cientistas brasileiros se formou em universidades públicas. Várias delas atualmente têm – e estão lutando para manter – um nível de excelência que é um dos raríssimos orgulhos de uma educação tão precária e cheia de problemas quanto a do nosso país.

Um dos maiores problemas que tínhamos – e cuja solução mal havia começado a ser encaminhada – era a falta de inclusão social. Algumas décadas atrás era verdade que a nossas universidades públicas chegavam, sobretudo, os ricos. Agora, felizmente, não é mais. A universidade se abriu para um sistema de cotas, ainda precário para sanar tanta injustiça, mas já capaz de começar a transformá-la: segundo o último censo feito pela ANDIFES, Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, seu perfil social mudou. Dois terços do quadro dos alunos têm origem em famílias com renda média de até 1,5 salário mínimo. Quase 50% dos estudantes se autodeclararam pretos e pardos. 52% são mulheres. 60% vêm de escolas públicas. 35% trabalham. 53% utilizam transporte coletivo para frequentar as aulas. Dizer que as universidades públicas atualmente são frequentadas só pelos ricos não condiz, em absoluto, com a realidade.

Será mera coincidência, portanto, que justo agora, quando está se tornando mais inclusivo, o ensino público superior, mais uma vez, esteja sendo atacado, e precisamente com o argumento hipócrita de que só beneficia os ricos? Ninguém precisa “chamar os universitários” para saber que, se começarem a cobrar mensalidade nas universidades públicas, elas voltarão a abrigar majoritariamente quem? Os ricos.

O abismo que ocorrerá se isso chegar a acontecer será um crime de consequências inimagináveis.

Em um país onde as universidades públicas são a porta mais importante para que seus cidadãos possam ter um futuro digno, não podemos ver esse iceberg começando a nos abalroar sem entender que somos nós que vivemos nesse Titanic. Sem um ensino de qualidade e gratuito para todos, é o nosso país, conosco dentro, que se afundará.

 

(Crônica publicada em “O Popular” em 17/agosto/2013) 

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Sexta de crônicas: Memórias de cor e classe

Aí pelos 7 anos, nas férias na casa da minha avó, em Jaraguá, conheci Jussara. Era amiga da minha prima Diva, e também pequena líder de outras meninas de pele cor de café, vestidinhos de chita, pés no chão, cabelos crespos, e uma independência que merecia minha admiração. Não só isso. Admirei Jussara também pela esperteza: campeã na finca e jogo de pedrinhas, exímia nas árvores e muros, andava autoconfiante pelas ruas da cidade que parecia levar na mão.

Quis muito ser sua amiga. Mas desde o momento que me viu, Jussara foi hostil comigo. Não me queria nas brincadeiras. A menina branquela e sardenta, cabelo quase crespo mas castanho, vinda da capital, não faria parte de seu grupo. Diva entendeu aquilo como briga à toa, mas se eu não podia brincar, ela também não. Diva sempre foi protetora dessa sua prima pamonha. Para mim, no entanto, a hostilidade e raiva que vi nos olhos e gestos da menina de quem eu queria tanto ser amiga foram incompreensíveis. Nunca tínhamos sequer trocado uma palavra! O que eu teria feito contra ela, sem me dar conta? Era amiga da minha prima porque moravam na mesma cidade?

Em outra ida a Jaraguá, fiquei sabendo que ela havia morrido de tétano. Pisou em um prego enferrujado. Claro que já tínhamos escutado falar de tétano, mas nunca de criança morrendo por causa de um prego.

Mas por que pensei nisso agora?

Especulo. Sei hoje que ela era negra. Sei que seu vestidinho de chita não era considerado bonito. Que seus pés descalços talvez estivessem desprotegidos por falta de sapatos. A vida deve ter lhe ensinado na pele, e bem cedo, as desigualdades que sofria. Não sei se era mais velha ou não, mas certamente conhecia mais o mundo. Hoje tenho vários e queridos amigos negros, mas Jussara talvez já soubesse que, pouco importava querer ou não, dificilmente seríamos amigas naquele momento, e na pequena cidade onde a família dela estava de um lado, e a minha de outro.

E aconteceu que outro dia, participando de uma mesa de debate sobre literatura, quando uma escritora negra citou como exemplo de racismo um mendigo negro não poder entrar em um shopping, eu disse, um tanto canhestramente – passo longe do dom da oratória –, que esse era um exemplo mais adequado para uma questão de classe, já que um mendigo branco tampouco poderia. É preciso reconhecer e lutar ferrenhamente contra o racismo da sociedade em que vivemos, mas também é imprescindível reconhecer e lutar contra a sociedade de classes onde o pobre, seja qual for a cor de sua pele, é tratado com desigualdade e injustiças.

No final do debate, uma jovem de pele menos escura do que a de dois dos meus irmãos, cabelo menos crespo que o meu, me interpelou na saída, por ter dito o que eu disse: privilegiada como sou, jamais poderia entender o sofrimento dos negros.

Pensei ver nela uma nova Jussara, e uma tristeza grande me afligiu. Quase 60 anos depois, e aprendemos tão pouco! Brancos e negros, e brancos e negros pobres, quantas injustiças, absurdos e incompreensões continuam fortalecendo essa separação!

Por isso voltei tão longe no passado: para mais uma vez lamentar uma amizade que não foi possível.

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Sexta de crônicas: Ainda quero ficar aqui

A sensação de continuar vendo a desconstrução cotidiana deste país é deveras amarga. A cada dia um chute, uma martelada, a mala que sumiu, a gravação que nada significou, um troca-troca de votantes, ondas que rebentam contra nossa moral e nossas instituições. Tudo mudando para pior.

Por consequência, também na cidade onde moro, tudo vai ficando pior.

Até o pobre chafariz que engrandecia a vista da minha janela ficou feio. Antes, era um chafariz digno desse nome, jatos fortes levantando a água a uma boa altura, palmeiras imponentes de cada lado. Dava para ouvir o murmúrio da água como se fosse chuva. Um encanto da cidade.

Com a crise da água, ele foi desativado. Durante algum tempo serviu de piscina para os meninos de rua, e de recanto para lavar roupa de desafortunados. Já não era bonito, mas era alegre. As brincadeiras dos meninos no arremedo de piscina, e as roupas coloridas penduradas no cimento das amuradas, eram, tirando seu lado de flagrante desigualdade, sinais de vida.

Este ano, reformado, virou outro. Em vez dos potentes jatos de água, uns jatinhos medíocres, quase obscenos, iluminados por pequenas lâmpadas que o envolvem, como um acanhado bolo de noiva do século passado. Sintam o contraste: o chafarizinho kitsch na calçada da avenida à entrada do túnel sobre o qual ergue, grandiosa, a beleza do traço arquitetônico de Lina Bo Bardi e seu museu, admirado no mundo inteiro.

A todo meu desalento com tudo que vem nos acontecendo, somou-se, agora, o desgosto de ver um exemplar da estética doriana conspurcando a visão da minha cidade.

E não. Não quero falar do número crescente de sem-teto dormindo ao vento do vão do MASP; dos crackeiros agora espalhados por vários locais; das ruas e calçadas esburacadas; dos parques mal cuidados; do conhecido catador de lixo em Pinheiros, bairro de classe média, morto com três tiros no peito em plena rua, no começo da noite, por policiais doidos para matar pobre; do climão ruim que anda pairando sobre nós como uma sombra pesada. Por dá lá aquela palha, você ofende alguém que pode vir com três pedras na mão: da política, do racismo, do machismo. Falar ficou perigoso. Escrever, então, nem me diga.

Tem gente que nunca falou, mas agora fala em mudar de país. Ainda não é o meu caso. Pelo menos, por enquanto. Mesmo porque seria difícil achar um lugar. Quando nos sentimos forçados a sair da terra onde nascemos e onde vivem aqueles que amamos, não é fácil achar um lugar.

Decidi, então, que vou fazer justo o contrário. Vou conhecer regiões do país que não estavam na minha agenda. Vou para Altamira, no Pará, onde estão o Rio Xingu e a famigerada Usina de Belo Monte. Participar de uma canoagem organizada pelo ISA – Instituto Social Ambiental – e conhecer o rio e os povos indígenas cujas terras estão em suas beiradas.

É possível que eu volte com um gosto até mais amargo na boca. Seja como for, verei o Xingu antes que ele acabe.

 

(Crônica publicada em “O Popular” em 20/07/2017)

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Descoberta de um amigo insone

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Sexta de crônicas: A vez dele

 

Quem é aquele ali, cara de japonês?

De terno, postura de funcionário, no banco junto à mesinha de cimento. No canto cercado de árvores. Há duas semanas, toda manhã ele aparece. Senta-se, e antes de colocar a pasta preta ao lado dos pés, tira um reles saquinho de plástico, e de dentro dele um cachimbo, um limpador, um saquinho de fumo e um isqueiro. Com calma de profissional, faz todo o ritual do fumante: tira os resíduos com o limpador, bate a ponta na quina da mesa, tira o fumo do saquinho, sente-o nos dedos, cheira, enche o cachimbo, aperta o fumo com o dedo, acende-o com a primeira chama do isqueiro. Cachimbo na boca, volta à pasta preta para dela tirar o tablet. Liga-o. Mas não lê. O olhar se ergue para o vazio.

Pode-se jurar que está em intervalo do trabalho, aproveitando para curtir o prazer solitário de cachimbar sossegado.

Mas intervalo às 9 da manhã?

O que o coitado do japa faz ali é ruminar sua vergonha. Como contar à mulher que agora é um dos 14 milhões de desempregados do país, um recorde do qual jamais imaginara fazer parte, logo ele, trabalhador sério, minucioso, produtivo. Elogiado, candidato a promoções? Como enfrentar os olhos dela, a humilhação que sentirá frente às amigas? Eles serão a vergonha do bairro, motivo de fofocas, especulações sobre sua responsabilidade. Não foi justamente o que aconteceu quando o vizinho, três casas acima, teve que voltar para o interior, trabalhar com o irmão? Deram-lhe parabéns pela decisão sensata, tapinhas nas costas, mas por trás repetiam, Coitado! Demitido! Claro que o vizinho deu todas as explicações, injustiça grande, maldita crise e malditos políticos que só fazem levar o país ladeira abaixo. Mas alguma coisa terá feito para merecer a demissão, concordaram entre si o grupo dos amigos, amigos, não, vizinhos do bairro, ali ninguém é amigo, é vizinho. Alguma coisa ele fez, ou não deu conta de fazer, disseram. Não chegaram a formular a palavra “perdedor”; felizmente essa palavra ainda não entrou no vocabulário comum do brasileiro, mas no fundo era o que pensavam. Que uma demissão sempre é merecida. Ele também. Como iria adivinhar que sua vez logo chegaria?  A vez de enfrentar a mesma vergonha.

Os vizinhos formam com ele um grupinho que todo dia sai à mesma hora para o trabalho. Todos de terno. O que tem carro dá carona para os outros até o metrô. Dali, cada qual pega sua direção. Ele pega a linha verde para a Paulista. Nos finais de semana se veem na pracinha. Rapidamente. Não têm muito assunto. As mulheres, sim, são amigas. Não trabalham; cuidam da casa e dos meninos. Eles é que são os provedores, os responsáveis; os que fazem a vida seguir.

Mas agora, o que fazer com essa mancha?

O cachimbo está quase no fim, quando uma espécie de raio o atinge, e ele quase perde a compostura.

E se os vizinhos também estiverem fingindo como ele? Fingindo que todo dia saem de casa para trabalhar?

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 22 de junho de 2017)

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