Quinta de crônicas: “Não sou escravo de nenhum senhor”

Publicado por Tiago Botelho em Domingo, 11 de fevereiro de 2018

 

 

Sou do tipo da carnavalesca que não sai de casa, não vê desfile na televisão, nem consegue cantar nenhum samba-enredo, com as raras exceções dos que viraram clássicos, como o que exalta o rio azul da Portela e o que fala das mangueiras de um morro verde-e-rosa.  E me digo carnavalesca só por um motivo: ainda que de longe, vejo grande beleza nessa festa eufórica, nossa alegre dessacralização do que deve ser dessacralizado. Acho bonito. Acho importante. É parte de nossa cultura viva. Aplaudo.

Dou minhas credenciais logo de cara para que não me julguem uma expert quando eu lhes disser que, aqui do meu canto, percebo com toda a claridade o que todo mundo está percebendo: o carnaval do Brasil mudou. Mudança que começou de uns três/dois anos pra cá, levando outra vez o carnaval para as ruas e até conseguindo em São Paulo – agora ex-túmulo do samba – juntar milhões de pessoas nas ruas, com trios elétricos ou nos blocos mais variados, e nos mais variados bairros e lugares.

Desses três/dois anos pra cá, o carnaval tomou conta de cidades onde antes ele passava ao largo. Cidades que nunca tiveram tradição de carnaval, como essa mesma São Paulo – justificadamente chamada então de túmulo do samba – ou como nossa Goiânia onde, pelo que me lembro, o carnaval só era visto entre as paredes e muros dos clubes. Pergunto: estou enganada? Acredito que não. Ou, então, quando menina e adolescente eu era cega.

Escrevo esta crônica na segunda de carnaval, neste ano de 2018, e confesso que estou muitíssimo animada aqui da minha janela, vendo blocos passarem com músicas de todo tipo (já não apenas as marchinhas que, aliás, são todas antigas, ou então fiquei surda). Qualquer música hoje – funk, axé, forró, tum-tum-tum, o que for – vira música de carnaval, em total aceitação de nossa diversidade musical.  Melhor ainda, assisti – com enorme alegria – todo o surpreendente desfile da Paraíso do Tuiuti, com seu samba fácil de aprender e que já entrou no meu rol dos clássicos. Abram alas para tanta criatividade, meu povo! Colocar reforma da previdência, paneleiros com camisas da CBF e nariz de palhaço montados nos patos da FIESP e manipulados pelas mãos monstrengas da mídia só pode ser coisa de gênio. Lembrei Joãozinho Trinta e seu desfile revolucionário, levando mendigos para a avenida. O que foi fichinha, se comparado a colocar carteiras profissionais para dançar como escudos frente à precarização do trabalho que estamos vivendo. Não à toa as arquibancadas se levantaram e aplaudiram, cantando/gritando o samba, criação coletiva de Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Aníbal e Jurandir.

Não é nada, não é nada, mas é muita coisa! Acho admirável. O povo brasileiro, seu lamento e seu protesto, sua fome e sua música, sua dança e seus direitos, sua alegria e seu modo de mostrar que não está nada satisfeito.

E que viva o carnavalesco Jackson Vasconcelos capaz de colocar na avenida o rosto do Brasil contemporâneo!

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 15/2/2018)

Esta entrada foi publicada em Crônicas e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *