Sexta de crônicas: Amém

 

Mãe Chica e Maria preparam-se para dormir quando escutam batidas fortes na porta, e a voz de Nice gritando os nomes delas.

– O que aconteceu? – perguntam, abrindo a porta e fazendo-a entrar.

– Ele matou a Leide – Nice soluçou. – O maldito do Vanderlei. Na frente dos dois filhos! Tá foragido. Vim te buscar pro velório, Maria.

Mãe Chica foi junto. Gostava muito da mocinha miúda, amiga da filha há tanto tempo. Ajudaram as vizinhas a vestir o corpo frio que os policiais liberaram depois da autópsia. A mãe de Leide se agarrava ao corpo da filha, querendo partir com ela, os dois meninos na casa de uma vizinha.

O assassinato fora de manhã, antes que ela saísse para vender tapiocas, o que fazia desde que o marido ficou desempregado. Época em que ele começou a encher a cara de manhã à noite e a tratá-la a tapas, quando Leide voltava da feira. Em vez de ficar agradecido pela mulher colocar comida na mesa, aumentava o inferno da casa. “Quer me fazer de besta? Pensa que sou cego? Sei bem o que tu vende, lacraia!  É tudo menos tapioca. O dia que eu te pegar tu vai tá morta.” Um dos meninos, o menorzinho, se escondia atrás da mãe, o maior se punha na frente.  Os três apanhavam até o pai cair na cama e pegar no sono ruminando ódio.

Na manhã seguinte, no enterro, poucas pessoas. Maria viu Saião que ficou de longe. Depois que o caixão baixou, ele sumiu. Tinha namorado Leide quando adolescente. Foi quem a apresentou para o amigo Vanderlei. Ninguém sabia o que estaria se passando por sua cabeça.

– Bem que Saião podia pegar o canalha e entregar pra polícia. Num dá mais pra ver marido matando mulher – e a raiva saía no cuspe da boca de Nice.

Maria estreitava os olhos, torcia as mãos. O que fazer com essa raça de homens? Como fazê-los entender?

– Quem casa errado nem em casa está a salvo – soa baixinho a voz de Mãe Chica, apressando os passos para se afastar da roda, voltar direto para casa e retomar a serenidade de suas coisas. Sua pequena sala arrumada, suas panelas brilhando de limpas, seu fogão sempre coberto com forrinhos que ela mesma borda, os panos de prato de saco de aniagem também branqueados por ela e bordados com os nomes dos dias da semana, e sobretudo no quarto com poucos enfeites, seus santos perto da cama coberta com a colcha bonita que a filha lhe deu.

Ajoelhou-se e rezou.

“Por Leide, pelos seus filhos agora órfãos, por todas as mulheres assassinadas da cidade e os órfãos que deixaram; por Maria e seu noivo, Jurandir, que ele continue sempre um bom homem e trate minha filha com amor é o que humildemente lhe peço minha Nossa Senhora da Boa Ajuda, minha santinha poderosa que tudo vê e também foi mãe, amada pelo esposo e pelos filhos, e que nunca jamais sofreu nenhuma violência apenas por ser mulher. Amém.”

 

Crônica publicada em “O Popular”, em 18/01/2018

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