Sexta de crônicas: As certezas que podemos ter

Novo ano, novo novo novo. Fixemo-nos nesta palavra novo, e pensemos na adorável mentira que, por si só, ela nos traz ao nos fazer pensar que estamos abrindo uma nova página intacta e branquíssima em nossa vida neste novo janeiro. Essa, justamente, é a primeira certeza que podemos ter do que nos acontecerá neste novo ano: continuaremos, candidamente, acreditando em belas mentiras. Bem contadas e respaldadas no simbólico (como essa), mal contadas ou mal contadíssimas, como as que abundaram no ano que passou. Muito acreditarão. Sobretudo quando forem, mais outra e outra vez, bombardeados com elas pela grande mídia. Acreditarão. Acreditaremos.

Outra certeza: o chocolate amargo, aquele composto com pelo menos 70% de pó de cacau, continuará nos trazendo coisas infinitamente boas, tais quais: proteção ao coração, diminuição da pressão sanguínea e do colesterol, riqueza de antioxidantes e – bem conhecida nossa, os chocólatras – uma interessante sensaçãozinha de bem estar. Que delicioso alívio saber que isso continuará a nos acontecer!

E, sim, continuaremos a nos espantar com grandes e pequenas coisas. Para citar um exemplo, conto o que acabei de descobrir hoje sobre a nossa própria voz. A diferença que existe entre o som que nós mesmos escutamos quando conversamos e o som que os outros escutam. É a mesma diferença que percebemos quando escutamos a nossa voz gravada e sentimos que ela está levemente estranha. É mesmo a nossa voz? Sim, é. O som da voz que vem da gravação nos chega conduzidas apenas pelas ondas do ar. Quando falamos, no entanto, o som que produzimos nos chega não apenas pela condução do ar como também através da materialidade do nosso corpo. Nossas cordas vocais emitem vibrações que alcançam os nossos ouvidos através dos nossos ossos, carne, e da acústica do nosso cérebro. É a voz que nós – e só nós – escutamos. Quem nos ouve escuta apenas o som conduzido pelo ar, aquele mesmo som que também escutamos ao ouvir nossa levemente estranha voz gravada.  O que continuará a acontecer exatamente assim no ano vindouro. Não é espantoso?

Outra certeza que podemos ter: para corrigir um erro é preciso, primeiro, reconhecer que erramos.

Outra – e talvez a mais importante – é que continuaremos, no fundamental, sendo quem somos. Mesmo com nossas pequenas incertezas e grandes mudanças. É certo que muitos de nós mudarão bastante – o que, sendo para melhor, será ótimo. Outros, infelizmente, mudarão pouco. Continuarão com suas velhas e desgastadas certezas, olhando o mundo com a incompetência de sempre. Pobre deles! Outros mudarão de maneira quase imperceptível, achando até que não mudaram – e tudo ficará como antes.

Ah, sim: ratos e gatos continuarão sua eterna peleja enquanto o sol e a lua farão, serenos, os mesmos périplos pelos céus.

Agora, além dessas, francamente, estou fraca de certezas. Teremos eleições? Serão legítimas? Haverá alguma possibilidade de correção dos danos feitos ao país?

Ou continuará tudo um grande salve-se quem puder?

Taí  questões sobre as quais nenhum de nós pode ter total certeza.

 

Crônica publicada em “O Popular”, em 4/1/2018

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Uma resposta a Sexta de crônicas: As certezas que podemos ter

  1. Izilda Bichara disse:

    Belas reflexões. Por onde andará mesmo o novo? Sem clareza, sem forças, sem respostas, vamos tentando sobreviver nesse mar tão certo de incertezas, buscando a todo momento a boia fugidia da esperança. Que 2018 represente algum avanço!

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