Sexta de crônicas: Uma voz distante daqui

Não é toda noite, mas com frequência acordo na madrugada com uma voz no ar que chega até meu quarto. Não é um canto com letras. É som. Nem alegre, nem triste, nem ode, nem lamento: apenas som. Parece vir do fundo do lugar no corpo humano onde nasce a música.

Não sei quanto tempo dura, porque volto a adormecer.

Não sei de quem é: minhas janelas têm cortinas pesadas e a sonolência da madrugada me impede de ir até lá, abri-las e tentar ver no escuro da noite a quem ela pertence.

Lá fora é uma praça, de fato um largo por onde passa um viaduto, uma grande avenida, e árvores frondosas nas ruas contornando a pequena praça. Seria difícil discernir onde está a pessoa dona dessa voz que intuo masculina.

Provavelmente é de um sem-teto, há muitos sem-teto dormindo por aqui.

O que sei com certeza é que é forte e livre essa voz, sem paredes que a impeça de se espalhar pelo largo e chegar até mim, no alto de um 11º andar, em um quarto com cortinas blackout.

Seja como for, seja de onde vem, é linda.

Penso que é mais um privilégio desse lugar onde moro. Poder ouvir na madrugada a música fluir como se de uma fonte misteriosa de beleza.

Penso em seu dono.

Com certeza um sem-teto, como disse antes. Terá sido cantor?

É provável.

Imagino a vida que teve, suas alegrias e infortúnios incorporando-se à sua música e fazendo dela sua forma de se colocar no mundo, de saber quem é. O dom que hoje ele preserva com mais garra e confiança. É preciso muita confiança na própria capacidade de produzir beleza para soltar a voz como ele solta, sabendo que seu auditório é composto por pessoas que dormem. Confiança para saber que, se não forem completamente obtusas, reconhecerão não terem sido acordadas em vão.

Nos momentos em que o escuto, sempre penso que no dia seguinte procurarei debaixo do viaduto quem, dos que dormem ali, é ele, o dono da voz magnífica. Direi o quanto, mesmo em minha sonolência, fico deslumbrada.

Agradecerei.

Quando o dia amanhece, no entanto, adio essa procura. Talvez querendo preservar o mistério. Ou pensando que qualquer hora dessas ainda faço isso. Ou não. Talvez o melhor seja realmente permanecer bem-aventuradamente ignorante de quem produz esse som encantatório que voa na madrugada e ajuda a criar a magia possível em uma cidade grande.

 

Crônica publicada no jornal “O Popular” em 21 de dezembro de 2017

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