Sobre o Rio de Janeiro, Rubem Fonseca e “Felizes Poucos”

Maria Lucia Felix Bufáiçal é uma excelente escritora que publica suas crônicas, como eu, no jornal “O Popular”, de Goiânia. Hoje ela comenta generosamente o meu livro de contos, “Felizes Poucos” que, com sua permissão, republico aqui.

Os Rios, os livros, a vida

De repente, esse Rio, ferido de todo jeito, alquebrado, mas vivo, pulsante, inteiro. Cidade que é carícia e dádiva.

Além de estar realmente aqui, passando uns dias, ainda, por acaso, achei no apartamento um livro de Rubem Fonseca (Romance Negro e Outras Histórias), um dos escritores brasileiros modernos que mais escreveu com o Rio de Janeiro de permeio: tudo que ele narra acontece aqui, e os personagens, com pouquíssimas exceções, são cariocas. Só que nesse livro ele fala de uma cidade que conheço muito pouco, que é o Rio do Centro, do Catete, da Glória; das avenidas Rio Branco, Presidente Vargas; das ruas adjacentes. Os tipos: os moradores de rua, as prostitutas, os cafetões; os meninos desamparados, as noites de frio debaixo das marquises, os degredados filhos de Eva, as muitas misérias. Numa comparação, como diz a Aparecida, numa comparação, eu mesma nasci em Botafogo, num hospital que já desapareceu, acho; morei depois em Santa Teresa, num internato de freiras, lá no alto, como se já nos preparássemos para subir aos céus. Mais tarde, quando vinha de férias, me hospedava com minha amiga, Maria Luiza Xavier de Almeida Borges – hoje, uma das melhores tradutoras do Brasil -, em Copacabana. Já me hospedei também em Laranjeiras, na casa de meu tio Afonso; casada, morei o tempo todo em Ipanema, e sempre acabo voltando pra cá. Existe um caráter e um perfil pra cada um desses bairros e dessas ruas, como acontece em muitas cidades grandes do mundo. Minha experiência do Rio é mais desses traçados de Ipanema, das praças, da praia daqui. E esse bairro, a meus olhos, está como sempre esteve, à parte algumas mudanças pontuais – uma loja que mudou de dono, um sobradinho que virou curso de inglês, coisas assim. Ipanema está alegre e cheia de gente bonita, como sempre (passo pela porta do prédio em que morei, procurando alguém que já fui, cheia de sonhos. E penso: mas que viagem quero fazer, a de dentro ou a de fora? Porque se for a de dentro, devo esperar que a dor passe, para eu prosseguir). E quando não estou na praia ou passeando, fico em casa lendo. Entre outros, trouxe comigo o livro de contos de Maria José Silveira, “Felizes Poucos”, lançado no ano passado e que ainda não havia lido. Muito bom. Um mergulho na alma dos que lutaram contra a ditadura no Brasil, as situações que viveram, as reflexões que faziam, as contradições que enfrentavam dentro dos movimentos clandestinos, da luta armada. Um livro corajoso, especialmente por falar de um tempo que muitos preferem esquecer e alguns até parecem querer reviver: a ditadura militar no Brasil. A truculência absurda da repressão, a brutalidade. Tudo que até hoje, nesse mesmo momento, continua existindo de muitas outras maneiras, pois a injustiça nunca cessou, nem a crueldade da diferença. Belo livro, e necessário.

Olho agora o mar tão lindo, as pessoas andando, entrando na água, rindo, essa imensidão de luz, tão longe desse mundo que a autora penetra, e também das outras vidas que Rubens Fonseca descreve.

Encontro-me dentro de um cartão postal, sei disso. Bem distante dos calabouços dessa vida, bem distante das sarjetas e becos dessa cidade, bem longe da tristeza dessas histórias. Como se não existisse a pátria amarga Brasil, o país sórdido e paupérrimo, um outro mundo.

E leio tristemente, no jornal aberto por acaso, que o souvenir, a lembrancinha que os turistas mais estão comprando, aqui no Rio, nesse começo de verão, é um mini fuzil.”

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Uma resposta a Sobre o Rio de Janeiro, Rubem Fonseca e “Felizes Poucos”

  1. Branca Claudino de Mesquita disse:

    Belo texto

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