Sexta de crônicas: Na Estrada

 

 

A noite pega os dois longe do destino. Cansados, decidem pernoitar no primeiro local que encontram, um posto-dormitório de caminhoneiros.

No pátio, sem contar o Fiat deles, só caminhões estacionados, muitos, e no salão do restaurante, só homens, pelo menos à primeira vista, só homens, e muitos, testosterona e rudeza preenchendo o ambiente.  “Serão uns 100?”, Maria pergunta a Jurandir que responde, “O quê?” “Os homens.” “Exagero, máximo uns 60.” Mas tampouco ele sente-se à vontade, um estranho ali, lugar perdido no descampado, há bem meia-hora atrás eles não viram outro lugar onde parar.

Serviram-se no balcão self-service a comida sem graça e bruta, feita para profissionais da estrada, pediram uma cerveja, “Bem gelada, por favor”, acrescentou Maria ao atendente sem atentar na impossibilidade de seu pedido. Famintos, comeram o que conseguiram, mas na cerveja morna o único que tocou foi Jurandir, e pouco. Maria ainda tentou, “O que está mais gelado, o guaraná ou a coca cola?” “Só tem Crush”, respondeu o rapazinho. Ela pediu água.

Comeram rápido, sem pensar em sobremesa nem café, prontos para se espichar em uma cama, para algo havia de servir o cansaço do dia. Quando já iam pedir a conta, entra por uma porta nos fundos uma mulher de vermelho e colarzinho de contas brancas que sobe com discreta elegância em uma espécie de palco armado que só agora os dois notavam. Ela tem um microfone na mão, ligado a um aparelho de som que começa a tocar o acompanhamento de uma dessas melodias que falam de tapas, beijos e dor de corno. Mais homens, saídos não se sabe de onde, aparecem e se aproximam do pequeno palco de copo na mão. Maria pensa, aí estão as cervejas geladas.

E eis que a voz da mulher se ergue como um vento incongruente que parece varrer aquele fim-de-mundo. É extraordinariamente bonita. Os homens calam-se, e além da música não se ouve sequer o barulho dos talheres, nada, tudo ao redor silencia frente à voz surpreendente.

Quando a mulher faz uma pausa, Maria pergunta ao atendente que ficara como hipnotizado ali ao lado, “Quem é ela?”. “Dona Clélia, esposa de Seu Aristides, aquele ali” – aponta para um caminhoneiro troncudo que olha para a cantora com adoração. “Ela viaja sempre com ele, e quando passam por aqui, pede pra cantar. É por causa do palco – nem todo lugar tem palco,” ele diz com orgulho. “Tem quem diz que o palco foi feito pra ela. Pelo Seu Amâncio, o dono daqui” – e aponta, sentado lá no fundo, um senhor gordinho que, mesmo de longe, lança ao palco um olhar embevecido.

E só bem mais tarde, a magnífica Dona Clélia, em seu vestido vermelho absolutamente decente, despede-se por estar muito cansada depois de atender a vários pedidos de bis daqueles homens embrutecidos pelo cansaço e ainda assim capazes de escutar quase com reverência ao dom precioso de uma voz que inesperadamente canta dentro da noite em uma estrada.

 

Publicado em “O Popular” em 08/12/2017

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