Uma voz distante daqui

Não é toda noite, mas com frequência acordo na madrugada com uma voz no ar que chega até meu quarto. Não é um canto com letras. É som. Nem alegre, nem triste, nem ode, nem lamento: apenas som. Não sei quanto tempo dura, porque adormeço ouvindo-a. Não sei de quem é: minhas janelas têm cortinas pesadas e a sonolência me impede de ir até lá, abri-las e tentar ver no escuro da noite a quem ela pertence. Minha janela dá para uma praça, de fato um largo por onde passa um viaduto e uma grande avenida. Seria difícil discernir onde está a pessoa dona dessa voz que intuo masculina. Provavelmente é de um sem-teto, há muitos sem-teto dormindo por aqui. O que sei com certeza é que é uma voz livre, sem paredes que a impeça de se espalhar pelo largo e chegar até mim, no alto de um 11º andar, em um quarto com cortinas blackout.

Seja como for, seja de onde vem, é linda.

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