Sexta de crônicas: Domingo pede cachimbo

           Caminhar pelo parque depois da chuva, respirando o ar que acabou de se banhar, sentindo cheiro de terra molhada e pisando nas folhas caídas no chão é o mais perto da natureza que posso chegar saindo de casa a pé, sem planos na cabeça a não ser caminhar, deixar a mente em paz, ela que está super desconcentrada, bom seria poder lhe dar um descanso, esvaziá-la, observar apenas essa minúscula natureza nesse trechinho meio que escondido, onde ainda não apareceram os enfeites do Natal, mas que adianta?, semana que vem já tem amigo oculto, o que levar dessa vez?, e pros meninos, então, o que dar este ano praqueles três, todo dezembro a mesma obrigação de resolver isso, bem fazia mamãe que já começava a comprar os presentes em janeiro, felicidade deve ser isso, chegar no Natal sem ter que pensar no Natal… Eca!, quase piso nesse cocô de cachorro! Como está odiento o desleixo desse parque, Doria, Doria!, é essa a sua Cidade Linda?! Não tem natureza que aguente! E tem sem-teto novo no parque, grandão, alto, barrigudo, tentando fazer exercício na trave, claro que não vai conseguir levantar o corpão, mas não desiste, continua, e mais adiante os jovens se vestindo e maquiando de palhaço ocupando as mesinhas de sempre, hoje são mais, em geral ocupam duas mesas, hoje estão ocupando três, acho divertida a aprontação deles, e Oi, Solange, bom dia!, cumprimento a sem-teto que há meses conseguiu se alojar na pequena área coberta onde empilhou suas caixas bem envolvidas em plástico e ocupou o banco onde dorme e vive, sempre de celular na mão, às vezes conversamos mas nunca lhe perguntei se é com  jogo, conversa no Facebook, ou leitura de jornais que ela se entretém, e não vai ser hoje que vou perguntar porque não vou parar, fiz pouco exercício esta semana, mal fui à ginástica e quase não caminhei por causa da chuva, e dou outra volta passando outra vez pelo gordo que agora parou de tentar se erguer nas traves e está dizendo, “Não é porque a pessoa é sem teto que deve ser desleixado, tem que se cuidar, exercitar, fazer meditação, tomar muita água, cuidar da saúde, que saúde é a coisa mais importante que a pessoa tem”. Custo a perceber que ele está falando sozinho e me dá até vontade de parar para escutar sua fala inesperada, mas é como ele mesmo acabou de dizer, é preciso exercitar e caminhar é meu exercício, então continuo, passando pelo segurança a quem resolvo perguntar só pra, sei lá, exercitar também as perguntas vãs, “O senhor pode me explicar porque este parque está tão sujo ultimamente?”, “Isso não é conosco, senhora, somos só segurança”, “Hoje tem até cocô de cachorro no passeio ”, digo consternada, ao que ele responde com a paciência possível a um cara de pau-mandado, “Isso já é da consciência de cada um, senhora.” Sem mais comentário, sigo caminhando porque nisso ele tem razão mas não quero dar meu braço a torcer para quem está mais preocupado com os jovens palhaços do que com a inevitabilidade de alguém pisar naquele cocô, e só espero que quando isso acontecer – e acontecerá -, a voz da pessoa esbravejando  seja capaz de agitar todo o parque, o que é possível já que o parque é mini, fica no antigo quintal de um casarão derrubado da Paulista cujo proprietário conseguiu preservar seu minúsculo fragmento particular de mata atlântica que por algum milagre até agora não foi derrubado, mas quer saber? Chega de natureza. Vou é caminhar pela avenida que hoje é toda dos pedestres.

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 23/11/2017)

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