Sexta de crônicas: É primavera, Madá!

Juro que eu estava planejando curtir meu sábado sem pensar em nada a não ser na primavera, estação de sol dourado e brisa leve, aves gorjeando, verde cobrindo galhos ressecados que o inverno despiu, natureza celebrando o que é direito seu celebrar, perfumes, flores, povo feliz!

Mais eis que, por força do hábito, abro o jornal e, inadvertidamente, vejo o retrospecto da semana.

Ei-lo:

– em pleno século XXI, voltou-se a discutir o que é escravidão, em dois momentos surreais: a famigerada portaria do trabalho escravo (encomenda dos mais retrógrados ruralistas), e a ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, tentando furar o teto constitucional dos salários dos órgãos públicos, afirmando que, “sem sombra de dúvida”, vive uma situação semelhante ao trabalho escravo, já que o governo a impede de ganhar os R$61,4 mil que lhe seria devido acumulando o que recebe como desembargadora aposentada, com o que recebe como ministra;

– o risco de 1,5 milhão de servidores estaduais ficarem sem o 13º salário já que seus mui eficientes governadores não sabem como fazer para pagar a conta;

– a “bomba de ensaio”, jogada pelo Planalto como quem não quer nada, sobre a previsão da redução do salário mínimo em R$ 10, de R$ 979 para R$ 969, em 2018;

– a manchete do Estadão denunciando que o Senado paga despesas da manutenção da famosa Casa da Dinda para Collor (Ei! Péra lá! Deve ser engano. Essa não é uma notícia do tempo do Collor?!);

– a proibição judicial do show do Caetano Veloso em São Bernardo (na Grande São Paulo) alegando uma besteira técnica, quando todos sabem que a proibição foi feita porque o show seria realizado em um acampamento do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). “Me sinto mal, dá a impressão que não é um ambiente propriamente democrático”, disse o próprio Caetano, com toda sua baiana diplomacia;

– o Departamento Nacional de Trânsito, ligado ao Ministério das Cidades, pretendendo começar a multar, em 2018, tanto ciclistas que descumprirem o Código de Trânsito como pedestres que andarem pelo meio da rua ou atravessarem fora da faixa de pedestres. A ideia de multar ciclistas até pode ter algum sentido, mas multar pedestres chega a ser risível, não fossem os absurdos que isso pode ensejar. Imaginem os infelizes pedestres acrescentando aos temores que já sentem ao sair às nossas nada tranquilas ruas, a possibilidade de ter que pagar uma multa! Que vida!

Tudo isso me fez lembrar um personagem de Jô Soares, Sebastião, vulgo, Sebastien, “o último exilado” em Paris. Em um programa de televisão, já nos estertores da ditatura, ele ligava para sua mulher no Brasil, Madalena, querendo saber como estava o país. Conforme a mulher lhe dava as péssimas notícias, Sebastien repetia seu bordão: “Madá, você não quer que eu volte!”

Tentando salvar meu sábado de primavera, imagino algum Sebastien, ainda hoje no exterior, estaria repetindo para sua mulher:

“Madá, você não quer mesmo que eu volte!”

 

Crônica publicada em “O Popular”, em 9/11/2017

 

 

 

 

 

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