Sexta de crônicas: Atentados

 

A pele, nossa porosa muralha frente ao mundo, é a primeira a receber as pedradas do nosso gradual, lento e implacável envelhecimento. É ela. Não a culpada, mas a primeira vítima, com suas manchas e rugas pequenas e grandes. Logo, lenta e gradualmente também por dentro vamos envelhecendo. Na década dos 60 anos é quando isso fica cada vez mais perceptível. Com o peso do estresse, então, tudo se torna mais perceptível ainda.

Sei que temer o estresse aumenta ainda mais o estresse, mesmo assim tenho medo dele, o vilão de nossos dias. Tento me defender. A rigor, eu diria até que sou calma. Alguns me acham (imagine!) serena. Só eu sei que é falsa calma, serenidade aparente. De todo modo ajuda, creio. A aparência é sempre parte, ainda que superficial, da verdade.

E é então que no meio dessa reflexão sou interrompida.

Talvez você não acredite, mas é verdade. Mal acabei de escrever os dois primeiros parágrafos acima, tentando me entender com nosso inexorável processo de envelhecer, me esforçando para compreender como ele atua no intuito de aceitá-lo com o melhor dos meus ânimos porque hoje acordei mais ou menos disposta a encará-lo de frente, dizer tudo bem, vem cá, vamos ver direitinho o que você me reserva para que eu possa ir recebendo-o, não com alegria, jamais, seria muita hipocrisia da minha parte aceitar essa insanidade de querer revertê-lo e tomá-lo pelo que não é, chamá-lo de “melhor idade” me faz ter engulhos e vontade de chutar baldes, todos os baldes, desculpe, mas hoje meu esforço era o de tentar pelo menos recebê-lo, recebê-lo simplesmente, sem adjetivos, já que ele está insistindo mesmo em chegar, a cada mês me aproximando da morte – seu nome, envelhecimento, sinto lhe dizer, é sinônimo da aproximação natural da morte -, e era assim que seguiam meus pensamentos, depois de escrever os dois primeiros parágrafos desta crônica, nessa toada de resignação, de aceitar a vida como um continuum que um dia acaba, quando então meu telefone, que mantenho tolamente, equivocadamente, sadicamente ao alcance do meu braço achando que é mais prático, campainha de telefone para mim é como mandato imperial, não consigo escutá-la sem atender, e é então, continuo, que, depois de escrever aqueles parágrafos iniciais, a campainha guincha, interrompendo para todo o sempre o fio da minha meada.

Atendo.

“Olá”, diz a falsamente simpática voz masculina gravada, “você já pensou na importância de ter um seguro funerário?”

Quêêê?!!!

Bato o telefone; nem escuto o resto. Sou assim de educada com esse tipo de invasão doméstica, que lamentavelmente já me interrompeu, me contaminou, e me deixou com esse eco da palavra funerário perturbando minha manhã.

Marketing invasor é um atentado. Usá-lo como propaganda é um atentado. Leis que permitem isso são um atentado. Querer vender seguro funerário para quem está escrevendo sobre a aproximação da morte é um atentado. Encher a vida da gente de propaganda é um atentado. O capitalismo é um atentado.

E olha que sou aparentemente calma!

 

(Publicado em “O Popular”, 28/09/2017)

 

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