Do ofício de escritor

Escritor é bicho estranho. Faz coisas que pouca gente entende.

Um exemplo sou eu agora, saindo para uma canoada no Rio Xingu, aventura que inclui montar acampamentos em areia, dormir no chão, enfrentar carapanãs e um sol de torrar o couro cabeludo.

Por que estou indo?

Explico.

Para escrever nossos livros, nós, escritores, recorremos continuamente a nossas memórias, observações e, quase sempre – pelo menos no meu caso – a pesquisas. Feitas em livros, jornais, revistas, TV, Google, conversas. Qualquer lasca de informação serve. Um jeito de falar. Um nome. Uma foto. Qualquer coisa. Mas quando a gente se depara com um tema cruel e complexo como me deparei no romance que estou escrevendo agora, pode ser preciso mais do que isso.

É um romance sobre os expulsos, os desgarrados, os que perdem pai, mãe, casa, terra, ofício, país. Tem duas protagonistas: a mãe e a filha.  A mãe é uma das poucas sobreviventes da avalanche que, em 3 minutos, soterrou completamente a cidade de Yungai, Peru, com seus 20 mil habitantes, em 1970. A filha nasce em Altamira, em 1980, em plena movimentação dos povos indígenas contra a construção da Usina de Belo Monte e suas consequências.

Yungay, eu conheci. Altamira, não. E pela primeira vez ao escrever um romance, senti a necessidade de fazer meu “trabalho de campo”, ser antropóloga antes de ser escritora. Ou melhor: usar minha formação de antropóloga em apoio ao meu trabalho de escritora. Por isso, a ida a Altamira, e a escolha de ir guiada por quem, há anos, faz um excelente trabalho na região, o ISA – Instituto Socioambiental, a instituição que organiza todo ano essa canoada.

Quero conhecer os Juruna/Yudjá, os donos do rio; ver os estragos ambientais e problemas humanos criados pela construção da barragem; conhecer o Rio Xingu – sei que é belíssimo –; andar pelas ruas, bairros, bares e comércio de Altamira que, posso estar enganada, imagino de uma feiura ímpar. Cores, cheiro, vegetação, fauna, flora, comida, e muita conversa: é o que pretendo buscar por lá.

E para completar, farei a viagem em companhia da Gali, minha filha, bióloga, montanhista e, agora, canoeira. Alguém duvida que será uma maravilha?

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2 respostas a Do ofício de escritor

  1. Maria Valeria disse:

    Nossa, Zezé! Tá mais radical do que eu passa do a noite debaixo de viaduto e em entrada de pronto socorro! Viva! Já fico louca pra ler! Beijão, aproveite a experiência e escreva logo dois! Beijo da MValeria

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