Sexta de crônicas: Estamos todo em um Titanic

 

Lamento dizer a quem ainda não prestou atenção: nossas universidades públicas estão em perigo. A ponta desse iceberg já está abalroando a famosa, combativa e tradicional UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Voltei de lá há pouco. Fui participar do formidável XV Congresso Internacional da ABRALIC – Associação Brasileira de Literatura Comparada –, realizado ali em uma iniciativa quase heroica de resistência.

Digo heroica porque a UERJ está sufocada: seus professores e funcionários não recebem há quatro meses, as bolsas dos alunos estão cortadas e, mesmo assim, há um esforço hercúleo, contínuo, de não deixar a universidade parar e prejudicar seus estudantes. Professores e funcionários sem receber salários, unidos aos estudantes, resistem há meses para manter a universidade aberta e funcionando.

E se o caso dela – por depender de um governo levado à falência por uma quadrilha cujas façanhas criminosas arruinaram o Estado e a cidade do Rio – está sendo o primeiro a chegar a essa situação falimentar, a fila vem engrossando dia a dia. Olhem em volta e vejam como as universidades estão sofrendo.

Creio possível dizer que a maioria dos profissionais e cientistas brasileiros se formou em universidades públicas. Várias delas atualmente têm – e estão lutando para manter – um nível de excelência que é um dos raríssimos orgulhos de uma educação tão precária e cheia de problemas quanto a do nosso país.

Um dos maiores problemas que tínhamos – e cuja solução mal havia começado a ser encaminhada – era a falta de inclusão social. Algumas décadas atrás era verdade que a nossas universidades públicas chegavam, sobretudo, os ricos. Agora, felizmente, não é mais. A universidade se abriu para um sistema de cotas, ainda precário para sanar tanta injustiça, mas já capaz de começar a transformá-la: segundo o último censo feito pela ANDIFES, Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, seu perfil social mudou. Dois terços do quadro dos alunos têm origem em famílias com renda média de até 1,5 salário mínimo. Quase 50% dos estudantes se autodeclararam pretos e pardos. 52% são mulheres. 60% vêm de escolas públicas. 35% trabalham. 53% utilizam transporte coletivo para frequentar as aulas. Dizer que as universidades públicas atualmente são frequentadas só pelos ricos não condiz, em absoluto, com a realidade.

Será mera coincidência, portanto, que justo agora, quando está se tornando mais inclusivo, o ensino público superior, mais uma vez, esteja sendo atacado, e precisamente com o argumento hipócrita de que só beneficia os ricos? Ninguém precisa “chamar os universitários” para saber que, se começarem a cobrar mensalidade nas universidades públicas, elas voltarão a abrigar majoritariamente quem? Os ricos.

O abismo que ocorrerá se isso chegar a acontecer será um crime de consequências inimagináveis.

Em um país onde as universidades públicas são a porta mais importante para que seus cidadãos possam ter um futuro digno, não podemos ver esse iceberg começando a nos abalroar sem entender que somos nós que vivemos nesse Titanic. Sem um ensino de qualidade e gratuito para todos, é o nosso país, conosco dentro, que se afundará.

 

(Crônica publicada em “O Popular” em 17/agosto/2013) 

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