Sexta de crônicas: Memórias de cor e classe

Aí pelos 7 anos, nas férias na casa da minha avó, em Jaraguá, conheci Jussara. Era amiga da minha prima Diva, e também pequena líder de outras meninas de pele cor de café, vestidinhos de chita, pés no chão, cabelos crespos, e uma independência que merecia minha admiração. Não só isso. Admirei Jussara também pela esperteza: campeã na finca e jogo de pedrinhas, exímia nas árvores e muros, andava autoconfiante pelas ruas da cidade que parecia levar na mão.

Quis muito ser sua amiga. Mas desde o momento que me viu, Jussara foi hostil comigo. Não me queria nas brincadeiras. A menina branquela e sardenta, cabelo quase crespo mas castanho, vinda da capital, não faria parte de seu grupo. Diva entendeu aquilo como briga à toa, mas se eu não podia brincar, ela também não. Diva sempre foi protetora dessa sua prima pamonha. Para mim, no entanto, a hostilidade e raiva que vi nos olhos e gestos da menina de quem eu queria tanto ser amiga foram incompreensíveis. Nunca tínhamos sequer trocado uma palavra! O que eu teria feito contra ela, sem me dar conta? Era amiga da minha prima porque moravam na mesma cidade?

Em outra ida a Jaraguá, fiquei sabendo que ela havia morrido de tétano. Pisou em um prego enferrujado. Claro que já tínhamos escutado falar de tétano, mas nunca de criança morrendo por causa de um prego.

Mas por que pensei nisso agora?

Especulo. Sei hoje que ela era negra. Sei que seu vestidinho de chita não era considerado bonito. Que seus pés descalços talvez estivessem desprotegidos por falta de sapatos. A vida deve ter lhe ensinado na pele, e bem cedo, as desigualdades que sofria. Não sei se era mais velha ou não, mas certamente conhecia mais o mundo. Hoje tenho vários e queridos amigos negros, mas Jussara talvez já soubesse que, pouco importava querer ou não, dificilmente seríamos amigas naquele momento, e na pequena cidade onde a família dela estava de um lado, e a minha de outro.

E aconteceu que outro dia, participando de uma mesa de debate sobre literatura, quando uma escritora negra citou como exemplo de racismo um mendigo negro não poder entrar em um shopping, eu disse, um tanto canhestramente – passo longe do dom da oratória –, que esse era um exemplo mais adequado para uma questão de classe, já que um mendigo branco tampouco poderia. É preciso reconhecer e lutar ferrenhamente contra o racismo da sociedade em que vivemos, mas também é imprescindível reconhecer e lutar contra a sociedade de classes onde o pobre, seja qual for a cor de sua pele, é tratado com desigualdade e injustiças.

No final do debate, uma jovem de pele menos escura do que a de dois dos meus irmãos, cabelo menos crespo que o meu, me interpelou na saída, por ter dito o que eu disse: privilegiada como sou, jamais poderia entender o sofrimento dos negros.

Pensei ver nela uma nova Jussara, e uma tristeza grande me afligiu. Quase 60 anos depois, e aprendemos tão pouco! Brancos e negros, e brancos e negros pobres, quantas injustiças, absurdos e incompreensões continuam fortalecendo essa separação!

Por isso voltei tão longe no passado: para mais uma vez lamentar uma amizade que não foi possível.

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