Sexta de crônicas: Ainda quero ficar aqui

A sensação de continuar vendo a desconstrução cotidiana deste país é deveras amarga. A cada dia um chute, uma martelada, a mala que sumiu, a gravação que nada significou, um troca-troca de votantes, ondas que rebentam contra nossa moral e nossas instituições. Tudo mudando para pior.

Por consequência, também na cidade onde moro, tudo vai ficando pior.

Até o pobre chafariz que engrandecia a vista da minha janela ficou feio. Antes, era um chafariz digno desse nome, jatos fortes levantando a água a uma boa altura, palmeiras imponentes de cada lado. Dava para ouvir o murmúrio da água como se fosse chuva. Um encanto da cidade.

Com a crise da água, ele foi desativado. Durante algum tempo serviu de piscina para os meninos de rua, e de recanto para lavar roupa de desafortunados. Já não era bonito, mas era alegre. As brincadeiras dos meninos no arremedo de piscina, e as roupas coloridas penduradas no cimento das amuradas, eram, tirando seu lado de flagrante desigualdade, sinais de vida.

Este ano, reformado, virou outro. Em vez dos potentes jatos de água, uns jatinhos medíocres, quase obscenos, iluminados por pequenas lâmpadas que o envolvem, como um acanhado bolo de noiva do século passado. Sintam o contraste: o chafarizinho kitsch na calçada da avenida à entrada do túnel sobre o qual ergue, grandiosa, a beleza do traço arquitetônico de Lina Bo Bardi e seu museu, admirado no mundo inteiro.

A todo meu desalento com tudo que vem nos acontecendo, somou-se, agora, o desgosto de ver um exemplar da estética doriana conspurcando a visão da minha cidade.

E não. Não quero falar do número crescente de sem-teto dormindo ao vento do vão do MASP; dos crackeiros agora espalhados por vários locais; das ruas e calçadas esburacadas; dos parques mal cuidados; do conhecido catador de lixo em Pinheiros, bairro de classe média, morto com três tiros no peito em plena rua, no começo da noite, por policiais doidos para matar pobre; do climão ruim que anda pairando sobre nós como uma sombra pesada. Por dá lá aquela palha, você ofende alguém que pode vir com três pedras na mão: da política, do racismo, do machismo. Falar ficou perigoso. Escrever, então, nem me diga.

Tem gente que nunca falou, mas agora fala em mudar de país. Ainda não é o meu caso. Pelo menos, por enquanto. Mesmo porque seria difícil achar um lugar. Quando nos sentimos forçados a sair da terra onde nascemos e onde vivem aqueles que amamos, não é fácil achar um lugar.

Decidi, então, que vou fazer justo o contrário. Vou conhecer regiões do país que não estavam na minha agenda. Vou para Altamira, no Pará, onde estão o Rio Xingu e a famigerada Usina de Belo Monte. Participar de uma canoagem organizada pelo ISA – Instituto Social Ambiental – e conhecer o rio e os povos indígenas cujas terras estão em suas beiradas.

É possível que eu volte com um gosto até mais amargo na boca. Seja como for, verei o Xingu antes que ele acabe.

 

(Crônica publicada em “O Popular” em 20/07/2017)

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