Sexta de crônicas: A vez dele

 

Quem é aquele ali, cara de japonês?

De terno, postura de funcionário, no banco junto à mesinha de cimento. No canto cercado de árvores. Há duas semanas, toda manhã ele aparece. Senta-se, e antes de colocar a pasta preta ao lado dos pés, tira um reles saquinho de plástico, e de dentro dele um cachimbo, um limpador, um saquinho de fumo e um isqueiro. Com calma de profissional, faz todo o ritual do fumante: tira os resíduos com o limpador, bate a ponta na quina da mesa, tira o fumo do saquinho, sente-o nos dedos, cheira, enche o cachimbo, aperta o fumo com o dedo, acende-o com a primeira chama do isqueiro. Cachimbo na boca, volta à pasta preta para dela tirar o tablet. Liga-o. Mas não lê. O olhar se ergue para o vazio.

Pode-se jurar que está em intervalo do trabalho, aproveitando para curtir o prazer solitário de cachimbar sossegado.

Mas intervalo às 9 da manhã?

O que o coitado do japa faz ali é ruminar sua vergonha. Como contar à mulher que agora é um dos 14 milhões de desempregados do país, um recorde do qual jamais imaginara fazer parte, logo ele, trabalhador sério, minucioso, produtivo. Elogiado, candidato a promoções? Como enfrentar os olhos dela, a humilhação que sentirá frente às amigas? Eles serão a vergonha do bairro, motivo de fofocas, especulações sobre sua responsabilidade. Não foi justamente o que aconteceu quando o vizinho, três casas acima, teve que voltar para o interior, trabalhar com o irmão? Deram-lhe parabéns pela decisão sensata, tapinhas nas costas, mas por trás repetiam, Coitado! Demitido! Claro que o vizinho deu todas as explicações, injustiça grande, maldita crise e malditos políticos que só fazem levar o país ladeira abaixo. Mas alguma coisa terá feito para merecer a demissão, concordaram entre si o grupo dos amigos, amigos, não, vizinhos do bairro, ali ninguém é amigo, é vizinho. Alguma coisa ele fez, ou não deu conta de fazer, disseram. Não chegaram a formular a palavra “perdedor”; felizmente essa palavra ainda não entrou no vocabulário comum do brasileiro, mas no fundo era o que pensavam. Que uma demissão sempre é merecida. Ele também. Como iria adivinhar que sua vez logo chegaria?  A vez de enfrentar a mesma vergonha.

Os vizinhos formam com ele um grupinho que todo dia sai à mesma hora para o trabalho. Todos de terno. O que tem carro dá carona para os outros até o metrô. Dali, cada qual pega sua direção. Ele pega a linha verde para a Paulista. Nos finais de semana se veem na pracinha. Rapidamente. Não têm muito assunto. As mulheres, sim, são amigas. Não trabalham; cuidam da casa e dos meninos. Eles é que são os provedores, os responsáveis; os que fazem a vida seguir.

Mas agora, o que fazer com essa mancha?

O cachimbo está quase no fim, quando uma espécie de raio o atinge, e ele quase perde a compostura.

E se os vizinhos também estiverem fingindo como ele? Fingindo que todo dia saem de casa para trabalhar?

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 22 de junho de 2017)

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