Sexta de crônicas: Que pezinhos lindos os meus!

 

Era o que ela se dizia, admirando os pés perfeitos. Desde criança teve esse xodó pelos pezinhos rechonchudos na medida certa, dedos milimetricamente simétricos e torneados com capricho, um arco que a humanidade levou milênios para tornear e que, ainda assim, raramente acerta, uma lindeza!

Na adolescência e juventude, se alguém lhe perguntasse qual a parte do seu corpo de que mais gostava, ela, que era toda bonita, boca, cabelo, olhos, nariz, pele, seios, mãos e pernas, não hesitava em erguê-los, orgulhosa, e mostrá-los, “Meus pés”.

O marido, por certo um adorador de pés, tratava-os com um fascínio que os 50 anos de casamento foram incapazes de diminuir.

Era uma privilegiada, e sabia. Bonita, inteligente, talentosa, sem uma ruga sequer causada por problemas financeiros ou de qualquer outro tipo, bem-casada, uma filha que era o encanto de sua vida e, sobretudo, o que sempre a acompanhou desde a infância: a invejável capacidade natural de sentir a felicidade.

Felicidade, disposição de espírito que traz consigo o dom de se espalhar, de se estender nem que seja um pouco, nem que seja pelo sorriso genuíno nos olhos e no rosto, pela amabilidade. Pela vontade de fazer o bem. A felicidade costuma deixar seu rastro em volta. Quem já teve seus momentos felizes sabe que sentiu essa vontade de se ampliar, uma vontade que não vem exatamente dela, da pessoa, e sim da felicidade que ela sente.

E, assim, por ser capaz de se sentir feliz, ela era reconhecida por todos como pessoa generosa, agradável, acessível; uma grande mulher.

Uma grande mulher com seus pés perfeitos, tratados poder-se-ia dizer “a pão de ló”: cremes importados, cutículas tiradas, unhas caprichosamente pintadas, enfatizando a maciez de seda pura de sua pele que não envelhecia.

A filha, tão linda quanto ela, não herdara seus pés. Tinha-os tão achatados que praticamente não se via o arco, dedos assimétricos e arreganhados, estrutura tão fina que parecia ter só ossos. “Amada!”, a mãe lhe dizia, “o que fiz de errado para deixar você herdar os pés do seu pai?!” Dramaticamente batia no peito, colocava a mão na testa, fingia a consciência da grande culpa, e as duas choravam de rir com essa brincadeira que lhes parecia hilária. A filha também idolatrava os pés da mãe e, absolutamente, não se importava de não tê-los como os dela.

E o que aconteceu com essa grande mulher? A rigor, nada que valha a pena ser contado aqui. Vidas felizes não dão boas histórias.

Nem mesmo sua morte foi dramática. Morreu perto dos oitenta, dois anos depois do marido. Deitou na hora de sempre, sentiu uma leve indisposição noturna, tomou um gole d´água no copo em sua mesinha de cabeceira, virou para o outro lado na cama, dormiu, e não acordou mais.

Seu enterro é que, pode-se dizer, rendeu boas conversas entre os que compareceram, já que a filha cumpriu o último desejo da mãe. Cobriu-a toda de rosas vermelhas, deixando apenas seu rosto de fora e, no outro extremo, os pés perfeitos.

 

Crônica publicada em “O Popular”, em 8 de junho/2017 

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Uma resposta a Sexta de crônicas: Que pezinhos lindos os meus!

  1. Malu disse:

    Deliciosa leitura de uma escrita também.

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