Sexta de crônicas: Memória da fome


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Sou amiga da vendedora de ticket eletrônico da Zona Azul perto aqui de casa. Amizade deixada por Px, meu irmão, que morou em São Paulo e era seu freguês de cartão para estacionar o carro. Às vezes, ela vende também Yakult. É seu ponto há mais de 10 anos, haja sol, chuva ou frio.

Tornou-se minha amiga por causa dos livros. É leitora consistente – gosta de Machado, Humberto Eco, os clássicos, bons policiais. Sempre lhe empresto livros; muitos, aviso que não precisa devolver. E desde que leu meu romance “A mãe da mãe de suas mães e suas filhas”, diz que é minha fã para quem quiser ouvir. Já leu todos os meus romances, que fiz questão de lhe dar. Quando lancei o livro de contos, “Felizes Poucos”, final do ano passado, levei um para ela, mas disse, “Tenho poucos exemplares deste, portanto, desta vez, quando terminar, me devolve.” Mas qual! Depois de lido, ela quis comprar o livro. “Só faltava essa!”, respondi. “Se você gostou, é claro que ele é seu”. Passado uns dias, ela me deixou, na portaria, uns potinhos de Yakult, gesto que me emocionou: potinhos de Yakult para agradecer um livro.

Semana passada, encontrando-a ao voltar da minha caminhada, parei para comentar a reviravolta política do dia e a aguardada queda do Temer. Contei o comentário de um amigo: “A casa caiu, mas foi em nossa cabeça”. Dessa vez, ela não sorriu; não estava pra sorrisos. Respondeu, expressão desconhecida no rosto: “As coisas vão piorar, eu sei. Eu tenho medo é da fome.”

Tão clara como um céu de maio, a verdade me abre a cabeça: minha amiga já passou fome. Ela, como milhões de brasileiros, é desse vazio muito concreto que têm medo: a fome.

São, atualmente, 14 milhões de desempregados, chegando a 26,5 milhões pessoas quando o IBGE usa o critério da subutilização da força de trabalho (agregando os desocupados, os subocupados por insuficiência de horas e os inativos com potencial para trabalhar). Toda essa quantidade assombrosa de brasileiros, como a minha amiga, temem a fome quando pensam no futuro, a partir desse novo presente assustador.

Não sei se acontece com vocês, mas a tendência, quando vemos esses números, é sair pela abstração. Ficamos assustados, ficamos preocupados, mas não costumamos ter uma noção mais concreta do que significa isso. Nunca passamos fome, nós, privilegiados. Não faz parte de nossas cogitações sobre o nosso futuro próximo, por mais que o imaginemos mais duro, mais frustrante, mais infeliz. Nosso corpo não tem essa memória.

Mas eis que, na azáfama cotidiana da cidade, ela aparece no rosto de uma amiga que a conheceu, já sofreu com ela, e teme voltar a sofrer. Amiga que com seus mais de cinquenta anos, e sem faltar um dia de trabalho, corre de lá pra cá na rua atrás dos carros que estacionam, monta sua cadeirinha cativa debaixo das árvores, e me conta com apreensiva alegria que acabou de ganhar um neto.

(Publicada em “O Popular”, em 25 de maio/2017. Parte dela foi publicada recentemente, como um pequeno post deste mesmo blog.  Achando que a questão merecia mais, transformei o post neste crônica.)

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