Fome

Sou amiga da vendedora de ticket eletrônico da Zona Azul aqui perto de casa. Antes, ela vendia o cartão. De vez em quando, também vende Yakult. É seu ponto há anos, haja frio, chuva ou sol. Tornou-se minha amiga por causa dos livros. É uma leitora consistente – Machado, Humberto Eco, os clássicos, bons policiais, seus preferidos. Sempre lhe empresto livros; alguns, digo que não precisa devolver. Sei que é ela minha fã (diz isso pra quem quiser ouvir) desde que leu “A mãe da mãe de suas mães e suas filhas”, e já lhe dei todos os outros. Quando lancei o “Felizes Poucos”, final do ano passado, levei um pra ela. “Tenho poucos exemplares deste”, lhe disse, “então desta vez este vai só emprestado. Quando terminar, me devolve.” Mas qual! Ela adorou os contos e queria comprar o livro. “Só faltava essa!”, respondi. “Se você gostou tanto, é claro que ele é seu, e não se fala mais no assunto”.

Passado uns dias, ela deixou pra mim na portaria uns potinhos de Yakult, gesto que muito me emocionou: potinhos de Yakult para agradecer um livro.

E hoje, passando por ela ao voltar da minha caminhada, parei para comentar a reviravolta que houve ontem à noite, e a previsível queda do Temer. Contei o comentário de um amigo: “A casa caiu, mas foi em nossa cabeça”. Mas ela não sorriu. Não estava pra sorrisos.  Me disse: “As coisas vão piorar, eu sei. E eu tenho medo é da fome.”

Tão clara como um céu de maio, a verdade me bateu na cabeça: minha amiga já passou fome. Ela, como milhões de brasileiros, é desse vazio muito concreto que têm medo: a fome.

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