Sexta de crônicas: O Tititi da Floresta

 

Devia ser um belo dia quando Peter Wohlleben, andando por uma das magníficas florestas da Alemanha – onde trabalhava avaliando o rendimento das árvores – quase tropeçou (por assim dizer) no toco de uma grande faia, há séculos caída. Surpreendeu-se com sua cor, raspou sua casca e, por baixo, viu que a madeira era verde: o toco estava vivo. Mas se não tinha folhas para fotossíntese, como a energia necessária era produzida?

Pesquisando, chegou à conclusão que mudou sua maneira de entender como as árvores e plantas se comportam: as faias em torno estavam enviando açúcar para manter o toco vivo. Ou seja: ele “estava sendo cuidado por suas vizinhas.”

A floresta é uma comunidade: demonstra Wohlleben em seu fabuloso livro “A vida secreta das árvores”.  As árvores possuem “uma inteligência difusa, cega, localizada nos milhares de filamentos sensíveis e alertas de milhares de pontas da raiz, em uma rede de linguagem de mensagens químicas, espalhando-se através do chão da floresta via uma vasta rede de micélio simbiótico fúngico.”

Cada folha tem capacidade sensorial, explica. Quando atacada, ela “sente” o tipo de peste que a atacou. “O tecido da folha envia sinais elétricos, assim como o tecido humano faz quando é ferido, e esse sinais incitam a descarga de ‘componentes defensivos’ (os carvalhos, por exemplo, soltam taninos).” Assim, as árvores soltam “boletins” químicos e elétricos entre si, e se preparam descarregando componentes químicos de defesa.

“Elas tomam decisões, têm personalidades.” Podem ser intimidadoras, gananciosas, parcimoniosa com a energia, ou “despreocupadamente impacientes para crescer.” “Vivenciam a dor e têm memórias”.

Quem já viu uma grande árvore sendo abatida – por exemplo, uma castanheira – sabe como ela, cujas raízes se embrenham terra abaixo, não morre sozinha. Leva junto outras árvores de seu entorno, sua queda puxando as outras. Em segundos, a terre treme e ruge, e a mãe, esperneando as raízes, cai com suas crias. Ouve-se um berro da natureza. Um alerta, um aviso: vocês levaram essas, mas cuidado! Posso tardar em vingar as mortes dos meus, mas um dia vingo.

Essa parte da vingança é da minha lavra, não do Wohlleben. Mas é ele quem nos lembra que “toda criança em idade escolar sabe que árvores são seres viventes, mas aprende a categorizá-las como objetos”. É preciso entender que elas são seres viventes completos, e mudar sua categorização.

Outro alerta quem nos dá é Gary Snyder, também pesquisador ecológico, em seu ensaio “The practice of the wild”: “O mundo está observando: ninguém pode caminhar em um prado ou floresta sem que uma ondulação de aviso se espalhe a sua passagem. O tordo se arremete, o gaio guincha, um besouro esconde-se sob a grama, e o sinal é passado adiante. Toda criatura sabe quando um gavião está passando ou um humano caminhando. A informação passada pelo sistema é inteligência.”

Depois dessa, de minha parte, juro: se eu vivesse desmatando árvores, não conseguiria dormir à noite.

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 11/5/2017)

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