VIVA OS ÍNDIOS VIVOS!

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e atividades ao ar livre

Com a conclamação do título acima, Guto Lacaz, grande artista paulistano, fez um poema gráfico que, infelizmente, não dá para reproduzir aqui. Está no Facebook, para quem quiser ver.

A partir de um poema de Carlos Rennó e música do Chico Cesar, a canção “”Demarcação Já” foi interpretada por 25 cantores como Maria Bethânia, Gilberto Gil,  Arnaldo Antunes, Elza Soares, Zeca Pagodinho, Criolo, Zélia Duncan. Vocês viram o clipe? Também está no Facebook. Linda a música, necessária e urgente a letra, beleza de interpretação. Vejam um dos versos:

“Pelo respeito e pelo direito

À diferença e à diversidade

De cada etnia, cada minoria

De cada espécie da comunidade

De seres vivos que na terra há

Demarcação já!

Demarcação já!”

Estes são apenas dois exemplos da solidariedade que a questão indígena provoca hoje, neste país onde, mais de 500 anos depois, seus primeiros habitantes continuam sofrendo todo tipo de maus tratos, rejeição, desprezo, roubos de suas terras, assassinatos.

Nesta semana, cerca de 3.000 indígenas de vários povos e regiões encontraram-se em Brasília para reivindicar o respeito a suas terras, condição sine qua non para manterem suas vidas e suas culturas.

Darcy Ribeiro, de saudosa memória, maravilhava-se com o Brasil justamente por ter um povo novo, absolutamente diferente de tudo o que havia no mundo. Ao que Daniel Munduruku, escritor com dezenas de livros premiados, filósofo, doutor em educação, acrescenta hoje: “O Brasil é um país adolescente. Um país em crise de identidade, que ainda não percebeu que é formado por um conjunto de outros.”

É o mesmo Daniel, do povo Munduruku, quem disse em entrevista recente:

“Quando cheguei a São Paulo, já adulto, sentia muita resistência dos outros. As pessoas se assustavam com o que eu era, e eu me assustava com o que eles eram. Como educador, comecei a perceber que nós éramos dois povos assustados um com o outro. E que era preciso que olhássemos mais para nós, que aprendêssemos com nossas diferenças.”

Ao ser perguntado sobre qual a maior contribuição que o indígena dá ao Brasil, ele não hesitou:

“A resposta me parece muito simples: manter-se vivo. Se os indígenas conseguirem resistir a tudo isso, já estarão contribuindo muitíssimo com o Brasil. Ao se manterem vivos, esses povos [250 povos, 180 línguas] vão trazer uma riqueza cultural, espiritual, moral que só bem faz ao país.”

Frente a tudo isso, nós, que somos frutos do paradoxo de ter sangue índio vis a vis um passado de genocídio indígena, em que pé estamos? Assumimos nossa dívida ancestral com eles, ou preferimos continuar (ainda hoje!!!) mostrando-lhes apenas nossa face cruel, injusta e degradante de mestiços que negam o próprio sangue e herança?

 

(Crônica publicada hoje (27/abril/2017) em “O Popular”. Foi escrita e enviada para o jornal na terça-feira, 25 de abril, quando ainda não havia acontecido a repressão aos indígenas que foram entregar suas reivindicações ao Congresso. Por isso não fala das bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e balas de borracha com que eles foram recebidos. 

A espantosa foto aí de cima, de Alberto Villas, foi tomada emprestada de um post do Alexandre Staut.) 

Share
Esta entrada foi publicada em Crônicas e marcada com a tag , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *