Sexta de crônicas: O jovem contador

 

Saiu de casa cedo, barba feita, banho tomado, camisa e calças limpas e bem passadas. Para não se atrasar, nem tomou o café da manhã que a esposa deixara pronto antes de sair para o dia com seus alunos. Preferiu colocar os ovos mexidos e o pão francês em uma pequena marmita, e a marmita em sua mochila nova. Examinou o brilho dos sapatos que engraxara no dia anterior. Sua preocupação de contador era ser pontual, e de aparência irretocável. Como a mulher de Cesar, um contador não tem apenas que ser correto; tem que parecer correto. Havia se questionado sobre a mochila, mas decidiu que era adequado ao jovem que era. O anúncio especificara jovem. Para um jovem contador, a mochila estava bem.

Sua entrevista de hoje poderia ser a tábua da salvação.

Não era a primeira entrevista. Teve sorte no começo, recém formado em contabilidade, pediu demissão do trabalho estafante na lanchonete para tentar se empregar na nova profissão. Conseguiu logo o emprego, que também logo perdeu – a pequena firma que o contratara faliu um mês depois.

Agora, com tantas firmas fechando, conseguir o segundo emprego estava demorando bem mais do que o esperado. A falta do seu salário em casa começara a pesar assustadoramente.  A mulher não era dessas que fazia a maldita pergunta todos os dias, mas começara a olhá-lo com uma desolada interrogação nos olhos. Dera-se um prazo. Caso não conseguisse emprego como contador hoje, voltaria a trabalhar no que desse.

Ao sair, faz o nome-do-pai frente ao pequeno quadro que sua esposa colocara atrás da porta da casa, Jesus com seu vermelho coração à mostra e seu olhar de santo. Dessa vez, o gesto automático do hábito se detém. Acaba de se dar conta de que não gosta daquele olhar piedoso.  Não entende o que ele quer dizer: resignação? O coração – rubra pera envolvida pela coroa de espinhos com a pequena fogueira se erguendo da junção no alto – lhe parece mais compreensível e, mesmo assim, não lhe agrada. Na verdade não lhe agrada em nada aquele quadro. É a certeza que tem enquanto sua mão, sozinha, termina o gesto detido, e fecha a porta.

Na entrevista, acredita que foi bem.  Se o dinheiro não estivesse contado, levaria um chocolate para a mulher. Há tanto tempo não lhe faz um agrado! Reprime a vontade. A resposta sai em dois dias. Tem que esperar.

Ao entrar em casa, e ver outra vez o Sagrado Coração de Jesus à mostra, decide resolver logo o que decidira antes. Tira-o do prego e o deita no alto do guarda-roupa do quarto. Se a mulher perguntar por que o tirou do lugar, sabe o que responder. Não quer ver mais sofrimento. Basta os seus, e os que vai contando a cada momento de seu cotidiano de desempregado. Somos 13 milhões atualmente, e aumentando, se diz. Como a população da maior metrópole brasileira, caramba!

Precisamos de muita coisa. Olhar de compaixão não é uma delas.

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 30/março/2017)

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Uma resposta a Sexta de crônicas: O jovem contador

  1. Susana Ventura disse:

    Cronista de um tempo sombrio, Maria José Silveira num grande momento… Obrigada

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