Sexta de crônicas: Nós que aqui estamos por vós esperamos

 

A frase do título acima – que lembro hoje a propos de outro cemitério que recentemente vi no Nordeste – vem da inscrição no pórtico de um cemitério em Paraibuna, interior de São Paulo, e deu o título a um filme muito interessante, de Marcelo Masagão, do final da década de 90. O filme é um documentário feito com fotomontagem e texto do próprio Masagão, mostrando uma espécie de apanhado do século XX ainda tão próximo, seus contrastes e extremos.

E me lembrei da frase porque esse cemitério que por acaso vi em Alagoas é o exato oposto daquele outro, colorido e parte harmoniosa da natureza, que vi na Paraíba, e comentei aqui outro dia.

Esse de Alagoas é também pequeno, também antigo, só que hoje é apenas uma ruína infinitamente batida pela maré cheia, ao pé de uma praia de beleza esplendorosa. Pela arquitetura dos poucos restos dos seus túmulos destruídos, dá para ver que gente rica foi enterrada ali. Mas não só, claro. Resta também uma solitária cruz de madeira, embora mais recente, ainda fincada no chão.

Agora o mais interessante, o que me chamou realmente a atenção, foi o barraco de palha que invadiu as ruínas, erguendo-se sobre elas, para dar abrigo a uma família. Três crianças brincam indiferentes por entre os túmulos. Vivos que a miséria levou para o meio de um cemitério antes mesmo da morte, imagem muito apropriada ao filme do Masagão.

Tenho falado de cemitérios, e acho que ando passando a vocês a falsa impressão de que gosto deles. Não é verdade. Nem pretendo, jamais, morar em um já que, para minha ruína pessoal , há tempos optei pela cremação. Sempre achei – e creio que continuarei achando – que a melhor casa para os mortos não está debaixo da terra, e sim em nossas lembranças.

Pois considerem que nossos cérebros são habitados por 16 bilhões de neurônios – o dobro da população do mundo, calculou alguém –, com 16 trilhões de sinapses (as interações entre um e outro) em incansável movimentação. (Não à toa muita gente diz que ouve vozes na cabeça, entre as quais, aliás, eu me incluo, ainda que só ouça, até agora, minha própria voz). É aí, nessa interação contínua dos meus neurônios, que meus mortos amados vivem. É aí que os visito com certa constância. Penso, às vezes, que talvez até fosse bom dar um pouco de sossego a eles, mas ainda não. As lembranças boas são parte de nós, e acho que só abrirei mão das minhas quando eu for, também, nada mais que uma entre as sinapses de alguém.

Mas caramba! Vejam só para onde a escrita nos leva! Comecei essa crônica querendo falar apenas de um pequeno cemitério em uma bela praia onde recentemente passei dias de sol, brisa, água salgada e boa vida, e eis que a termino falando de minha própria ruína morta.

Eu, hein?!

Melhor deixar de falar de cemitérios, e ir pro tanque lavar a pilha de roupa que ficou do carnaval!

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 2 de março, 2017)

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