São Paulo é um mar de morros

 

“vai ser hoje cadela vai ser agora eu sei onde você está, sei perfeitamente, não fui eu que lhe arrumei esse emprego, não foi meu pai? era pra isso que você me queria maldita? tô vendo sua cara aproveitadora tô vendo seu cu tô enfiando meu dedo no seu cu meu canivete cadela tô vendo seu grito sua goela de mucosas sua língua roxa gritando, grita grita eu quero ver, quero ver como você é por dentro e vou te abrir como se abre uma coisa maldita uma coisa maligna um tumor na minha cabeça um cancro, uma bosta qualquer, coisa ruim, vou saber direitinho como te abrir e ver seu sangue saindo e me ensopando,  tô chegando cachorra, e vou te abrir como abro uma fruta, uma fruta branca sua pele branca amor sua pele de algodão macio, espuma do mar de Maresias, disso você gostava, não é? da espuma na sua pele, sua pele submersa na água verdeazul cabelo molhado, gosto de algas, e você me dizendo que estava tão feliz que o mar era sua casa, que um dia ia gostar de morar numa cidade que tivesse mar, era impossível pensar em São Paulo com praia não dava pra pensar em praiaspoluídas nas Marginais e praiaspoluídas na Pompéia e praiaspoluída na VilaPrudente não dava, e você ria só de imaginar e eu ria com você e seus dentinhos brancos mordendo o carmesim dessa bocadegueixa e você repetindo nãodá nãodá SãoPaulo é um mar de morros topograficamente falando, entende? você gosta de falar assim, topograficamente um mar de morros, tudo tãobonito naquele dia, sim, dá pra ver que essa cidade é um mar de morros ladeiras descendo vales subindo espigões, é isso que estou fazendo agora sem você, subindo e descendo esse mar de morros topograficamente doidamente planejadamente te matando milvezes enquanto subo e desço as ondas de asfalto e cimento atrás de você, vaca estúpida, como pode ter deixado de gostar do que gostava, como podedizerque não gostamais não quer mais, nãodápraaceitar, entende? você dizer NÃO Arturito, não!, como pode cachorra fingida? e agora você vai ver a espuma negra, bolha suja de sangue ensopando seu cabelo de alga imunda, seu corpo se decompondo, virando escamas, e vamos morar nós dois no mar, espumas brancas batendo e rebatendo na areia da praia onde agora você vai ficar, lá no fundo bem fundo onde vou te enterrar, amor, vou te enterrar no mar”

 

(Trecho do meu romance “Pauliceia de mil dentes”, Ed. Prumo/Rocco)

 

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