Meninos x meninos

 

“Ada não estava interessada em provar nada aos meninos. Não sentia necessidade de desafiar perigos. Algumas fragilidades suas já lhe pareciam demasiado óbvias. Não havia como competir com Estevão e seus amigos no terreno da força e do preparo físico como nas corridas, finca e bolinha de gude. Achava um tédio aquelas coleções de bolinhas de gude que o irmão fazia como se fosse um tesouro. Preferia jogar pedrinha com as amigas, jogo que jamais interessou a nenhum dos meninos. E claro que eles já sabiam de coisas que elas não sabiam, como os assuntos das chamadas mulheres mal faladas ou o que acontecia em alguns lugares à noite. Mas isso não lhe trazia nenhuma noção de inferioridade; em muitas outras coisas, como trepar em árvores, jogar amarelinha e pique de esconder, as meninas eram melhores. E também sabiam de muitas coisas que os meninos não sabiam: não era deles o monopólio dos segredos desvendados.

Através do irmão, Ada conhecia os pontos fracos e pontos fortes deles, assim como conhecia os seus. Os meninos eram melhores em algumas coisas, as meninas em outras, ou seja: se equivaliam.

Nada disso era dito, no entanto, nem com tanta consciência. Pior ainda: sequer passava pela cabeça da maioria das meninas, criadas de maneiras sutilmente diferentes dos irmãos, tentar se equiparar aos meninos. Estavam ali para olhar e aplaudir. E olhavam e aplaudiam.”

Trecho de um conto inédito “Das arqueologias”.

 

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