Sexta de crônicas: Entre gerações

 

A geração em que se nasce sempre está em uma posição mutante.  No começo, fica-se na ponta entre a geração dos pais e a de quem os gerou. Depois, entre os pais de cada um e seus próprios filhos. E por fim, passa-se a ser a geração da outra ponta, entre os filhos e os netos.

Isso tem alguma importância?

Nenhuma. A não ser a cotidiana constatação de que o mundo segue em seu movimento incessante, e nós com ele.

Estamos hoje, os da minha geração, na posição de ponta. A maior parte de nossa vida é quase certo que passou e, por sorte, somos partes de uma geração que mudou sem complacências muitos dos antigos hábitos e costumes.  Um deles foi assumir a posição de não envelhecer antes do tempo.

Outro dia, vi um pai/avô com seu filho e seu neto.  Esse avô teria uns 70 e poucos anos, o filho seus quarenta, o neto por volta de quatorze. Os três conversavam de igual para igual em um parque: discutiam, argumentavam, riam.  Cada um ouvindo o outro e sendo ouvido. Achei bonito: o retrato de um privilégio. Um privilégio que, em geral, nossa geração compartilha. Por isso pensei também que, salvo as exceções, esse foi outro feito do tempo que vivemos: tornar possível essa conversa amiga entre três gerações.

Quando fui jovem, meus dois avôs já tinham morrido, e com as duas avós jamais tive uma conversa de igual para igual em momento nenhum de minha vida. Elas sempre foram “as avós” muito queridas e tratadas com grande respeito e a devida distância. Meu pai e minha mãe, por sua vez, foram também muito queridos pelos netos, mas não creio que tenham tido com nenhum deles, quando adolescentes, conversas de igual para igual. Os avós, com sua bagagem de vida, talvez ensinassem muitas coisas, mas creio que raramente acontecia o contrário: os netos adolescentes e jovens ensinando alguma coisa aos avós. A conversa era de mão única, como se os velhos pudessem ensinar mas não aprender.

Hoje não é assim. Os avós – a não ser quando já bem mais velhos – mantêm algum tipo de vida ativa, e podem ter com os netos jovens uma relação de troca de inestimável valor para ambos os lados. Minhas conversas com minha neta mais velha, desde sua adolescência (ou mesmo desde quando criança, para ser sincera) são uma troca que, tenho certeza, enriquece as duas. E em certos momentos e sobre certos temas, sem exageros, acredito que mais a mim.

Isso tem alguma importância?

Acho que sim. É algo muito bom constatar que hoje as relações familiares são mais livres e, portanto, melhores. Consequências da mudança de hábitos e mentalidades que vivemos, e que foram, também nesse aspecto, mais do que bem-vindas.

É bom também porque esse tipo de constatação pode nos injetar certo otimismo. Muita coisa tem melhorado nesse mundo em que vivemos. E uma delas, desse ponto de vista, é a posição de uma geração que envelhece e que aprendeu a conversar com os jovens.

 

(Crônica publicada em “O Popular” em 7/setembro/2015)

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