Sexta de crônicas: Algo de novo está acontecendo em São Paulo

Começou com as faixas exclusivas para ônibus nas avenidas mais estranguladas pelos congestionamentos. A velocidade média dos ônibus aumentou, e cresceu também o número de pessoas que começou a preferir esse meio de transporte para chegar mais cedo em casa. Quem chiou foram os usuários de carro ao ver ônibus lotados deixando-os pra trás.

Aí vieram as ciclofaixas, interconectando a cidade com vias destinadas unicamente aos ciclistas. A chiadeira dos usuários de carro e de quem se tornou ideologicamente cego para perceber os benefícios disso foi ainda maior do que a dos ônibus: “A cidade não comporta”; “É cheia de subidas”; “Não existe ciclista pra tanta faixa.” Pela cidade toda, no entanto, o número de ciclistas só faz aumentar. Tanto para lazer quanto para trabalho. E a tendência é aumentar cada vez mais, o que até a publicidade já percebeu: além de dois grandes bancos apoiarem as ciclovias desde o começo, a propaganda recente de um imóvel diz, literalmente: “Dê seu carro de entrada, saía de apto novo”, e mais abaixo: “Reinvente-se: Ganhe uma bike e saia pedalando”.

Depois veio a proposta de fechamento aos domingos da principal avenida da cidade, a Paulista. Habitantes de uma cidade sem praias, com poucos parques para tanta gente, os paulistanos lotaram a avenida. A chiadeira dos usuários de carro aumentou: “Vai prejudicar o comércio”; “Vai prejudicar os hospitais da região”. As experiências e os estudos feitos, no entanto, provaram que não. O Ministério Público não só aceitou viabilizar a abertura da Paulista para ciclistas e pedestres aos domingos, como sugeriu que a medida seja estendida para vias da periferia, o que, aliás, já estava previsto no projeto da prefeitura.

Agora, para diminuir o número de acidentes e melhorar o trânsito, está acontecendo a mudança da velocidade máxima nas principais vias da cidade, de 60 para 50 km. A chiadeira foi alarmante: “Os congestionamentos vão aumentar”; “A cidade vai parar”; “Os assaltos vão aumentar (sic!)”. A mudança foi feita e as primeiras pesquisas demonstram: os acidentes diminuíram 18%, a lentidão do trânsito caiu 12%, a extensão dos congestionamentos pela cidade no pico da tarde caiu 19%.

Veio também o começo da implantação de 50 cinemas na periferia, aproveitando locais já existentes. E, em conjunto com a iniciativa privada, a revitalização de várias áreas públicas da cidade, entre elas, uma que vejo da minha janela: o antigo Mirante da Av. 9 de Julho. Construído nos anos 50 como um ponto privilegiado da cidade, há décadas vinha sendo desfrutado apenas por consumidores de drogas. Hoje é um café cultural com grande frequência, e muita animação nos finais de semana. O cessionário do espaço está também revitalizando o entorno, inclusive os belos chafarizes da avenida abaixo.

Com todo esse remanejamento e revitalização do espaço público, a cidade está de fato assumindo cara nova, moderna e viva, mais acolhedora. Para que isso acontecesse, foi preciso vontade política do prefeito Fernando Haddad contra os chiadores – os que consideram um insulto pessoal a priorização do espaço público depois de décadas de domínio absoluto dos carros, e os que fazem a isso uma oposição ideológica, entre os quais estão muitos dos que sempre se sentiram donos da cidade.

Aguardemos os próximos capítulos.

(Crônica publicada hoje em “O Popular”)

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Uma resposta a Sexta de crônicas: Algo de novo está acontecendo em São Paulo

  1. gali disse:

    Viva! Há esperanças para sampa!

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