Sexta de crônicas: O preso que lê

 

Tem coisas boas acontecendo neste país.

É o caso da redução da pena dos presos por meio da leitura, que vários estados já estão aplicando, entre eles Piauí, Paraná, São Paulo e Goiás. Ainda é um programa pequeno, adotado em poucos presídios, mas é o começo da aplicação de uma lei federal de 2012.

Funciona como complemento ao direito de educação na prisão, garantido por lei. Os detentos têm direito às salas de aula dentro dos presídios (pelo menos na teoria). A cada 12 horas de frequência escolar, é remido um dia de pena. Entre projetos assim, voltados à recuperação e reinserção social, está também a remição de pena por meio da leitura.

Como disse recentemente o Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, José Renato Natini:

“Se há remição pelo trabalho físico, por que não pelo mental?”

Não há como deixar de concordar com lógica tão cristalina.

Os resultados não tardam a dar seus frutos, ainda que o processo seja bem simples: os presos interessados (e com bom comportamento) participam de grupos de leitura, falando ou escrevendo sobre o que leram. A princípio, eles participam por interesse na remição – cada obra lida e resumida tira quatro dias de pena. Mas quando, aos poucos, tomam o gosto pela leitura, em geral começam a querer seguir os estudos que abandonaram.  E continuam lendo porque, ao lerem, se “sentem em outro lugar”, “se afastam dos problemas, da confusão”.

Entre os 19 best-sellers das prisões, fora a Bíblia (que é hors concours), há boas surpresas, como os dois excelentes, “A menina que roubava livros” (surpreendentemente, o primeiro colocado) e “O apanhador no campo de centeio” (o quinto). Há outros também muito bons, como “O menino do pijama listrado”, “O caçador de pipas”, “Os espiões” de Luís Fernando Veríssimo, “O Pequeno Príncipe”.

Isso quer dizer que esses novos leitores serão homens melhores?

Creio que os criadores da iniciativa não pensaram assim. Seria muito simplista. Embora, sim, entre os que defendem a leitura, exista quem acredita que o livro é capaz de, por si só, transmitir automaticamente sentimentos nobres em quem os lê, transformando seus leitores em homens bons.  Não me incluo entre eles. E ainda que não precise reafirmar aqui o quanto defendo a leitura, creio que a magia da literatura é outra.  O que acredito que ela faz é ampliar os limites da cabeça de um não-leitor; é mostrar que a vida vai muito além do que ele pensa; é lhe dar a chave para entrar no coração e na alma de um outro, seu semelhante; é abrir seu horizonte e, se ele for um cara esperto, lhe acenar com novos caminhos para sua própria vida.

O que, do meu ponto de vista, já está de bom tamanho.

 

(Crônica publicada em “O Popular”)

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