Dos problemas de quem traduz

Desta vez, trata-se de um estranho conto que só é possível no inglês (ou em outra língua que não flexione o gênero).

Alguém narra o que vê em um bar e o que lhe conta um dos seus ocupantes, um certo senhor X. Esse senhor, que conta sua história ao nosso narrador, desde logo sabemos que é homem. Mas a quem ele conta – o verdadeiro narrador do conto que, por sua vez, em alguns momentos, aparece explicitamente como o personagem secundário que escuta – em nenhum momento fica claro de que sexo é. A língua inglesa permite isso, já que não flexiona o gênero não apenas do primeiro pronome singular e plural (como em português) mas dos adjetivos: você fica astonished, seja homem ou mulher, homens ou mulheres, ou os dois.

Ou seja: se o narrador do conto “terceiriza sua narração” (como diz uma amiga), passando-a para outro narrador, e se não nos dá algum sinal que explicite se quem está escutando e escrevendo é homem ou mulher, podemos passar o conto todo sem saber.

Em português, essa questão praticamente não existe. Nossa língua, toda flexionada, logo esclarece o gênero do narrador ou narradora de uma história.

Por outro lado, pensar que basta ler a autoria do texto para saber tampouco é verdade, pois a autoria jamais informa, por si só, o sexo do narrador já que um autor pode optar tranquilamente por uma narradora feminina, como uma autora pode optar, com a mesma tranquidade, por um narrador masculino. Nem sempre isso acontece mas muitas vezes, sim.

Durma-se, então, com um barulho desses!

Portanto, quando você encontrar pela rua um pobre tresnoitado tradutor ou uma pobre tradutora tresnoitada já sabe o por quê.

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *