A Torre das Donzelas

Quem acompanha o noticiário político, já ouviu falar da “Torre das Donzelas”, o apelido da cela no Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde as presas políticas ficaram instaladas, nos anos 70. Entre elas, Dilma Roussef e Eleonora Menicucci, a nova ministra que assumiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres. Eleonora é socióloga e talvez uma das pessoas que mais conheça a situação das mulheres no país. A cela onde as duas e muitas outras militantes estiveram presas, naqueles anos, era chamada assim porque ficava em uma torre no final do pavilhão feminino do presídio. Para chegar até lá, era preciso passar pelas celas das presas comuns e subir uma pequena escadaria.

Esse apelido irônico e afetivo era uma brincadeira que ajudava a diluir um pouco a crueldade da prisão. As presas políticas – na maioria mulheres de vinte e pouco anos, que haviam sido brutalmente torturadas -, em muitos casos, ficaram ali alguns anos. O humor é sempre bem-vindo em tais situações adversas. E as mulheres que ficaram presas naquela Torre naquele momento eram bem-humoradas, vitais, convictas do que faziam e preparadas para enfrentar a prisão com plena consciência e disposição de torná-la suportável. Foram capazes de resistir e estabelecer ali sólidos vínculos de amizade que até hoje resistem ao tempo e as distâncias. Sou amiga de várias delas, e sei disso.

Hoje, quando vejo a “Torre das Donzelas” mencionada, sempre em referência a Dilma e suas companheiras, penso em como a luta contra a ditadura foi um marco na participação das mulheres nas questões políticas do nosso país. Talvez tenha sido a primeira vez em nossa história em que as mulheres tiveram realmente uma participação importante, coletiva e igualitária – e na linha de frente.

Não que tenham sido as primeiras. A participação feminina esteve sempre presente e as donzelas-guerreiras há séculos fazem parte de nosso imaginário. Muitas vezes, no entanto, a participação das mulheres nas lutas e formação do nosso país foi encoberta pela história oficial – e é o que vem sendo revelado em novas e surpreendentes investigações históricas. Eu que o diga, pois tenho me admirado, nas pesquisas para alguns dos romances que escrevi, com a riqueza da participação feminina em todos os momentos de nossa história. Aqui mesmo, em Goiás, a importância de Damiana da Cunha é uma dessas surpresas que tentei contar no meu romance “Sangue no Coração do Cerrado”.

Mas creio que é possível afirmar que foi na luta contra a ditadura que a participação da mulher realmente se afirmou, dando um salto qualitativo. Elas foram importantes, naquele momento, em todas as frentes: nas universidades, nas fábricas, no campo.

A “Torre das Donzelas” é um belo símbolo disso.

Mais belo ainda porque as donzelas que passaram por lá, como está se tornando público, continuaram e continuam a contribuir tanto na política como em outras esferas para que o país seja mais igualitário e mais justo.

(Crônica publicada no Jornal “O Popular”, de Goiânia)

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2 respostas a A Torre das Donzelas

  1. Tania Mendes disse:

    ZZ, fazia tempo que eu não vinha aqui. Foi ótimo, tanta coisa boa! Adorei este texto das donzelas, muito bom mesmo! Avanti companheiras!

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