Quinta de crônicas: “Não sou escravo de nenhum senhor”

Publicado por Tiago Botelho em Domingo, 11 de fevereiro de 2018

 

 

Sou do tipo da carnavalesca que não sai de casa, não vê desfile na televisão, nem consegue cantar nenhum samba-enredo, com as raras exceções dos que viraram clássicos, como o que exalta o rio azul da Portela e o que fala das mangueiras de um morro verde-e-rosa.  E me digo carnavalesca só por um motivo: ainda que de longe, vejo grande beleza nessa festa eufórica, nossa alegre dessacralização do que deve ser dessacralizado. Acho bonito. Acho importante. É parte de nossa cultura viva. Aplaudo.

Dou minhas credenciais logo de cara para que não me julguem uma expert quando eu lhes disser que, aqui do meu canto, percebo com toda a claridade o que todo mundo está percebendo: o carnaval do Brasil mudou. Mudança que começou de uns três/dois anos pra cá, levando outra vez o carnaval para as ruas e até conseguindo em São Paulo – agora ex-túmulo do samba – juntar milhões de pessoas nas ruas, com trios elétricos ou nos blocos mais variados, e nos mais variados bairros e lugares.

Desses três/dois anos pra cá, o carnaval tomou conta de cidades onde antes ele passava ao largo. Cidades que nunca tiveram tradição de carnaval, como essa mesma São Paulo – justificadamente chamada então de túmulo do samba – ou como nossa Goiânia onde, pelo que me lembro, o carnaval só era visto entre as paredes e muros dos clubes. Pergunto: estou enganada? Acredito que não. Ou, então, quando menina e adolescente eu era cega.

Escrevo esta crônica na segunda de carnaval, neste ano de 2018, e confesso que estou muitíssimo animada aqui da minha janela, vendo blocos passarem com músicas de todo tipo (já não apenas as marchinhas que, aliás, são todas antigas, ou então fiquei surda). Qualquer música hoje – funk, axé, forró, tum-tum-tum, o que for – vira música de carnaval, em total aceitação de nossa diversidade musical.  Melhor ainda, assisti – com enorme alegria – todo o surpreendente desfile da Paraíso do Tuiuti, com seu samba fácil de aprender e que já entrou no meu rol dos clássicos. Abram alas para tanta criatividade, meu povo! Colocar reforma da previdência, paneleiros com camisas da CBF e nariz de palhaço montados nos patos da FIESP e manipulados pelas mãos monstrengas da mídia só pode ser coisa de gênio. Lembrei Joãozinho Trinta e seu desfile revolucionário, levando mendigos para a avenida. O que foi fichinha, se comparado a colocar carteiras profissionais para dançar como escudos frente à precarização do trabalho que estamos vivendo. Não à toa as arquibancadas se levantaram e aplaudiram, cantando/gritando o samba, criação coletiva de Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Aníbal e Jurandir.

Não é nada, não é nada, mas é muita coisa! Acho admirável. O povo brasileiro, seu lamento e seu protesto, sua fome e sua música, sua dança e seus direitos, sua alegria e seu modo de mostrar que não está nada satisfeito.

E que viva o carnavalesco Jackson Vasconcelos capaz de colocar na avenida o rosto do Brasil contemporâneo!

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 15/2/2018)

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A voz da minha personagem Alelí

A voz da personagem do romance que estou escrevendo agora é exatamente assim.

Minha personagem é peruana, uma entre os 300 sobreviventes da queda do pico do Huascarán, nos Andes, que em 1970 soterrou toda a cidade de Yungay e seus 30 mil habitantes. Alelí, aos 16 anos, nos três minutos que durou a queda da gigantesca onda de faísca-fogo-lama-pedra-terra-e-ruido perdeu sua cidade, sua casa, seus pais e irmãos, e sua filha de três anos.

 

Joan Baez sings Will Ye Go Lassie, Go

#OTD 1941: Folk singer Joan Baez was born. Hear her perform a stunning version of Will Ye Go Lassie, Go recorded in Edinburgh in 1965.

Publicado por BBC Arts em Segunda, 9 de janeiro de 2017

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Sexta de crônicas: Amém

 

Mãe Chica e Maria preparam-se para dormir quando escutam batidas fortes na porta, e a voz de Nice gritando os nomes delas.

– O que aconteceu? – perguntam, abrindo a porta e fazendo-a entrar.

– Ele matou a Leide – Nice soluçou. – O maldito do Vanderlei. Na frente dos dois filhos! Tá foragido. Vim te buscar pro velório, Maria.

Mãe Chica foi junto. Gostava muito da mocinha miúda, amiga da filha há tanto tempo. Ajudaram as vizinhas a vestir o corpo frio que os policiais liberaram depois da autópsia. A mãe de Leide se agarrava ao corpo da filha, querendo partir com ela, os dois meninos na casa de uma vizinha.

O assassinato fora de manhã, antes que ela saísse para vender tapiocas, o que fazia desde que o marido ficou desempregado. Época em que ele começou a encher a cara de manhã à noite e a tratá-la a tapas, quando Leide voltava da feira. Em vez de ficar agradecido pela mulher colocar comida na mesa, aumentava o inferno da casa. “Quer me fazer de besta? Pensa que sou cego? Sei bem o que tu vende, lacraia!  É tudo menos tapioca. O dia que eu te pegar tu vai tá morta.” Um dos meninos, o menorzinho, se escondia atrás da mãe, o maior se punha na frente.  Os três apanhavam até o pai cair na cama e pegar no sono ruminando ódio.

Na manhã seguinte, no enterro, poucas pessoas. Maria viu Saião que ficou de longe. Depois que o caixão baixou, ele sumiu. Tinha namorado Leide quando adolescente. Foi quem a apresentou para o amigo Vanderlei. Ninguém sabia o que estaria se passando por sua cabeça.

– Bem que Saião podia pegar o canalha e entregar pra polícia. Num dá mais pra ver marido matando mulher – e a raiva saía no cuspe da boca de Nice.

Maria estreitava os olhos, torcia as mãos. O que fazer com essa raça de homens? Como fazê-los entender?

– Quem casa errado nem em casa está a salvo – soa baixinho a voz de Mãe Chica, apressando os passos para se afastar da roda, voltar direto para casa e retomar a serenidade de suas coisas. Sua pequena sala arrumada, suas panelas brilhando de limpas, seu fogão sempre coberto com forrinhos que ela mesma borda, os panos de prato de saco de aniagem também branqueados por ela e bordados com os nomes dos dias da semana, e sobretudo no quarto com poucos enfeites, seus santos perto da cama coberta com a colcha bonita que a filha lhe deu.

Ajoelhou-se e rezou.

“Por Leide, pelos seus filhos agora órfãos, por todas as mulheres assassinadas da cidade e os órfãos que deixaram; por Maria e seu noivo, Jurandir, que ele continue sempre um bom homem e trate minha filha com amor é o que humildemente lhe peço minha Nossa Senhora da Boa Ajuda, minha santinha poderosa que tudo vê e também foi mãe, amada pelo esposo e pelos filhos, e que nunca jamais sofreu nenhuma violência apenas por ser mulher. Amém.”

 

Crônica publicada em “O Popular”, em 18/01/2018

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Sexta de crônicas: As certezas que podemos ter

Novo ano, novo novo novo. Fixemo-nos nesta palavra novo, e pensemos na adorável mentira que, por si só, ela nos traz ao nos fazer pensar que estamos abrindo uma nova página intacta e branquíssima em nossa vida neste novo janeiro. Essa, justamente, é a primeira certeza que podemos ter do que nos acontecerá neste novo ano: continuaremos, candidamente, acreditando em belas mentiras. Bem contadas e respaldadas no simbólico (como essa), mal contadas ou mal contadíssimas, como as que abundaram no ano que passou. Muito acreditarão. Sobretudo quando forem, mais outra e outra vez, bombardeados com elas pela grande mídia. Acreditarão. Acreditaremos.

Outra certeza: o chocolate amargo, aquele composto com pelo menos 70% de pó de cacau, continuará nos trazendo coisas infinitamente boas, tais quais: proteção ao coração, diminuição da pressão sanguínea e do colesterol, riqueza de antioxidantes e – bem conhecida nossa, os chocólatras – uma interessante sensaçãozinha de bem estar. Que delicioso alívio saber que isso continuará a nos acontecer!

E, sim, continuaremos a nos espantar com grandes e pequenas coisas. Para citar um exemplo, conto o que acabei de descobrir hoje sobre a nossa própria voz. A diferença que existe entre o som que nós mesmos escutamos quando conversamos e o som que os outros escutam. É a mesma diferença que percebemos quando escutamos a nossa voz gravada e sentimos que ela está levemente estranha. É mesmo a nossa voz? Sim, é. O som da voz que vem da gravação nos chega conduzidas apenas pelas ondas do ar. Quando falamos, no entanto, o som que produzimos nos chega não apenas pela condução do ar como também através da materialidade do nosso corpo. Nossas cordas vocais emitem vibrações que alcançam os nossos ouvidos através dos nossos ossos, carne, e da acústica do nosso cérebro. É a voz que nós – e só nós – escutamos. Quem nos ouve escuta apenas o som conduzido pelo ar, aquele mesmo som que também escutamos ao ouvir nossa levemente estranha voz gravada.  O que continuará a acontecer exatamente assim no ano vindouro. Não é espantoso?

Outra certeza que podemos ter: para corrigir um erro é preciso, primeiro, reconhecer que erramos.

Outra – e talvez a mais importante – é que continuaremos, no fundamental, sendo quem somos. Mesmo com nossas pequenas incertezas e grandes mudanças. É certo que muitos de nós mudarão bastante – o que, sendo para melhor, será ótimo. Outros, infelizmente, mudarão pouco. Continuarão com suas velhas e desgastadas certezas, olhando o mundo com a incompetência de sempre. Pobre deles! Outros mudarão de maneira quase imperceptível, achando até que não mudaram – e tudo ficará como antes.

Ah, sim: ratos e gatos continuarão sua eterna peleja enquanto o sol e a lua farão, serenos, os mesmos périplos pelos céus.

Agora, além dessas, francamente, estou fraca de certezas. Teremos eleições? Serão legítimas? Haverá alguma possibilidade de correção dos danos feitos ao país?

Ou continuará tudo um grande salve-se quem puder?

Taí  questões sobre as quais nenhum de nós pode ter total certeza.

 

Crônica publicada em “O Popular”, em 4/1/2018

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Sexta de crônicas: Uma voz distante daqui

Não é toda noite, mas com frequência acordo na madrugada com uma voz no ar que chega até meu quarto. Não é um canto com letras. É som. Nem alegre, nem triste, nem ode, nem lamento: apenas som. Parece vir do fundo do lugar no corpo humano onde nasce a música.

Não sei quanto tempo dura, porque volto a adormecer.

Não sei de quem é: minhas janelas têm cortinas pesadas e a sonolência da madrugada me impede de ir até lá, abri-las e tentar ver no escuro da noite a quem ela pertence.

Lá fora é uma praça, de fato um largo por onde passa um viaduto, uma grande avenida, e árvores frondosas nas ruas contornando a pequena praça. Seria difícil discernir onde está a pessoa dona dessa voz que intuo masculina.

Provavelmente é de um sem-teto, há muitos sem-teto dormindo por aqui.

O que sei com certeza é que é forte e livre essa voz, sem paredes que a impeça de se espalhar pelo largo e chegar até mim, no alto de um 11º andar, em um quarto com cortinas blackout.

Seja como for, seja de onde vem, é linda.

Penso que é mais um privilégio desse lugar onde moro. Poder ouvir na madrugada a música fluir como se de uma fonte misteriosa de beleza.

Penso em seu dono.

Com certeza um sem-teto, como disse antes. Terá sido cantor?

É provável.

Imagino a vida que teve, suas alegrias e infortúnios incorporando-se à sua música e fazendo dela sua forma de se colocar no mundo, de saber quem é. O dom que hoje ele preserva com mais garra e confiança. É preciso muita confiança na própria capacidade de produzir beleza para soltar a voz como ele solta, sabendo que seu auditório é composto por pessoas que dormem. Confiança para saber que, se não forem completamente obtusas, reconhecerão não terem sido acordadas em vão.

Nos momentos em que o escuto, sempre penso que no dia seguinte procurarei debaixo do viaduto quem, dos que dormem ali, é ele, o dono da voz magnífica. Direi o quanto, mesmo em minha sonolência, fico deslumbrada.

Agradecerei.

Quando o dia amanhece, no entanto, adio essa procura. Talvez querendo preservar o mistério. Ou pensando que qualquer hora dessas ainda faço isso. Ou não. Talvez o melhor seja realmente permanecer bem-aventuradamente ignorante de quem produz esse som encantatório que voa na madrugada e ajuda a criar a magia possível em uma cidade grande.

 

Crônica publicada no jornal “O Popular” em 21 de dezembro de 2017

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Sobre o Rio de Janeiro, Rubem Fonseca e “Felizes Poucos”

Maria Lucia Felix Bufáiçal é uma excelente escritora que publica suas crônicas, como eu, no jornal “O Popular”, de Goiânia. Hoje ela comenta generosamente o meu livro de contos, “Felizes Poucos” que, com sua permissão, republico aqui.

Os Rios, os livros, a vida

De repente, esse Rio, ferido de todo jeito, alquebrado, mas vivo, pulsante, inteiro. Cidade que é carícia e dádiva.

Além de estar realmente aqui, passando uns dias, ainda, por acaso, achei no apartamento um livro de Rubem Fonseca (Romance Negro e Outras Histórias), um dos escritores brasileiros modernos que mais escreveu com o Rio de Janeiro de permeio: tudo que ele narra acontece aqui, e os personagens, com pouquíssimas exceções, são cariocas. Só que nesse livro ele fala de uma cidade que conheço muito pouco, que é o Rio do Centro, do Catete, da Glória; das avenidas Rio Branco, Presidente Vargas; das ruas adjacentes. Os tipos: os moradores de rua, as prostitutas, os cafetões; os meninos desamparados, as noites de frio debaixo das marquises, os degredados filhos de Eva, as muitas misérias. Numa comparação, como diz a Aparecida, numa comparação, eu mesma nasci em Botafogo, num hospital que já desapareceu, acho; morei depois em Santa Teresa, num internato de freiras, lá no alto, como se já nos preparássemos para subir aos céus. Mais tarde, quando vinha de férias, me hospedava com minha amiga, Maria Luiza Xavier de Almeida Borges – hoje, uma das melhores tradutoras do Brasil -, em Copacabana. Já me hospedei também em Laranjeiras, na casa de meu tio Afonso; casada, morei o tempo todo em Ipanema, e sempre acabo voltando pra cá. Existe um caráter e um perfil pra cada um desses bairros e dessas ruas, como acontece em muitas cidades grandes do mundo. Minha experiência do Rio é mais desses traçados de Ipanema, das praças, da praia daqui. E esse bairro, a meus olhos, está como sempre esteve, à parte algumas mudanças pontuais – uma loja que mudou de dono, um sobradinho que virou curso de inglês, coisas assim. Ipanema está alegre e cheia de gente bonita, como sempre (passo pela porta do prédio em que morei, procurando alguém que já fui, cheia de sonhos. E penso: mas que viagem quero fazer, a de dentro ou a de fora? Porque se for a de dentro, devo esperar que a dor passe, para eu prosseguir). E quando não estou na praia ou passeando, fico em casa lendo. Entre outros, trouxe comigo o livro de contos de Maria José Silveira, “Felizes Poucos”, lançado no ano passado e que ainda não havia lido. Muito bom. Um mergulho na alma dos que lutaram contra a ditadura no Brasil, as situações que viveram, as reflexões que faziam, as contradições que enfrentavam dentro dos movimentos clandestinos, da luta armada. Um livro corajoso, especialmente por falar de um tempo que muitos preferem esquecer e alguns até parecem querer reviver: a ditadura militar no Brasil. A truculência absurda da repressão, a brutalidade. Tudo que até hoje, nesse mesmo momento, continua existindo de muitas outras maneiras, pois a injustiça nunca cessou, nem a crueldade da diferença. Belo livro, e necessário.

Olho agora o mar tão lindo, as pessoas andando, entrando na água, rindo, essa imensidão de luz, tão longe desse mundo que a autora penetra, e também das outras vidas que Rubens Fonseca descreve.

Encontro-me dentro de um cartão postal, sei disso. Bem distante dos calabouços dessa vida, bem distante das sarjetas e becos dessa cidade, bem longe da tristeza dessas histórias. Como se não existisse a pátria amarga Brasil, o país sórdido e paupérrimo, um outro mundo.

E leio tristemente, no jornal aberto por acaso, que o souvenir, a lembrancinha que os turistas mais estão comprando, aqui no Rio, nesse começo de verão, é um mini fuzil.”

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Sexta de crônicas: Na Estrada

 

 

A noite pega os dois longe do destino. Cansados, decidem pernoitar no primeiro local que encontram, um posto-dormitório de caminhoneiros.

No pátio, sem contar o Fiat deles, só caminhões estacionados, muitos, e no salão do restaurante, só homens, pelo menos à primeira vista, só homens, e muitos, testosterona e rudeza preenchendo o ambiente.  “Serão uns 100?”, Maria pergunta a Jurandir que responde, “O quê?” “Os homens.” “Exagero, máximo uns 60.” Mas tampouco ele sente-se à vontade, um estranho ali, lugar perdido no descampado, há bem meia-hora atrás eles não viram outro lugar onde parar.

Serviram-se no balcão self-service a comida sem graça e bruta, feita para profissionais da estrada, pediram uma cerveja, “Bem gelada, por favor”, acrescentou Maria ao atendente sem atentar na impossibilidade de seu pedido. Famintos, comeram o que conseguiram, mas na cerveja morna o único que tocou foi Jurandir, e pouco. Maria ainda tentou, “O que está mais gelado, o guaraná ou a coca cola?” “Só tem Crush”, respondeu o rapazinho. Ela pediu água.

Comeram rápido, sem pensar em sobremesa nem café, prontos para se espichar em uma cama, para algo havia de servir o cansaço do dia. Quando já iam pedir a conta, entra por uma porta nos fundos uma mulher de vermelho e colarzinho de contas brancas que sobe com discreta elegância em uma espécie de palco armado que só agora os dois notavam. Ela tem um microfone na mão, ligado a um aparelho de som que começa a tocar o acompanhamento de uma dessas melodias que falam de tapas, beijos e dor de corno. Mais homens, saídos não se sabe de onde, aparecem e se aproximam do pequeno palco de copo na mão. Maria pensa, aí estão as cervejas geladas.

E eis que a voz da mulher se ergue como um vento incongruente que parece varrer aquele fim-de-mundo. É extraordinariamente bonita. Os homens calam-se, e além da música não se ouve sequer o barulho dos talheres, nada, tudo ao redor silencia frente à voz surpreendente.

Quando a mulher faz uma pausa, Maria pergunta ao atendente que ficara como hipnotizado ali ao lado, “Quem é ela?”. “Dona Clélia, esposa de Seu Aristides, aquele ali” – aponta para um caminhoneiro troncudo que olha para a cantora com adoração. “Ela viaja sempre com ele, e quando passam por aqui, pede pra cantar. É por causa do palco – nem todo lugar tem palco,” ele diz com orgulho. “Tem quem diz que o palco foi feito pra ela. Pelo Seu Amâncio, o dono daqui” – e aponta, sentado lá no fundo, um senhor gordinho que, mesmo de longe, lança ao palco um olhar embevecido.

E só bem mais tarde, a magnífica Dona Clélia, em seu vestido vermelho absolutamente decente, despede-se por estar muito cansada depois de atender a vários pedidos de bis daqueles homens embrutecidos pelo cansaço e ainda assim capazes de escutar quase com reverência ao dom precioso de uma voz que inesperadamente canta dentro da noite em uma estrada.

 

Publicado em “O Popular” em 08/12/2017

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Um título enganador :  “Diários da patinete: sem um pé em Nova Iorque”,  de Lidia V. Santos

 

Pelo título, quase cometi o erro de não ler esse livro. Precipitadamente, achei que seria mais um guia de Nova Iorque escrito por alguma jovenzinha deslumbrada.

Qual nada!

Em vez da jovem deslumbrada, a autora é uma renomada professora (muitas vezes premiada) que lecionou por onze anos na Universidade de Yale, e nos faz viajar por suas referências eruditas, seu humor, e a história e ambiente da exuberante cidade que conhece bem.

Pode até ser considerado um guia, sim, mas cujas referências são Xavier de Maistre e outros tanto notáveis que estão permanentemente rondando as páginas desses diários.

“Temporariamente condenada à imobilidade” por um escorregão, Lidia foi capaz de fazer disso um pretexto para nos dar um livro delicioso e envolvente sobre uma cidade que muitos amam de paixão (inclusive eu).

Obrigada.

 

 

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Uma voz distante daqui

Não é toda noite, mas com frequência acordo na madrugada com uma voz no ar que chega até meu quarto. Não é um canto com letras. É som. Nem alegre, nem triste, nem ode, nem lamento: apenas som. Não sei quanto tempo dura, porque adormeço ouvindo-a. Não sei de quem é: minhas janelas têm cortinas pesadas e a sonolência me impede de ir até lá, abri-las e tentar ver no escuro da noite a quem ela pertence. Minha janela dá para uma praça, de fato um largo por onde passa um viaduto e uma grande avenida. Seria difícil discernir onde está a pessoa dona dessa voz que intuo masculina. Provavelmente é de um sem-teto, há muitos sem-teto dormindo por aqui. O que sei com certeza é que é uma voz livre, sem paredes que a impeça de se espalhar pelo largo e chegar até mim, no alto de um 11º andar, em um quarto com cortinas blackout.

Seja como for, seja de onde vem, é linda.

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Sexta de crônicas: Domingo pede cachimbo

           Caminhar pelo parque depois da chuva, respirando o ar que acabou de se banhar, sentindo cheiro de terra molhada e pisando nas folhas caídas no chão é o mais perto da natureza que posso chegar saindo de casa a pé, sem planos na cabeça a não ser caminhar, deixar a mente em paz, ela que está super desconcentrada, bom seria poder lhe dar um descanso, esvaziá-la, observar apenas essa minúscula natureza nesse trechinho meio que escondido, onde ainda não apareceram os enfeites do Natal, mas que adianta?, semana que vem já tem amigo oculto, o que levar dessa vez?, e pros meninos, então, o que dar este ano praqueles três, todo dezembro a mesma obrigação de resolver isso, bem fazia mamãe que já começava a comprar os presentes em janeiro, felicidade deve ser isso, chegar no Natal sem ter que pensar no Natal… Eca!, quase piso nesse cocô de cachorro! Como está odiento o desleixo desse parque, Doria, Doria!, é essa a sua Cidade Linda?! Não tem natureza que aguente! E tem sem-teto novo no parque, grandão, alto, barrigudo, tentando fazer exercício na trave, claro que não vai conseguir levantar o corpão, mas não desiste, continua, e mais adiante os jovens se vestindo e maquiando de palhaço ocupando as mesinhas de sempre, hoje são mais, em geral ocupam duas mesas, hoje estão ocupando três, acho divertida a aprontação deles, e Oi, Solange, bom dia!, cumprimento a sem-teto que há meses conseguiu se alojar na pequena área coberta onde empilhou suas caixas bem envolvidas em plástico e ocupou o banco onde dorme e vive, sempre de celular na mão, às vezes conversamos mas nunca lhe perguntei se é com  jogo, conversa no Facebook, ou leitura de jornais que ela se entretém, e não vai ser hoje que vou perguntar porque não vou parar, fiz pouco exercício esta semana, mal fui à ginástica e quase não caminhei por causa da chuva, e dou outra volta passando outra vez pelo gordo que agora parou de tentar se erguer nas traves e está dizendo, “Não é porque a pessoa é sem teto que deve ser desleixado, tem que se cuidar, exercitar, fazer meditação, tomar muita água, cuidar da saúde, que saúde é a coisa mais importante que a pessoa tem”. Custo a perceber que ele está falando sozinho e me dá até vontade de parar para escutar sua fala inesperada, mas é como ele mesmo acabou de dizer, é preciso exercitar e caminhar é meu exercício, então continuo, passando pelo segurança a quem resolvo perguntar só pra, sei lá, exercitar também as perguntas vãs, “O senhor pode me explicar porque este parque está tão sujo ultimamente?”, “Isso não é conosco, senhora, somos só segurança”, “Hoje tem até cocô de cachorro no passeio ”, digo consternada, ao que ele responde com a paciência possível a um cara de pau-mandado, “Isso já é da consciência de cada um, senhora.” Sem mais comentário, sigo caminhando porque nisso ele tem razão mas não quero dar meu braço a torcer para quem está mais preocupado com os jovens palhaços do que com a inevitabilidade de alguém pisar naquele cocô, e só espero que quando isso acontecer – e acontecerá -, a voz da pessoa esbravejando  seja capaz de agitar todo o parque, o que é possível já que o parque é mini, fica no antigo quintal de um casarão derrubado da Paulista cujo proprietário conseguiu preservar seu minúsculo fragmento particular de mata atlântica que por algum milagre até agora não foi derrubado, mas quer saber? Chega de natureza. Vou é caminhar pela avenida que hoje é toda dos pedestres.

 

(Crônica publicada em “O Popular”, em 23/11/2017)

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